19.8.06

"VINGANÇA": AUGE E DECLÍNIO DE UMA ESTRELA

1951 marca o início do declínio de uma das maiores e mais famosas cantoras brasileiras de todos os tempos, Linda Batista. Vingança, samba-canção do compositor gaúcho Lupicínio Rodrigues – saído recentemente de três sucessos espetaculares, Nervos de Aço, Esses Moços e Cadeira Vazia, ambas as músicas gravadas por Francisco Alves – gravado por ela, alcança o topo das paradas de sucessos em meados do ano, permanecendo como uma das mais vendidas e executadas por diversos meses, terminando por se constituir no maior sucesso da cantora até então.

Lupicínio Rodrigues interpretando Nervos de Aço, de sua autoria.



Elis Regina interpretando Cadeira Vazia (Lupicínio Rodrigues).



Gilberto Gil interpretando Esses Moços (Lupicínio Rodrigues).




Filha do ventríloquo e humorista Batista Júnior, e irmã mais velha de outra estrela, Dircinha Batista, Linda, aliás Florinda Grandina de Oliveira, nasceu em São Paulo aos 14 de junho de 1919, logo se mudando para o Rio de Janeiro, indo morar no bairro do Catete.
Como sua irmã Dircinha, começara a carreira artística ainda menina; aos 12 anos, começa a freqüentar alguns programas de rádio, acompanhando sua irmã ao violão, instrumento que aprendera a tocar alguns anos atrás com Patrício Teixeira. E foi devido a um atraso de Dircinha que Linda estréia no rádio, mais exatamente na Rádio Cajuti, em 1936, interpretando Malandro, de Claudionor Cruz (1910 - 1995), em programa comandado por Francisco Alves. Sua bela voz, a boa presença no palco e uma ambição desmedida lhe proporciona continuar na Cajuti por mais algum tempo.
Sua força no palco era tamanha que, no ano seguinte, 1937, mesmo sem o sucesso esmagador de uma Carmem Miranda, por exemplo, se torna a primeira Rainha do Rádio do Brasil, em um concurso promovido no Iate das Laranjas, um barco carnavalesco atracado na Esplanada do Castelo, título esse que manteve por 11 anos consecutivos. Com 17 anos, casa-se com Paulo Bandeira, detestado por sua família, especialmente pela poderosa Dona Neném, sua mãe, por ser um joão-ninguém, sem emprego definido. Devido à pressão, ela, já grávida, perde o bebê, largando o marido logo depois, antes de um ano de casamento. Linda não era mulher de ter nenhum homem a seguir-lhe os passos.
Ainda em 1937, grava seu primeiro disco pela Odeon, em dupla com Fernando Alvarez, interpretando as músicas Chimarrão (Djalma Esteves) e Churrasco (Djalma Esteves/Augusto Garcez). Depois de participar do filme Banana da Terra, de Downey e Byington, argumento de Braguinha, roteiro de Mário Lago e com um elenco estelar (Carmem Miranda, Aurora Miranda, Dircinha Batista, Almirante, Aloísio de Oliveira, Bando da Lua, Linda Rodrigues, Carlos Galhardo, Castro Barbosa, Virgínia Lane, a "Vedete do Brasil", Lauro Borges, Oscarito e uma Emilinha Borba absolutamente linda em seus 14 anos), e permanecer atuando em São Paulo por vários meses, Linda Batista volta para o Rio de Janeiro, sendo imediatamente contratada para o Cassino da Urca, que estava perdendo Carmem Miranda para Hollywood, onde permanece de 1939 a 1945.
Como conseqüência, sua vida profissional entra numa roda-viva de sucessos e glamour; em 1940, já contratada pela Victor, grava Passei na Ponte, uma marcha-conga de Ary Barroso, de quem se torna uma de suas principais intérpretes. Em 1941, excursiona, pela primeira vez, à Argentina, enquanto lança dois grandes sucessos, Tudo é Brasil (Vicente Paiva/Sá Roriz) e Batuque no Morro (Russo do Pandeiro/Sá Roriz). Seguem-se vários outros grandes sucessos que colocam a artista nos píncaros da glória.
Esse foi o período de maior popularidade para a estrela Linda Batista. Íntima do poder, freqüenta o Palácio do Catete com a desenvoltura das grandes estrelas, tendo recebido de Getúlio o título de "Patrimônio Nacional". Mulher da noite, Linda tinha mesa cativa na boate Vogue, a mais badalada da cidade, recepcionando amigos e puxa-sacos. Sua garagem parecia uma revendedora de carros, uma vez que a estrela possuía, segundo se especulava, nada menos do que 14 carros, importados, naturalmente.
Em 1942, no Cassino da Urca, acontece sua famosa briga com Emilinha Borba por causa de Orson Welles, considerado pela crítica internacional como o diretor do melhor filme de todos os tempos, Cidadão Kane.
Welles estava no Brasil filmando o inacabado "It's All True" (Tudo é Verdade) e não saía do cassino. Linda Batista já era a estrela absoluta do Brasil e do Cassino da Urca, e Emilinha, uma linda mocinha, cuja graciosidade encantava a todos à sua volta. Welles, então, inicia um romance com a estrela, enquanto permanecia no Rio de Janeiro em farras e bebedeiras. Até que coloca os olhos em Emilinha, já com postura de futura estrela. O cineasta não perdoa a pouca idade da cantora, nem o fato de ela namoriscar o cantor Nilton Paz, com quem gravara a marcha Pirulito em 1939 (participando do coro). Começa a assediá-la, prometendo levá-la para Hollywood; também, enviava-lhe bilhetes em que se dizia o "Rei do Café" e outros agrados. Linda, sabedora do que estava acontecendo, e morta de ciúmes, descarregava suas frustrações na mãe da jovem cantora, serviçal no Cassino, humilhando-a sempre que podia.

Trecho do filme It's All True (Orson Welles).



Trecho do filme It's All True (Orson Welles).



Até que um dia, completamente descontrolada, a temperamental estrela cerca Emilinha nos bastidores, dá-lhe algumas porradas e rasga seu melhor vestido com o qual se apresentaria dali a pouco. Já parecia antever que aquela cantora, ainda menina, acabaria por tomar-lhe o reinado e se tornar a nova "Estrela do Brasil". Reza o folclore que Nilton Paz, incomodado com os bilhetes endereçados a Emilinha, interpela o cineasta de 2 metros de altura, dizendo-lhe que se ele, Orson Welles, era o "Rei do Café", então, ele, Nilton Paz era o "Rei das Porradas". Welles, sentindo a barra, teria deixado Emilinha em paz definitivamente... E com Nilton Paz.
De acordo com Simon Callow, biógrafo de Welles, no segundo volume (de um total de três) da biografia do renomado artista (com ele, todo de branco, de braços dados com Elisete Cardoso e com Ademilde Fonseca), Roberto Meltzer, que acompanhava o diretor em suas aventuras brasileiras, em memorando enviado à RKO, que produzia It's All True, Linda Batista é descrita como "a maior sambista do mundo", cantando melhor que Carmen Miranda. Ainda, segundo ele, Linda, já bastante forte à época, "come muito".
Já Emilinha é apresentada de forma nada lisonjeira; na visão de Meltzer, ela era uma cantora morena, "que vende a si própria e suas músicas com competência", seja lá o que isso quer dizer. Deve-se deixar claro que Emilinha, em 1942, estava praticamente em início de sua carreira profissional, Meltzer sendo profético, pois, a competência de Emilinha a levaria ao estrelato cinco anos depois, quando estoura em todo o Brasil com a rumba Escandalosa e com o samba-canção Se queres Saber.

Maria Betânia e Omara Portuondo interpretando Escandalosa.



Thais Bonizzi interpretando Se Queres Saber.



Desde essa época, então, as duas nunca mais se deram bem. Quando trabalhavam nos mesmos filmes, nem se cumprimentavam. Inclusive, da turma do rádio, uma das poucas artistas a não freqüentar a casa de Linda, fosse para jogar, conquanto, em sua casa se jogava uma barbaridade, fosse para saborear a famosa feijoada preparada por Dona Neném, a poderosa mãe das irmãs Batista, era exatamente Emilinha. Segundo Jorge Goulart, em depoimento a Alcir Lenharo, sabia-se entre os artistas que Linda usava de todo o seu prestígio como estrela absoluta do Cassino da Urca para dificultar a ascensão de Emilinha Borba naquele espaço.
Outro motivo era que Dircinha Batista, muito amiga de Marlene, ficou muito visada pelas fãs de Emilinha, que a vaiavam constantemente. Quando isso acontecia, quem tomava satisfação era Linda, que, bastante forte e brava, descia o pau nas meninas. A coisa chegou a tal ponto que, certa feita, Emilinha, para não tomar outra surra de Linda, teve que fugir pelos fundos da Rádio Nacional.

Documentário sobre as irmãs Linda e Dircinha Batista.

Parte 1.



Parte 2.




Dircinha, especialmente vaiada naquele dia, choramingava atrás de Linda, reclamando das vaias. Logo, se via uma Linda Batista histérica e descontrolada gritando que naquele dia Emilinha
não escaparia de levar umas pancadas. Emilinha, acusada por Linda de mandar suas fãs vaiarem Dircinha, avisada, segundo se comenta, pelo cantor José Ricardo, amigo de praticamente todas as cantoras brasileiras, assim que acaba de cantar, foge pelos fundos, escapando, desta forma, da fúria da antiga Rainha do Rádio.
Nesse ano de 1951, as duas teriam um ajuste de contas definitivo. Não em porradas, mas musical. Em maio, Emilinha lança o bolero Dez Anos, de Rafael Hernandez, de origem porto-riquenha, e um dos mais famosos compositores latino-americanos, autor de grandes sucessos internacionais (Canción del Alma – cuja versão para o português se tornou um dos maiores sucessos de Carmem Costa - Ausencia, Amor Ciego, Cachita, Lamento Borincano, Camparitas de Cristal, Capullito de Alelí, Perfume de Gardenia e outros), com versão para o português de Lourival Faissal.

Caña Son interpretando Capulito de Aleli.



Papo Valle y su Trio Borinquen interpretando Canción del Alma.



Debra Galegos interpretando Lamento Borincano.



La Sonora Santanera interpretando Perfume de Gardenia.



Carmita Jimenez interpretando Rafael Hernandez (1).



Carmita Jimenez interpretando Rafael Hernandez (2).



Dez Anos
não era uma música recente; já fora gravada tempos atrás por Toña La Negra, a diva mexicana de grandes sucessos como Babalu, Noche de Ronda, Se Mui Bien Que Vendrás,Alma de Vera Cruz, Mujer e uma das principais intérpretes de Agustin Lara (Golondrina, Azul, Aventurera, Nadie, Oración Caribe, Enamorada), alcançando grande repercussão no me
rcado latino. Faissal, a ouvindo no original, sentiu que ali estava uma composição com amplas possibilidades de sucesso no Brasil. E naquela mesma noite, consoante as revistas da época, a versão em português da canção já estava pronta. Emilinha, no auge, foi lembrada pela família do compositor como a intérprete ideal para a música; a cantora, assim que ouviu a música, nem vacilou e, pouco depois, a gravava, além de incluí-la em seu repertório.

Toña la Negra interpretando Oración Caribe (Agustín Lara).



Toña la Negra interpretando Alma de Vera Cruz.



Toña la Negra interpretando Escarcha.



O impacto foi imediato; em junho, a música já estava em 5º lugar na parada de sucessos da Revista do Rádio atingindo o primeiro lugar ainda no mês de julho. Aí já se tornara uma febre nacional, permanecendo nas paradas até dezembro, quando as músicas carnavalescas começam a ser executadas. O sucesso da música foi creditada não só à beleza da música, mas, também, pela bela versão efetuada por Lourival Faissal, obedecendo com fidelidade os belos versos de Hernandez. Assim, a qualidade dos versos em português era evidente, permitindo uma total empatia com o público comprador de discos:
"Assim se passaram dez anos
Sem eu ver teu rosto
Sem olhar teus olhos
Sem beijar teus lábios
Assim, foi tão grande a pena
Que sentiu a minh'alma
Ao recordar que tu
Foste meu primeiro amor.

Recordo junto a uma fonte
Nos encontramos
E alegre foi aquela tarde
Para nós dois.
Recordo quando a noite
Abriu seu manto
E o canto daquela fonte
Nos envolveu.

O sono fechou meus olhos
Me adormecendo
Sentindo tua boca linda
A murmurar
Abraça-me, por favor,
Minha Vida
E o resto desse romance
Só sabe Deus."



Sober interpretando Diez Años.



Trajetória semelhante teve Vingança; primeiramente, a música fez sucesso na noite, cantada por Jorge Goulart, que, no entanto, por ser da Continental e o autor, Lupicínio Rodrigues, preso a um contrato com a RCA Victor, não pôde gravá-la. O autor, então, a oferece ao Trio de Ouro, que a grava ainda na esteira da polêmica musical e pessoal entre Dalva de Oliveira e Herivelto Martins. Porém, ouvindo a música sendo cantada por Goulart, Linda Batista se impressiona, e também a grava. A gravação de Linda logo se impõe, e, em agosto de 51, começa a disputar o topo das paradas com Dez Anos e com o baião Delicado. Dessa forma, em determinada semana, Dez Anos está em primeiro lugar; na semana seguinte, Vingança vai para o primeiríssimo lugar, enquanto a outra cai para o segundo, com Delicado entre as duas rivais. E assim sucessivamente durante meses, até que, em dezembro, ambas saem do foco, dando lugar aos lançamentos carnavalescos, poderosos nessa época.
Vingança é a música que melhor representa o universo de Lupicínio Rodrigues: os amores traídos, o baixo-astral, os fracassos amorosos, a tristeza, a vingança em virtude do amor findo etc. A gravação de Linda Batista se torna definitiva:
"Eu gostei tanto, tanto
Quando me contaram
Que lhe encontraram
Bebendo e chorando
Na mesa de um bar.


E que quando
Os amigos do peito
Por mim perguntaram
Um soluço cortou sua voz
Não lhe deixou falar.



Quando me contaram
Que tive mesmo
De fazer esforço
P'ra ninguém notar.

O remorso talvez seja a causa
Do seu desespero
Você deve estar bem consciente
Do que praticou.

Ai! me fazer passar essa vergonha
Com um companheiro
E a vergonha é a herança maior
Que meu pai me deixou.

Mas, enquanto houver força em meu peito
Eu não quero mais nada
Só vingança, vingança, vingança
Aos santos clamar.

Você há de rolar comas as pedras
Que rolam na estrada
Sem ter nunca um cantinho de seu
P'ra poder descansar."

Clip de imagens de Linda Batista ao som de Vingança.



O sucesso de Vingança foi paradoxal para Linda Batista; apesar de se constituir no maior sucesso da cantora, foi também, praticamente, seu "canto de cisne", seu último grande sucesso fora do período carnavalesco. Tirando uma ou outra música bem tocada e vendida (a exemplo de Risque, de Ary Barroso), a cantora nunca mais chegaria ao topo das paradas fora do período carnavalesco; não obstante continuar a ser uma personalidade artística de peso durante todo o restante da década, seus dias de glória estavam indo para as brumas do esquecimento, enquanto começava a surgir uma nova constelação de estrelas no mundo do entretenimento musical, dentre as quais logo se destacariam Nora Ney, Ângela Maria, Dóris Monteiro, Elisete Cardoso e outras que logo também começariam a desafiar a favorita do momento, Emilinha Borba

7 comentários:

Anonymous Anônimo said...

Me desculpe, achei seu texto altamente informativo, mas extremamente tendencioso, tentando passar a imagem de Linda como uma megera invejosa, e a de Emilinha como uma santa inocente...provavelmente havia dissimulação por trás dessa imagem, porque Emilinha de boba não tinha nada.
Linda sempre foi das figuras mais queridas no meio artístico das décadas de 40 e 50. Conhecida sim pelo seu temperamento explosivo, mas principalmente pelo seu bom humor e jeito expansivo.
Dizer que Vingança é o começo do declínio de Linda é um impropério. Linda gravou, pelo menos, mais dois clássicos de peso da mpb após Vingança. São eles Risque e Volta (também de Lupcínio). Isso sem contar o samba Me deixa em paz, de Monsueto, que, apesar de ter sido gravado para o carnaval, teve sucesso extendido ao meio de ano. e Emilinha, depois de Dez Anos e Bandolins ao Luar (mais uma versão), teve mais que sucesso de meio de ano nas paradas depois de 1951? Me lembro de Os meus olhos são teus, mas não podemos considerar essa música um clássico, correto? Emilinha teve sim, inúmeros clássicos carnavalescos, mas Linda também era campeoníssima no carnaval.
Dizer que Emilinha "destronou" Linda é um absurdo. Ela teve sim, seu auge, mas com um repertório de gosto altamente questionável, e nesse ponto, o repertório de meio de ano de Linda era infinitamente melhor (Emilinha teve um repertório de meio de ano muito bom, até 1950, com gravações como Deixa que Amanheça, Divagando, Se querer saber - um clássico, Esperar por quê, Meu branco, Paraíba, Baião de 2, Escandalosa, Rumba de Jacarepaguá, mas depois não gravou praticamente nada que se equiparasse a essas músicas). Se contar a voz de Linda Batista que alcançava tons muito maiores que o de Emilinha. Linda tinha mais prestígio no meio radiofônico. Prova disso é que seu salário era muito maior que o de Emilinha, inclusive na década de 50.Aliás, a cantora de rádio de maior salário 'a época, era Dircinha (com total merecimento), seguida de Linda e Aracy.
Enfim, uma pena se valer de um texto para tentar denegrir a imagem de tão magistral cantora, apena para tentar enaltecer outra cantora que, apesar de sua contribuição inquestionável para a mpb, nem era tão brilahnte assim.
Sei que você tem controle sobre as mensagens postadas, mas, em defesa da liberdade de expressão, gostaria muito que você não vetasse meu comentário, afinal, estou apenas apresetnando o outro lado da moeda, sem difamar ninguém.
Muito obrigado, e continue com seu trabalho de resgate da mpb.

11/9/09  
Anonymous Zé Fialho said...

Meu caro anônimo,

Meu blog é um conjunto de informações que se unem como um todo para fechar a década de 50. Creio que você não leu todas as postagens sobre a música da referida década e leu com pouco cuidado o próprio texto a que você faz referência. Senão, vejamos:

Você diz que tento passar uma imagem de Emilinha como uma santa inocente. Vá na postagem Escândalo e verá a descontrução que faço da imagem santificada da artista, o oposto de que você fala. Em um parágrafo, escrevo "apesar de nunca ter sido santa...". No próprio texto a que você se refere, cito o caso de Orson Welles (está na biografia dele) cito um comentário do biógrafo sobre a cantora em que ele diz que ela "se vende a si própria e suas músicas com competência". Que imagem de inocente é essa então que tento passar. Concordo com você. De santa ela não tinha nada.

Mas Linda éra mesmo uma megera. Leia mais sobre música popular brasileira e verá que todas as cantoras tinham medo dela, principalmente quando ela era toda poderosa na primeira fase do getulismo. E tudo que conto sobre os problemas dela com Emilinha estão registrados em várias publicações. Cito textualmente Jorge Goulart (fonte insuspeita porque casado com Nora Ney, inimiga mortal de Emilinha) que diz que a cantora era perseguida por Linda. O cantor Zé Ricardo também já contou várias passagens de problemas entre as duas cantoras. Enfim, não inventei nada. Tudo está na bibliografia. É só você pesquisar.

Eu cito que Risque foi um grande sucesso, mas, meu amigo ou amiga, Volta, de 1957, infelizmente, não fez sucesso algum, foi muito pouco executada. Na minha parada de sucesso de 1957, pesquisada através da Revista do Rádio e da Radiolândia, ela ficou em um modesto 92º lugar, um pouco abaixo da parada do ótimo site www.hot100brasil.com, que a coloca na posição 84, ano em que os grandes sucessos foram Mocinho Bonito, com Dóris Monteiro, A Volta do Boêmio, com Nelson Gonçalves, Chove Lá Fora, com Tito Madi e outros. Nesse Ano, Emilinha sim, ficou muito bem na parada com a marcha Com Jeito Vai, em 10º lugar, no site acima referenciado. Sobre Me Deixa em Paz, eu também a cito como grande sucesso de Linda, entrando em sexto lugar em minha parada.

Sobre outras músicas de Emilinha nas paradas, citando ainda o site acima, Emilinha fez bonito em 1954 com Os Quindins de Yayá, em 1955 com Em nome de Deus, em 8º lugar (o que não é pouca coisa, ficou dois meses na parada da Revista do Rádio em primeiro lugar, pode pesquisar) e em 36º nesse mesmo ano com Deixa eu, Nego. Em 1957, Emilinha fica na frente de Linda nas paradas tanto com Com Jeito Vai e com Corre, Corre, Lambretinha. Em 1958, Emilinha emplaca dois grandes sucessos, Patrícia, em 10º lugar na parada e Cachito, que também fez bonito, apesar de ter sido lançada por meio mundo. Emplacaria ainda diversas outras como Me Leva pro Céu, História de Minha Vida, Juntinho é Melhor, Castigo, Meu Amor, quando então, nos anos 60, quase todas as cantoras brasileiras foram engolidas pela bossa nova e pelo rock and roll.


Querer clássicos de Emilinha é um disparate. Ela era uma cantora popular, suas músicas eram mais cantadas do que vendidas, já que seu público era a camada mais pobre da população, vindo daí seu sucesso imensamente maior do que o de Linda Batista. Pesquise sobre quem recebeu mais cartas na década de 50, quem ganhou mais concursos, quem era a favorida do grande público.

Não é verdade que Linda ganhava mais que Emilinha na década de 50. De onde você tirou isso? de que publicação?
Isso é impossível devido aos shows que a cantora fazia nos suburbios, nos filmes em que participou (mais de 40, muitas vezes mais do que Linda, além de ser a estrela absoluta da Rádio Nacional. Leia no blog o depoimento de César de Alencar.

Chega por hoje, não anônimo? Até a próxima.

Zé Fialho.

15/9/09  
Anonymous Carmen said...

na minha opinião Linda Batista era mesmo uma megera, invejosa, apesar de Emilinha não ser santa ela não tinha o direito de humilhar a mãe da moça. Só porque ela era famosa não era melhor que ningém.

13/5/10  
Anonymous Anônimo said...

O "Anônimo" sabe tudo e mais alguma coisa quando o assunto é a "Era do Rádio" - concordo com suas opiniões quase na totalidade quanto às Irmãs Baptista. Dircinha, sobretudo, é a melhor voz de sempre da música brasileira - reparem: ela não falha uma sílaba.
Mas tem algo que precisa de ser assinalado - Zé Fialho, responsável por este primoroso Blog, além de cultíssimo é um grande democrata!
Quem ganhou com a disputa cultural fomos nós, os leigos que ficamos a saber um pouquinho mais sobre esta década tão fascinante.
Parabéns a ambos!

Fco. Patrício

31/8/10  
Anonymous Disc Jockey Roberto Nunes said...

Eu gostaria de contar uma passagem interessante da fabulosa Linda Batista que me foi dita por um ex-funcionario da Radio Vera Cruz do RJ quando eu apresentava o programa Hit Parade da Juventude em meados de 1961...a Linda estava divulgando um disco seu de 78 RPM quando um divulgador de uma gravadora tirou o disco dela de uma pilha a ser executada pelo operador de audio e colocou o disco de outro cantor...ao notar o fato ela virou para o mesmo e disse textualmente...voce pensa que eu faço sucesso com a boca de baixo? E botou o cara pra correr totalmente envergonhado das pessoas que estavam no estudio.Nunca esquecerei este fato.
DJ Roberto Nunes RJ

4/8/11  
Anonymous Faroeste said...

Lo este trecho porque a musica de Lupicinio Rodrigues, VERGONHA, é uma das coisas mais bem feitas que já acompanhei, seguido de uma melodia tão forte e tocante quanto sua letra.

E, para completar, fiquei conhecendo passagens de uma época em que eu nem era projeto de nascença até 51, quando eu já tinha sete anos.

Uma beleza de reportagem, com momentos interessantes nas vidas desses artistas, mostrando que tudo o que acontece hoje, já acontecia antes e muito antes de antes.
Belissima reportagem.
jurandir_lima@bol.com.br

8/4/12  
Anonymous Anônimo said...

Prezados,

Uma das coisas que aprendi ao me formar em jornalismo é que não há imparcialidade em um texto. Bem como, ninguém é dono de toda a verdade. Logo, ao ler esse debate acho que em meio as preferências todos ganham com informações e preservação de uma memória pouco valorizada nos dias atuais.
Dessa forma, por ter convivido pessoalmente com as duas e ouvir histórias do meu pai, o cantor José Ricardo, posso dizer que amizade entre elas não havia. Porém, exista um mútuo respeito e a Emilinha foi parceira do meu pai em várias visitas as duas irmãs quando estavam em situação médica desfavorável. Quanto a telento e sucessos, acho que cada uma tem seu estilo´, características de seleção de repertório e público. O fato inquestionável é que seus nomes ficaram marcarados na históra da música popular brasileira.

Atenciosamente,
LM

24/11/14  

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