20.8.06

"DELICADO": O BAIÃO ARREBENTA A BOCA DO BALÃO

O ano de 1951 foi notável em termos de produção musical brasileira de qualidade. Sucessos inesquecíveis são gravados nesse ano; também surgem astros de primeira grandeza que encantam crítica e público, alterando, para melhor, o panorama musical brasileiro, a essa altura, atacada definitivamente por um inimigo poderoso e avassalador, a música norte-americana.
Listar os grandes êxitos de 1951 é quase impossível, pela enormidade de sucessos e clássicos que foram lançados o longo do ano. Excetuando-se aqueles já mencionados, poder-se-iam citar Ministério da Economia (Geraldo Pereira), Esta Noite Serenou (Dalva de Oliveira), Não Tenho Você (Ângela Maria), Casinha Pequenina e Maringá (Mário Gennari Filho), Pé de Manacá (Isaurinha Garcia), Se Você se Importasse (Dóris Monteiro), Deus lhe Pague (Francisco Alves), Boiadeiro e Sabiá (Luiz Gonzaga), De Papo pro Ar (José Meneses), Afinal (Heleninha Costa), Chuá-Chuá (Sá Ferreira), Cosme e Damião (Gilberto Alves), Meu Sonho é Você (Orlando Correia), Doce Amor (Carlos Galhardo), Dá-me Tuas Mãos (Elisete Cardoso), Benjamim (Marion), Galo Garnisé (Ademilde Fonseca) e uma infinidade de outros. E dentre esses outros, merecem menção especial o baião Delicado, mega-sucesso instrumental de Waldir Azevedo, repetindo o êxito do chorinho Brasileirinho; Cabeça Inchada, sucesso nacional na voz de Carmélia Alves; e Beijinho Doce, gravação de Adelaide Chiozzo, também um dos maiores sucessos do ano.

Bidu Sayão interpretando Casinha Pequenina.


Paulo Santana interpretando Maringá.


Francisco Alves interpretando Deus lhe Pague.



Marina Elali interpretando Sabiá.



Luiz Gonzaga interpretando Boiadeiro.



Orquestra de Sanfona & Viola de São Pedro do Itabapoana interpretando De Papo pro Ar (joubert de Carvalho/Olegário Mariano).


Tonico e Tinoco interpretando Chuá Chuá.



Márcia Maria interpretando Casa de Marimbondo e Galo Garnisé (Luiz Gonzaga).




Delicado (Waldi
r Azevedo/Ari Vieira), inspiradíssima gravação de Waldir Azevedo, foi, certamente, o maior sucesso de 1951, tornando o artista o mais famoso instrumentista em terras brasileiras.
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O carioca Waldir Azevedo (1923 - 1980) desde pequeno esteve envolvido com música, ganhando seu primeiro instrumento, uma flauta transversal, aos 7 anos. Com apenas 10 anos, apresenta-se em público pela primeira vez, interpretando Trem Blindado, de Braguinha. Em 1942, quando ainda tocava violão, foi vencedor, com a nota máxima, de dois concursos de calouros, um na Rádio Cruzeiro do Sul e outro na Rádio Guanabara, interpretando o chorinho Camburá, de Pascoal de Barros

A partir daí, sua carreira vai num crescendo, até que, em 1945, agora tocando cavaquinho, assume
a liderança do conjunto regional de Dilermando Reis, um dos maiores violonistas brasileiros de todos os tempos, passando a atuar na PRA-3, Rádio Clube do Brasil, na cidade do Rio de Janeiro, em substituição ao regional de Benedito Lacerda, ocasião em que adere, definitivamente, ao cavaquinho.
Através de Braguinha, que se impressionara com seu virtuosismo, estréia em discos em 1949, gravando, em 78 rpm, os choros de sua autoria Carioquinha, no lado A, e, no lado B, Brasileirinho, esta última música alcançando, para surpresa de muitos que não conheciam a virtuosidade do artista, tamanho sucesso que surpreende até os mais otimistas executivos da gravadora. Aliás, Brasileirinho fora, até aquele momento, a música mais vendida da Continental, tornando o artista, logo na primeira gravação, objeto de mimos afagos.

Grupo Sururu na Roda interpretando Carioquinha.


Waldir Azevedo interpretando Brasileirinho.


Em 1950, voltou a gravar outro 78 rpm, contendo Cinco Malucos, de sua autoria, e O que é que Há, composição de Dilermano Reis. Nesse mesmo ano lança, também solando ao cavaquinho, os choros Quitandinha, dele e de Salvador Miceli e Vai por Mim, de Francisco Sá e Risadinha do Pandeiro. Gravaria também, ainda nesse mesmo ano, o baião Delicado.
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Delicado, a princípio nem seria gravado; Waldir estava encontrando dificuldades para compor seu próximo disco em 78 rpm, cujo lado A seria o choro Vê Se Gostas. Chiquinho do Acordeom, que logo ficaria conhecido como o autor de São Paulo Quatrocentão, um dobrado que também se tornaria campeão de vendagens, um imenso sucesso popular, sugere-lhe gravar o baião mostrado a ele por Waldir pouco tempo antes. Chiquinho, inclusive, o havia batizado com o nome de Delicado. Era o imprevisto, mais uma vez, surgindo com seus desígnios. Em janeiro/51, Delicado já está em primeiro lugar na paradas de sucessos da Revista do Rádio, permanecendo entre as músicas mais vendidas durante quase todo o ano. Um estouro que ninguém esperava. Em setembro/51, já havia vendido mais de 400.000 discos (Revista do Rádio n.º 104), tornando-se, assim, um fenômeno de popularidade. A partir de março, Waldir emplaca novo sucesso de sua autoria, Pedacinhos do Céu, que também se torna um baita êxito, um sucesso eterno.

Waldir Azevedo interpretando Delicado.



Quinteto Brasília interpretando Pedacinhos do Céu.



Altamiro Carrilho e Choronas interpretando Pedacinhos do Céu.

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Quando Cabeça Inchada se tornou sucesso nacional, Carmélia Alves, já está estabelecida como uma das mais conhecidas cantoras brasileiras; nascida no Rio de Janeiro em fevereiro de 1929, e de origem suburbana (Bangu), Carmélia, desde menina entra em contato com os ritmos nordestinos em reuniões que ocorriam em sua casa. Aos 12 anos, inicia sua carreira artística, participando de programas de calouros na Rádio Nacional e em diversos outros, onde, como quase todas as cantoras novatas, imitava Carmem Miranda. Com voz poderosa e afinada, logo é contratada pela Rádio Mayrink Veiga, começando também a atuar na noite, exatamente no berço da burguesia, no Copacabana Pálace.

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Em 1943, grava seu primeiro disco em 78 rpm (financiado por ela própria, segundo alguns) na RCA Victor, trazendo, no lado A, o choro Quem Dorme no Ponto é Chofer,
do formidável sambista Assis Valente, e, no lado B, o samba Deixei de Sofrer, de Dino e Popeye do Pandeiro (integrante do regional de Benedito Lacerda). Após passar uma longa temporada em São Paulo, volta para o Rio de Janeiro, atuando novamente no Copacabana Palace, de onde agora era transmitido o programa Ritmos da Panair pela Rádio Nacional, comandado por Murilo Neri, o que permite que o grande púbico tome conhecimento da cantora. Isso em 1948.
Uma série de grandes sucessos em 1950, a maioria baiões, tais como Me Leva (Hervê Cordovil/Rochinha), cantada em dupla com Ivon Curi, Trepa no Coqueiro (Ari Kerner), Sabiá na Gaiola (Hervê Cordovil), Coração Magoado (Roberto Martins) a tornam conhecida em todo o Brasil, consagrando-a eternamente como a Rainha do Baião e a maior divulgadora feminina desse ritmo no país.

Dudu Nobre interpretando Trepa no Coqueiro/Segure Tudo.



Sabiá na Gaiola.

Interpretando o baião com sotaque sulista, Carmélia obtém enorme êxito neste ano de 1951, cantando Cabeça Inchada, da lavra de seu compositor favorito, Hervê Cordovil, que, imediatamente, cai nas graças da população. Era a consagração da cantora:
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"Eu tô doente, morena
Doente eu tô, morena
Cabeça inchada, morena
Tô e tô e tô.
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Ai! Morena
Moreninha meu amor
Você diz que me namora morena
É mentira, morena
E agora, morena
Agora não.

Cabeça Inchada.




Adelaide Chiozzo (8.5.1931), nesse ano no auge de sua popularidade, fruto de suas atuações na Rádio Nacional e na Atlântida, de onde é uma das principais estrelas, é o que se poderia denominar uma artista de múltiplos talentos; instrumentista, cantora e atriz, aos 8 anos começa a estudar acordeom, o que lhe permite, aos 15 anos, participar do programa de Renato Murce Papel Carbono, na Rádio Clube do Brasil, imitando o grande sanfoneiro da época, Pedro Raimundo.
Sua segura performance e sua beleza encantam Vitor Costa, que a contrata por três meses para formar dupla com seu irmão, Afonso Chiozzo, que a acompanhara no programa, formando a dupla “Iimãos Chiozzo".
Foi, também, aos 15 anos, em 1946, já uma lindíssima garota, que estréia no cinema, na comédia Segura Esta Mulher, de Watson Macedo, onde acompanha o "cowboy" Bob Nelson na música O Boi Barnabé (Afonso Simão/Bob Nelson). Seu sucesso lhe permite participar novamente das comédias musicais Este Mundo é um Pandeiro (1947), do mesmo Watson Macedo, de É Com Este Que Eu Vou, de José Carlos Burle (1948), Carnaval no Fogo, de Watson Macedo e de Aviso aos Navegantes (51), do mesmo Watson Macedo.
A dupla com o irmão, no entanto, tem vida curta. Afonso logo abandona a vida artística para se casar. Devido ao seu sucesso, Adelaide é contratada neste ano de 1951 pela Rádio Nacional para participar do conjunto de Dante Santoro, ano também em que conhece seu futuro marido, Carlos Matos, que, a partir daí, a acompanha em suas apresentações. Sua entrada na mais importante rádio do Brasil lhe permite divulgar com mais força seu primeiro disco, gravado ainda em 1950, na gravadora Star, contendo as músicas Tempo de Criança, uma rancheira de João de Sousa e Eli Turquine, e a polca Pedalando, do galã das chanchadas, Anselmo Duarte e do lendário pianista Bené Nunes.
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Sua gr
avação de Beijinho Doce, de Nhô Pai (autor de outro sucesso, Ciriema, em dupla com o acordeonista Mário Zan), uma música acaipirada, daquelas bem identificadas com o interior de São Paulo, cantada no filme Aviso aos Navegantes, agrada o Brasil inteiro, razão pela qual se tornou um sucesso imediato:

"Que beijinho doce
Que ele tem
Depois que beijei ele
Nunca mais amei ninguém.

Que beijinho doce
Foi ele quem trouxe
De longe pra mim
Um abraço apertado
Suspiro dobrado
Que amor sem fim.

Coração reclama
Quando a gente ama
Se estou junto dele
Sem dar um beijinho
Coração reclama."

Adelaide Chiozzo e Eliana Macedo interpretando Beijinho Doce (Nhô Pai).

Com sua beleza de menina do interior, com o sucesso de Beijinho Doce e com o espetacular êxito do filme Aviso aos Navegantes, Adelaide Chiozzo atinge o estrelato, tornando-se, imediatamente, a nova namoradinha do Brasil.

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