
Jorge Veiga nasceu no Engenho de Dentro, subúrbio carioca. Como a maioria dos artistas do seu tempo, era de origem humilde, tendo trabalhado quando criança como e
ngraxate e vendedor de frutas e pirulitos. Adulto, com pouca educação formal, sua vida continuava difícil, trabalhando, na maioria das vezes, na construção civil como pintor de paredes. Exatamente quando estava pintando um estabelecimento comercial, seu proprietário ouviu-o cantar enquanto trabalhava e, percebendo suas aptidões musicais, e tendo alguns contactos, conseguiu-lhe uma oportunidade para se apresentar na Rádio Educadora do Brasil, o pontapé inicial de sua carreira artística. Especializou-se em imitar um dos grandes cartazes da música popular brasileira de então, Sílvio Caldas. Era o ano de 1934.


Após um

A partir de então, inicia uma infinidade de lançamentos, buscando se
mpre gravar músicas da nata dos compositores brasileiros, dentre os quais Haroldo Lobo e Wilson Batista (Rosalina e Cabo Laurindo, 1945); Alberto Ribeiro e Antônio Almeida (A Sopa Vai Acabar, 1946); João de Barro e Antônio Almeida (Pode Ser Que Não Seja, 1947); Dorival Caymmi e Antônio Almeida (O Que é Que eu Dou?, 1947); Haroldo Lobo e Milton Oliveira (Eu Quero é Rosetar
, sucesso no carnaval de 1947 e Bota Água na Canjica, de 1952, Na China, 1953); Wilson Batista e Alberto Maia (O Doutor Quer Falar Com Você, 1948); Ary Monteiro (Deixa eu Viver Minha Vida, 1949); Wilson Batista e Antônio Almeida (Cala a Boca Etelvina, 1950); Ary Barroso e Vilma Azevedo (Carne Seca Com Tutu, em dueto com Ademilde Fonseca, 1950); Fernando Lobo e Paulo Soledade (Balança na Rede, 1951); Gordurinha (Quero me Casar, 1954) e outros mais.



Também é interessante notar o uso de expressões francesas e inglesas, em um momento de transição, porquanto, não muito tempo depois, a utilização de termos franceses caiu em desuso, em consonância com o enfraquecimento desta língua no Brasil, fruto da irresistível dominação cultural norte-americana que ja tomava conta do país:
“Doutor de anedota
E de champanhota
Estou acontecendo no Café Soçaite
Só digo enchanté, muito merci, all right
Troquei a luz do dia pela luz da light
Agora estou somente contra a dama de preto
Nos dez mais elegantes, eu estou também
Adoro riverside, só pesco em Cabo Frio
Decididamente eu sou gente bem.
Enquanto a plebe rude na cidade dorme
Eu ando com Jacinto que é também de Thormes
Terezas, Dolores falam bem de mim
Eu sou até citado na coluna do Ibrahim
E quando alguém pergunta
Como é que pode?
Papai de black-tie jantando com Didi
Eu peço outro wiskhy
Embora esteja pronto
Como é que pode?
Depois eu conto.”
Jorge Veiga interpretando Café Society.
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Quem muito se destacou nesse ano foi o cantor Ivon Cury (1928 - 1995). Mesmo novato na capital, mas com bons contatos (seus irmãos já estavam estabelecidos) Como cantava muito bem em francês, e aproveitando-se do fato de que as canções francesas atravessavam um momento de grande aceitação junto a um público mais sofisticado, em 1947, foi contratado para atuar como crooner da orquestra do maestro Zaccarias, então em temporada no Copacabana Palace, primeiro passo para se tornar conhecido por pessoas influentes, que lhe permitiram obter um contrato com a Rádio Nacional, onde estreia, em 1948, no programa “Ritmos da Panair”, cantando tanto em francês quanto em inglês.

Nat King Cole interpretando Nature Boy.

Georges Ulmer interpretando Pigalle.
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Ivon Cury interpretando Douce France.
Ivon Cury interpretando Douce France.
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Nesse último ano, grava, em dueto com Marlene (passando por alta popularidade devido à sua eleição, no ano anterior, de Rainha do Rádio), o maxixe Nego, Meu Amor (José Maria de Abreu e Luiz Peixoto), além de lançar, nesse mesmo ano, o baião de sua autoria, em parceria com Humberto Teixeira, Tá Fartando Coisa em Mim. Apesar de ainda não ser uma grande personalidade da música popular brasileira, seu nome já começava a chamar a atenção, o que possibilitou ser convidado para atuar no filme Aviso aos Navegantes (1950), de Watson Macedo, ao lado de um elenco estelar, pontuando Oscarito, Grande Otelo, Anselmo Duarte, Eliana, Zezé Macedo, José Lewgoy, Mara Rúbia, Emilinha Borba, Glauce Rocha, Adelaide Chiozzo, Dalva de Oliveira, Jorge Goulart e muitos mais.

Adelaide Chiozzo e Eliana interpretando Sabiá na Gaiola no filme Aí Vem o Barão.
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Aproveitando a maré da popularidade, entre 1952 e 1954, além de participar de outros filmes, É Fogo na Roupa (1952), de Watson Macedo, integrando um elenco formado por Ankito, Bené Nunes, Adelaide Chiozzo, Violeta Cavalcanti, Heloísa Helena, e com números musicais nas vozes de Francisco Carlos, Jorge Goulart
Emilinha Borba, Elisete Cardoso, Dircinha Batista, Linda Batista e outros, além de Barnabé, Tu És Meu (também de 1952), de José Carlos Burle, com Oscarito, F
ada Santoro, Grande Otelo, Emilinha Borba, José Lewgoy, Cyll Farney Adelaide Chiozzo, números musicais com Bill Farr, Mary Gonçalves, Francisco Carlos, Vera Lúcia, Marion etc., grava dezenas e dezenas de músicas, com maior ou menor êxito, com destaque para o samba-canção Amor de Hoje (Bruno Marnet/Ari Monteiro, 1952), o baião Caxambu (Zé Dantas/David Nasser, 1953), Bobagem Gostosa (Mário Lago/Chocolate, 1953), João Bobo (1953), valsa acaipirada de sua autoria que fez bastante sucesso, Menino de Braçanã (Luiz Vieira, 1954), Xote das Meninas (Luiz Gonzaga/Zé Dantas, 1954), outro razoável sucesso, Lá Vem a Baiana (Dorival Caymmni, 1954) e a toada Adeus, Gente (1954), de Lúcio Alves e Osmar Campos Filho.
Ivon Cury interpretando O Xote das Meninas.
Bené Nunes e Ankito em cena no filme É Fogo na Roupa.
Emilinha Borba em cena no filme Barnabé, tu és Meu.
Ivon Cury interpretando O Xote das Meninas.


Ivon Cury interpretando O Xote das Meninas.
Bené Nunes e Ankito em cena no filme É Fogo na Roupa.

“Tava na peneira eu tava peneirandoEu tava num namoro eu tava namorando.Na farinhada lá da Serra do TeixeiraNamorei uma cabôca nunca vi tão feiticeiraA mininada descascava macaxeiraZé Migué no caititú e eu e ela na peneira..Tava na peneira eu tava peneirandoEu tava num namoro, eu tava namorandoO vento dava sacudia a cabilêraLevantava a saia dela no balanço da peneira.
Fechei os óio e o vento foi soprandoQuando deu um ridimuinho sem querer tava espiando
Tava na peneira eu tava peneirando
Eu tava num namoro eu tava namorando.
De madrugada nós fiquemos ali sozinhoO pai dela soube disso deu de perna no caminhoChegando lá até riu da brincadeiraNós estava namorando, eu e ela na peneira.”
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1955 igualmente foi o ano em que um múltiplo artista de origem paulista se distinguiu definitivamente no cenário nacional. Seu nome, Adoniran Barbosa (1910 – 1982), sem sombra de dúvida, o compositor que pode ser considerado o cronista musical da cidade de São Paulo. Com efeito, compositor, ator e cantor, ao longo de sua carreira, desenvolveu uma maneira toda particular de

Natural de Valinhos, filho de imigrantes italianos, Adoniran (João Rubinato), ao longo de sua juventude e adolescência, e em diversas cidades do Estado, exerceu as mais diversas
profissões e fez de tudo um pouco: ajudante do pai que trabalhava na São Paulo Railway, entregador de marmitas, varredor de fábricas, tecelão, encanador, serralheiro, pintor de paredes, garçom, metalúrgico e vendedor, as duas últimas profissões após sua família mudar-se para a capital, São Paulo.

Mesmo já compondo algumas músicas, Adoniran, a exemplo de quase todos os artistas da época, foi tentar a carreira artística como cantor em progra

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Raul Torres interpretando Maria Boa.
Tonico e Tinoco interpretando a Moda da Mula Preta.
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Por
intermédio de Otávio Gabus Mendes, transferiu-se, em 1941, para a Rádio Record, atuando na área de radio-teatro e de humorismo (onde cria tipos que ficaram na memória de muitos paulistanos, como Pernafina e Jean Rubinet), emissora em que trava conhecimento com Osvaldo Moles, futuro parceiro, um gênio, pioneiro da publicidade eletrônica, radialista, poeta, roteirista de cinema e uma espécie de cronista de São Paulo, que, por ter sido o criador de diversos tipos com linguajar tipicamente popular, muito influenciaria as futuras músicas do compositor.

Com a formação do conjunto Demônios da Garoa, em 1943, Adoniran se junta ao grupo, passando a atuar por todos os lugares possíveis, inclusiv
e como animadores de torcida em jogos de futebol promovidos por artistas de rádio no interior paulista. Nessa mesma década, participa como ator de dois filmes de Adhemar Gonzaga e Luiz de Barros, Pif-Paf (1945) e Caídos do Céu (1946), ambos pelos estúdios Cinédia. Em 1951, grava seu primeiro disco em 78 rpm pela gravadora Continental, no lado A, a marcha-rancho Os Mimosos ‘Colibri’, de Hervê Cordovil e Osvaldo Moles e, no lado B, o samba Saudade da Maloca, de sua autoria, ao mesmo tempo em que seu samba Malvina ganha outro concurso carnavalesco em São Paulo, sendo gravado pelos Demônios da Garoa para o carnaval de 1952.
Demônios da Garoa interpretando Malvina.

Demônios da Garoa interpretando Malvina.

Demônios da Garoa interpretando Samba do Arnesto.
Demônios da Garoa interpretando Joga a Chave.
Demônios da Garoa interpretando Conselho de Mulher.

“Si o senhor não ta lembradoDá licença de contáQue aqui ondeagora estáEsse edifício artoEra uma casa véiaUm palacete assobradado..Foi aqui seu moçoQue eu, Mato Grosso e o JocaConstruimo nossa malocaMais um diaNois nem pode se alembráVeio os home c'as ferramentasO dono mandô derrubá..Peguemo todas nossas coisasE fumo pro meio da ruaPreciá a demoliçãoQue tristeza que nóis sentiaCada tábua que caíaDoía no coração..Mato Grosso quis gritáMas em cima eu falei:Os homens tá coa razãoNóis arranja outro lugá.Só nos conformemoQuando o Joca falô:‘Deus da o frio conforme o cobertô’..E hoje nóis pega as páiaNas grama dos jardimE pra esquecêNóis cantemos assim:Saudosa malocaMaloca queridaDim, dim, donde nóis passemoDias feliz em nossas vida.”
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Outros cantores brasileiros que também brilharam em 1955: Ângela Maria, que, ao longo do ano, emplacaria três grandes sucessos, Lábios de Mel (Valdir Rocha), Escuta (Ivon Curi), Adeus, Querido (Eduardo Patané/Lourival Faissal); Emilinha Borba, que, igualmente, emplacou três sucessos, Em Nome de Deus (C. Alvarado/Lourival Faissal), que entrou na parada de sucessos da Revista do Rádio em 23.04.1955, em 5º lugar, passou para o 1º lugar em 28.05.55, permanecendo nesta colocação até 02.07.55 e somente saindo da lista dos maiores sucessos em 10.09.55); Deixa eu, Nego (J.L. Garson/All Hill/ Ghiaroni) e Jerônimo (Getúlio Macedo/Lourival Faissal), música-tema da novela homônima, um dos maiores sucessos da Rádio Nacional; Ataulfo Alves, com Pois É (Ataulfo Alves) e Atire a Primeira Pedra (Ataulfo Alves/Mário Lago); Dóris Monteiro, Dó-Ré-Mi (Fernando César); Nelson Gonçalves, com Hoje Quem Paga Sou Eu (Herivelto Martins/David Nasser) e Esta Noite Me Embriago (E. S. Discépolo/Lourival Faissal); Sílvinha Telles, com Amendoim Torradinho (Ivon Curi); Demônios da Garoa, com Samba do Arnesto (Adoniran Barbosa); Jorge Goulart, com Samba Fantástico (J. Toledo/J. Manzon/L. Autuori/ P. Mendes Campos); Cascatinha e Inhana, com Meu Primeiro Amor (Hermínio Gimenez/Zé Fortuna); Nora Ney, com Vamos Falar de Saudade (Mário Lago/Chocolate) e Meu Lamento (Ataulfo Alves/Jacó do Bandolim); Portinho, com Beijos nos Olhos (Portinho/Wilson Falcão).
Ângela Maria e Fagner interpretando Lábios de Mel.
Ângela Maria interpretando Escuta.
Ataulfo Alves interpretando Pois é.
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Ataulfo Alves interpretando Atire a Primeira Pedra.
Dóris Monteiro interpretando Mocinho Bonito e Dó-Re-Mi.
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Cascatinha e Inhana interpretando Meu Primeiro Amor.
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Ataulfo Alves interpretando Atire a Primeira Pedra.
Dóris Monteiro interpretando Mocinho Bonito e Dó-Re-Mi.
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Cascatinha e Inhana interpretando Meu Primeiro Amor.
Igualmente, nesse ano de 1955, fizeram sucesso as seguintes músicas internacionais: Hernando’s Hideaway (Richard Adler/Jerry Ross), com Les Paul and Mary Ford; Contigo en la Distancia (César Portillo de la Luz), com Lucho Gatica e diversos outros; Ceresier Rose et Pomier Blanc (Pierre Louiguy/Jacques la Rue), com Perez Prado e diversos outros; The High and the Mighty (Dimitri Tiomkin/Ned Washington), Victor Young e diversos outros; Johnny Guitar (Victor Young/Peggy Lee), com Peggy Lee: Three Coins in the Fountain (Jules Styne/Sammy Cahn), com The Four Aces; Mr. Sandman (Pat Ballard), com The Four Aces, e The Chordettes; Ruega por Nosotros (Rubem Fuentes/Alberto Cervantes), com Miguel Aceves Mejia; Sinceridad (Rafael Gaston Perez), com Lucho Gatica; Stranger in Paradise (John Capek/Amy Sky), com Tony Bennett, e The Four Aces; Smile (John Turner/G. Parsons/ Charles Chaplin, com Nat “King” Cole.
Perez Prado interpretando Ceresier Rose et Pomier Blanc.
The Johnston Brothers interpretando Hernando's Hideaway
Lucho Gatica interpretando Contigo en la Distancia.
Lucho Gatica interpretando Contigo en la Distancia.
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