21.10.06

SARTRE, QUEM DIRIA, ACABOU NO CARNAVAL

O carnaval de 1949 foi considerado pela crítica especializada um dos mais fracos dos últimos anos. Da indigência total, salvaram-se algumas poucas músicas: Falam de Mim, de Noel Rosa de Oliveira (1920 - 1988), Aníbal Silva (?) e Éden Silva, o grande Caxiné (morto em 1963); Pedreiro Valdemar, da famosa dupla Roberto Martins (1909 - 1992) e Wilson Batista (1913 - 1968), cantada por Blecaute ; Jacarepaguá (Marino Pinto/Paquito/Romeu Gentil), gravada pelos Vocalistas Tropicais; Que Samba Bom (Geraldo Pereira/Arnaldo Passos), também cantada por Blecaute; Tem Marujo no Samba (Braguinha) e Chiquita Bacana (Braguinha e Alberto Ribeiro), ambas com Emilinha Borba.
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Pedreiro Valdemar mantém uma tradição do carnaval, a da sátira e crítica social, assim como, no carnaval de 1948, o governo Dutra era satirizado e criticado através do samba Falta Um Zero No Meu Ordenado, da famosa dupla Ary Barroso/Benedito Lacerda, cantada por Chico Alves:

“Trabalho como louco
Mas ganho muito pouco
Por isso eu vivo
Sempre atrapalhado.

Fazendo faxina
Comendo no China
Tá faltando um zero
No meu ordenado.

Tá faltando um zero
No meu ordenado
Tá faltando sola
No meu sapato.

Somente o retrato
Da rainha do meu samba
É que me consola
Nesta corda bamba."
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Não obstante ter feito apenas um sucesso moderado, Falam de Mim, foi um dos sambas mais bonitos e bem elaborados deste carnaval de 1949. Interpretado pelo dupla Zé da Zilda e Zilda do Zé no final de 1948 para o carnaval de 49, foi, posteriormente, resgatado por Nana Caymmi no Long Playing NANA, de 1977 (onde também Nana faz uma gravação antológica de Se Queres Saber,de Peterpan, grande sucesso de Emilinha Borba de 1947) numa gravação mais lenta, ao estilo da grande intérprete da música popular brasileira:

Falam de mim
Mas eu não ligo
 Falam de mim
Que sempre fui amigo
Um rapaz como eu
Não merece essa ingratidão
Falam de mim, falam de mim
Mas quem fala não tem razão
Por ciúme ou por despeito
Falam de mim
Não está direito
Procederem assim
Meu coração
Não merece essa ingratidão
Falam de mim, falam de mim
Mas quem fala não tem razão.


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Wilson Batista, autor, em parceria com Roberto Martins, de Pedreiro Valdemar, nascido em Campos/RJ a 3 de julho de 1913, a essa altura, já é um veterano compositor. Aos 16 anos a então famosa Araci Cortes lança uma música de sua autoria – Na Estrada da Vida - no Teatro Recreio, gravada, em 1933, pela grande revelação de sambista, Luís Barbosa. Entretanto, somente alguns anos depois (nov./32), ele consegue que fosse gravado seu primeiro samba Por Favor,Vá Embora, composto em parceria com Benedito Lacerda e Osvaldo Silva, interpretado por Patrício Teixeira. Logo, sua grandeza era comentada por todos os sambistas do Rio de Janeiro, o que lhe permite entrar em rodas oportunas, logo entrando para a orquestra de Romeu Malagueta, atuando ora como crooner, ora como ritmista, já que era excelente pandeirista. Assim, o boêmio compositor se cerca da nata da malandragem e de compositores famosos, freqüentadores de ambientes mais sofisticados, a maioria oriundos da classe média alta, onde se destacavam Orestes Barbosa, Nássara, Ary Barroso, Custódio Mesquita e outros. Logo também, Francisco Alves, já famoso, grava Desacato, de sua autoria, fato que lhe traz alguma notoriedade.

Sua fama viria mesmo com a música Lenço no Pescoço (de 1933, ano em que Almirante também grava seu samba Barulho no Beco), gravada por Sílvio Caldas, um samba que glorifica a malandragem, identificando o sambista com a boêmia. Esta música deu início à famosa polêmica musical (que verdadeiramente não existiu, várias músicas sendo lançadas em épocas diversas ou mesmo não lançadas) com Noel Rosa, o queridinho de todos, o máximo como compositor:
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"Meu chapéu de lado
Tamanco arrastando
Lenço no pescoço
Navalha no bolso.
.
Eu pass
o gingando
Provoco e desafio
Eu tenho orgulho
Em ser tão vadio.
.
Sei que
eles falam
Deste meu proceder
Eu vejo quem trabalha
Andar no miserê.
.
Porque tive i
nclinação
Eu me lembro, era criança
Tirava um samba-canção (comigo não)
Eu quero ver quem tem razão.

Mariana Baltar e Pedro Amorim interpretando Lenço no Pescoço.


Noel Rosa (11.12.1910 - 04.05.1937), o “Poeta da Vila”, um compositor famoso desde 1931, quando lançara Com Que Roupa para o carnaval desse ano com grande sucesso e o nome mais comentado na seara sambista do momento, não se sabe por que, resolve comprar briga com Wilson Batista, sem ao menos conhecê-lo, e compõe uma música com o sugestivo nome de Rapaz Folgado, contestando os louvores do compositor à malandragem. Apesar de só ter sido gravado em 1938 por Aracy de Almeida, entre quem interessava, a roda de compositores e cupinchas com quem Wilson era enturmado, o sucesso do samba foi absoluto:

“Deixa de arrastar o teu tamanco
Pois tamanco
Nunca foi sandália.

Tira do pescoço o lenço branco
Compra sapato e gravata
Joga fora essa navalha
Que te atrapalha.

Com chapéu de lado deste rata
Da polícia quero que escapes
Fazendo um samba-canção
Já te dei papel e lápis.

Arranja um amor e um violão
Malandro é palavra derrotista
Que só serve pra tirar
Todo o valor do sambista.

Proponho ao povo civilizado
Não te chamar de malandro
E sim de rapaz folgado.”

Roberta Sá interpretando Rapaz Folgado.



Rose Maia interpretando Rapaz Folgado.


Em uma desconhecida resposta, também para quem interessava, Wilson compõe Mocinho da Vila, não gravada à época, onde deixa claro que, se Noel era respeitado, ele também tinha suas qualidades e merecia o mesmo respeito:

“Você que é mocinho da Vila
Fala muito em violão
Barracão e outras coisas mais.

Se não quiser perder o nome
Cuide de seu microfone
E deixe quem é malandro em paz.

Injusto é seu comentário
Fala de malandro quem é otário
Mas falando não se faz.

Eu de lenço no pescoço
Desacato e também tenho
O meu cartaz.”

Não satisfeito, e apesar de, nesse meio tempo, já conhecer Wilson, Noel, um tempo depois, compõe o clássico Feitiço da Vila, gravada com sucesso por João Petra de Barros (1914 - 1948), como homenagem a seu bairro, Vila Isabel, mas cujos versos foram considerados outra paulada no valente compositor rival. Sua letra original vem sofrendo alterações com o tempo, sendo essa considerada a mais fiel versão:

“Quem nasce lá na Vila
Nem sequer vacila
Em abraçar o samba
Que faz dançar os galhos do arvoredo
E faz a lua nascer mais cedo.

O sol da Vila é triste
Samba não assiste
Porque a gente implora
Sol, pelo amor de Deus
Não venha agora
Que as morenas vão logo embora.

A zona mais tranqüila
É a nossa Vila
O berço dos folgados
Não há um cadeado no portão
Porque na Vila não tem ladrão.

A Vila tem um feitiço sem farofa
Sem vela e sem vintém
Que nos faz bem
Tendo o nome de princesa
Transformou o samba
Num feitiço decente
Que prende a gente.

em Vila Isabel
Quem é bacharel
Não tem medo de bamba
São Paulo dá café
Minas dá leite
E a Vila Isabel dá samba.

Eu sei tudo que passo
Sei por onde passo
Paixão não me aniquila.
Mas tenho que dizer
Modéstia à parte, meu senhor,
Eu sou da Vila."Caetano Veloso interpretando Feitiço da Vila.
Martinho da Vila e Simone interpretanto Feitiço da Vila.




Wilson não tibubeia; e não demora muito (1934), compõe o samba Conversa Fiada, que entrou para o repertório de Luís Barbosa, um dos maiores cantores-sambistas de todos os tempos, morto, prematuramente, aos vinte e oito anos. O samba é direto:
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É conversa fiada
Dizerem que os sambas
Na Vila tem feitiço.

Eu fui ver pra crer
E não vi nada disso
A Vila é tranqüila.

Porém, é preciso cuidado
Antes de irem dormir
Dêem duas voltas no cadeado.

(...)”

Conversa Fiada, da polêmica Noel Rosa X Wilson Batista.

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Sentindo-se provocado, Noel responde prontamente. E, nada mais,nada menos, com Palpite Infeliz (1935), lançada em 78 rpm no ano de 1936 por Aracy de Almeida, uma obra-prima e um dos maiores sambas de todos os tempos:




“Quem é você que não sabe o que diz
Meu Deus do céu, que palpite infeliz
Salve Estácio, Salgueiro, Mangueira
Osvaldo Cruz e Matriz
Que sempre souberam muito bem
Que a Vila não quer abafar ninguém
Só quer mostrar que faz samba também.

Fazer poema lá na Vila é um brinquedo
Ao som do samba dança até o arvoredo
Eu já chamei você pra ver
Você não viu porque não quis
Quem é você que não sabe o que diz.

(...)

Pra que ligar a quem não sabe
Aonde tem o seu nariz
Quem é você que não sabe o que diz."
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Lucas Santanna & Seleção Natural interpretando Palpite Infeliz.



Hugo Timo interpretando Palpite Infeliz.




Wilson, moleque tinhoso, além de ser bastante novo à época, não se
deixa intimidar e parte para a ignorância. Mirando direto na jugular de Noel, compõe, com grosseria e destemidamente, o samba Frankenstein da Vila, alusão a um defeito físico que Noel tinha no queixo. Não obstante não ter sido gravada, foi bastante executada nas noites cariocas:





“Boa impressão nunca se tem
Quando se encontra um certo alguém
Que até parece o Frankenstein.

Mas como diz o rifão (refrão)
Por uma cara feia
Perde-se um bom coração.

Entre os feios
Estás na primeira fila
Eu te batizo
Fantasma da Vila.

Esta indireta é contigo
E depois não vais dizer
Que eu não sei o que digo
Sou teu amigo…”

E Wilson não perdoa mesmo Noel. Apesar de, mais tarde, afirmar que, naquela época, era ainda um compositor sem traquejo, sem esperar a resposta do compositor, lança, em seguida, Terra de Cego, onde provoca sem pejo o "Poeta da Vila", mais uma vez, de forma direta e contundente, como era de seu costume:

“Perde a mania de bamba
Todos sabem qual é
O teu diploma de samba.

És o abafã da Vila, eu bem sei
Mas na terra de cego
Quem tem um olho é rei.

Para terminar a discussão
Não deves apelar
Para um barulho a mão.

Em versos podes bem desabafar
Pois não fica bonito
Um bacharel brigar."

Terra de Cego, da polêmica Noel Rosa X Wilson Batista.

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Depois de certo tempo, e após um encontro casual em um café na rua Evaristo da Veiga (ou no bar Porcão, na Lapa), os dois compositores fazem as pazes e acabam amigos. Acabava aí a polêmica. Como Terra de Cego não fora gravada, Noel aproveitou a melodia de Wilson Batista e a versificou, dando-lhe o título de Deixa de Ser Convencida, somente gravada em 2000 por Cristina Buarque de Holanda.

Polêmica Noel Rosa X Wilson Batista.



Wilson Batista, apesar de negro e sofrer constrangimento por i
sso (aliado ao fato de ser quase analfabeto), sustentava uma vida razoavelmente confortável; além de seu sucesso como compositor, também lançava mão de um expediente comum naquele tempo: a venda de músicas, sendo Francisco Alves, o Rei da Voz, um de seus grandes compradores. Desta forma, podia freqüentar ambientes da boemia branca e elegante, onde, em alto e bom som, criticava o trabalho, dizendo odiá-lo. Para ele, o que valia era “malandragem, vadiagem, orgia, gandaia e não trabalhar”, o que já lhe valera algumas prisões e maus tratos.

Dentre suas músicas mais famosas, sobressaem Oh! Seu Oscar, parceria com Ataulfo Alves, lançada por Ciro Monteiro, em 1939, ficando famosa e entrando para a história da música popular brasileira por ter ganhado o carnaval de 1940, do qual participaram vários clássicos do cancioneiro popular, como Passarinho do Relógio (Haroldo Lobo/Milton de Oliveira), Malmequer (Newton Teixeira/Cristóvão de Alencar), Anjo da Cara Suja (Haroldo Lobo/Milton de Oliveira), Despedida de Mangueira (Benedito Lacerda/Aldo Cabral) e – pasmem – Aquarela do Brasil, de Ary Barroso, que, muito mais tarde, seria escolhida a melhor música brasileira de todos os tempos. Oh! Seu Oscar, hoje é um clássico da música popular brasileira:

“Cheguei cansado do trabalho
Logo a vizinha me falou
- Oh! Seu Oscar
Tá fazendo meia hora
Que sua mulher foi embora
E um bilhete deixou
O bilhete assim dizia
‘Não posso mais
Eu quero é viver na orgia’.

Fiz de tudo para ter seu bem-estar
Até no cais do porto eu fui parar
Martirizando o meu corpo noite e dia
Mas tudo em vão, ela é, é da orgia."
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Samba do Ovo - Oh! Seu Oscar.
Em 1941, compõe, em parceria com Haroldo Lobo, Emília, gravada por Vassourinha para o carnaval de 42, com temática igual à de Ai Que Saudades de Amélia (Mário Lago/Ataulfo Alves), ou seja, a idealização da mulher do lar, aquela que vive somente em função de seu companheiro; foi outro grande sucesso de Wilson Batista, estando hoje também na galeria dos clássicos do cancioneiro popular:

“Quero uma mulher
Que saiba lavar e cozinhar
E de manhã cedo
Me acorde na hora de trabalhar.

Só existe uma
E sem ela eu não vivo em paz
Emília, Emília, Emília
Não posso mais.

Ninguém sabe igual a ela
Preparar o meu café
Não desfazendo das outras
Emília é que é mulher.

Papai do céu é quem sabe
A falta que ela me faz
Emília, Emília, Emília
Não posso mais.”

Outro grande sucesso de Wilson foi Acertei no Milhar (1940), onde compõe, pela primeira vez, com o grande Geraldo Pereira; Wilson chegou a afirmar que este samba de breque tinha como objetivo de medir a capacidade de Geraldo em compor de forma conjunta, apesar de alguns historiadores dizerem que a música é somente de autoria de Wilson. A música, gravada por Moreira da Silva e composta especialmente para que o já conhecido cantor fizesse seus famosos improvisos, sua marca registrada, marcou época e resistiu, bravamente, aos tempos:

“Etelvina, minha filha!
Acertei no milhar
Ganhei 500 contos
Não vou mais trabalhar.

E me dê toda a roupa velha aos pobres
E a mobília podemos quebrar
Isso é pra já, passe pra cá.

Etelvina
Vai ter outra lua de mel
Você vai ser madame
Vai morar num grande hotel.

Eu vou comprar um nome
Não sei onde
De marquês, de visconde
Um professor de francês, mon amour
Eu vou trocar seu nome
Pra madame Pompadour.

Até que enfim agora sou feliz
Vou passear a Europa até Paris
E nossos filhos, ó que inferno
Eu vou pô-los num colégio interno.

Telefone pro Mané do armazém
Porque não quero ficar devendo nada a ninguém
Eu vou comprar um avião azul
Para percorrer a América do Sul.

Mas de repente, de repenquente
Etelvina me chamou está na hora do batente
Mas de repente Etelvina me chamou e disse:
Acorda, Vargolino' foi um sonho minha gente.”.
Coral UNIFESP interpretando Acertei no Milhar.


Malandro interpretando Acertei no Milhar.


Não se pode esquecer também da música Deus no Céu, Ela na Terra (1940), parceria de Wilson com Marino Pinto e considerada um exemplo da genialidade do compositor pela forma e pela condução melódica, tornando-se sucesso na voz de Carlos Galhardo, que, a essa altura, lançava sucesso atrás de sucesso:

“Eu sei que outra no meu lar
Não vive bem
Só ela conhece os meus defeitos
E as virtudes também.

Por isso já mandei construir
Uma casinha na serra pra ela
É Deus no céu e eu na terra.

Não existe ninguém perfeito
Quando se tem amizade
Desaparece o defeito.

Eu finjo não saber que ela erra
Pra poder dizer:
Deus no céu e ela na terra.”

Sua música mais comentada, entretanto, foi, certamente, O Bonde de São Januário (1940), composta em parceria com Ataulfo Alves, almejando repetir o sucesso de Oh! Seu Oscar, do carnaval do ano anterior. Esta composição tem uma peculiaridade: sua letra. Feita em plena ditadura do Estado Novo, que, entre suas prerrogativas, estava a de zelar pela moral e pelos bons costumes, ela se enquadra dentro da nova doutrina do Estado, já que glorificar a vadiagem naqueles tempos nem era permitido. A música, que em sua primeira versão rimava “operário” com “otário”, se transforma, assim, em uma ode ao trabalho e aos trabalhadores, o oposto do que pensava e de como agia Wilson Batista:

“Quem trabalha é quem tem razão
Eu digo e não tenho medo de errar
O bonde de São Januário
Leva mais um operário
Sou eu que vou trabalhar.

Antigamente eu não tinha juízo
Mas resolvi garantir meu futuro
Vejam vocês:
Sou feliz, vivo muito bem
A boêmia não dá camisa a ninguém
É, digo bem."

Pedreiro Valdemar, sua música para o tríduo momesco desse ano de 49, grande sucesso na voz de Blecaute, também se inscreve nesse rol de músicas carnavalescas críticas ao sistema. Satiriza um dos problemas que atormentava (e atormenta) as famílias pobres que moravam no Rio de Janeiro: a falta de moradias para a plebe. Essa falta de moradias e o fato de que os trabalhadores da construção civil construíam prédios e mansões, participavam da expansão imobiliária, mas nada usufruíam em proveito próprio, são expostos de maneira clara e inteligente. A letra, assim, é uma crítica social das mais contundentes, que, entretanto, como sempre, se perdia no emaranhado de algaravia em que se constituía o carnaval carioca:

“Você conhece o pedreiro Valdemar
Não conhece mas eu vou lhe apresentar
De madrugada toma o trem da Circular
Faz tanta casa e não tem casa pra morar.

Leva a marmita embrulhada no jornal
Se tem almoço, nem sempre tem jantar
O Valdemar que é mestre no ofício
Constrói o edifício e depois não pode entrar."

Ouça Blecaute interpretando Pedreiro Valdemar.

Blecaute interpretando Pedreiro Valdemar.


De autoria de Geraldo Pereira e Arnaldo Passos é o bonito Samba Bom, que, tamm cantada por Blecaute, foi razoavelmente bem executada (seu sucesso real se deu em meados do ano), apesar de não ser uma obra representativa do que de melhor fora composto pelo magnífico sambista, Geraldo Pereira. Seu relativo sucesso se deve, basicamente, à utilização de uma linguagem bastante popular, com gírias que já estavam na boca do povão e empregadas de forma simples e direta:

“Ó que samba bom
Ó que coisa louca
Eu também estou aí
Estou aí, o que é que há
Também estou nesta boca.

Muita bebida, mulher sobrando
Tem até trouxa neste samba se arrumando
Eu neste samba vou me acabar
Num samba desses vale a pena a gente entrar."
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Sururu na Roda interpretando Samba Bom.

Do trio Marino Pinto/Paquito/Romeu Gentil é a música Jacarepaguá; fez grande sucesso popular na voz do grupo Vocalistas Tropicais, acabando por provocar polêmica nos meios de comunicação pela semelhança de sua melodia com uma rumba de grande sucesso internacional, El Cumbanchero, cantada por meio mundo hispânico, desde o marido cubano menos talentoso da famosa comediante norte-americana Lucille Ball, Desi Arnaz, até a nossa Leny Eversong que a cantou no mais famoso programa da televisão dos Estados Unidos, o Ed Sullivan Show:

“É hoje que eu vou me acabar
Com chuva ou sem chuva eu vou pra lá
Eu vou, eu vou pra Jacarepaguá
Mulher é mato e eu preciso me arrumar.

Copacabana tem romances ao luar
E em Paquetá também a gente pode amar
Porém, o lugar deste mundo
O maior é para mim, Jacarepaguá."


Ouça os Vocalistas Tropicais interpretando Jacarepaguá.


Leny Eversong interpretando El Cumbanchero.



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Mas os deuses do carnaval estavam mesmo é com a favorita Emilinha Borba. Braguinha, o famoso e lendário compositor de grandes sucessos carnavalescos, tais como Linda Lourinha (1934), Cadê Mimi (1936) Touradas em Madrid, (1938), Pastorinhas (1938), Yes, Nós Temos Banana (1938) e centenas de outras, lhe presenteia com duas preciosidades: o samba Tem Marujo no Samba (que ela gravou em dupla com Nuno Roland) e com a hoje cultuada Chiquita Bacana, a mais famosa canção brasileira pré-tropicalista, composta em parceria com Alberto Ribeiro.

João de Barro, o Braguinha, um monumento das artes nacionais e um espanto como compositor, a essa altura, já é um compositor veterano e famoso. Nascido no Rio de Janeiro no ano de 1906, em família de classe média alta, demonstra pendores artísticos desde criança. Desse jeito, tão logo se torna adulto, o mundo artístico se transforma em seu mundo. Ainda bastante jovem, integra o famoso "Bando de Tangarás", com nomes que dariam o que falar através dos anos seguintes: Noel Rosa (violão), Henrique Brito (violão), Alvinho (violão/vocal) e Almirante (pandeiro e vocal).

Bando de Tangarás.
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Sua estréia em disco como solista se dá em 1931, estranhamente com duas músicas de Lamartine Babo, Cor de Prata e Minha Cabrocha. Logo abandona sua carreira de cantor, iniciando uma outra, longa e produtiva, agora como compositor. Seu primeiro grande sucesso foi Linda Lourinha, gravação de Sílvio Caldas. Conhecendo Alberto Ribeiro em 1935, compuseram juntos Deixa a Lua Sossegada, música que iniciou uma parceria que atravessaria os anos seguintes.

Daí em diante, foi uma carreira de êxitos espetaculares: Linda Mimi, Cadê Mimi (gravada por Mário Reis), Pirata (Dircinha Batista), Muito Riso, Pouco Siso (Dircinha Batista, cantada no filme Alô, Alô, Carnaval), Por Um Ovo Só (Almirante), Minha Terra Tem Palmeiras (Carmem Miranda), Touradas em Madrid (objeto de intensa polêmica por ter ganhado o concurso de carnaval de 1938, mas que foi desclassificada por ser considerada um “passo double”, ritmo espanhol), Pastorinhas, feita em parceria com Noel Rosa, (inscrita para o concurso carnavalesco em substituição a Touradas em Madrid, ganhando novamente o concurso), Linda Pequena (As Pastorinhas modificada), Yes, Nós Temos Banana, Pirulito (estréia em disco de Emilinha Borba em 1939 participando do coro) e uma infinidade de outras.

Ouça Sílvio Caldas interpretando Pastorinhas.


Ouça Touradas em Madrid, com Carmen Miranda.

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Dircinha Batista interpretando Muito Riso Pouco Siso.

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Mário Reis interpretando Cadê Mimi (braguinha), também apresentada no filme Alô, Alô, Carnaval.



Na década de 40, seu sucesso continua inigualável: Em 1941 lança Quebra Tudo, com os Anjos do Inferno; Em 1943 satiriza o então poderoso Adolfo Hitler em uma música instigante chamada Adolfito Mata-Mouros, cantada por Orl
ando Silva. Seu sucesso continua com o retumbante êxito de Copacabana (1946), que tornou Dick Farney um astro com pretensões hollywoodianas; Pirata da Perna de Pau (1947), com Nuno Roland; Anda Luzia (1947), gravada por Sílvio Caldas. Às vésperas de 1949, novamente obtém grande sucesso popular com as músicas A Mulata é a Tal, gravada por Rui Rei e Tem Gato na Tuba, interpretada por Nuno Roland.

Nuno Roland interpretando Pirata da Perna de Pau.
Ouça Anda Luzia, com Sílvio Caldas.
Nuno Roland interpretando Tem Gato na Tuba.

Ritamaria interpretando Anda Luzia.


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Dick Farney interpretando Copacabana (Braguinha/Alberto Ribeiro).



Chiquita Bacana
já nasceu clássica. Antes mesmo de o carnaval chegar, já era a marcha mais executada e cantada em todo o Brasil. Falava-se, inclusive, em “febre Chiquita Bacana”. Um cronista de A Carioca, em fevereiro/49, chegou a escrever:
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“(…) deu a epidemia da Chiquita Bacana. O micróbio prolifera em toda parte. No morro, nas ruas, nos botequins, nas boites e dentro das casas, através das ondas sonoras (…)”.
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Com efeito, Braguinha, mais tarde, em entrevista a Sérgio Cabral, comentaria:
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“Quando Emilinha Borba lançou Chiquita Bacana, pouco antes do carnaval, ela saiu da Rádio Nacional, na Praça Mauá, acompanhada das fãs, cantando pela Avenida Rio Branco. Quando chegou perto da Cinelândia, havia uma multidão incalculável cantando a música (...)”
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Segundo Braguinha, "aquilo era muito bom."
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Estima-se que tenha sido vendida cerca de 200.000 cópias do disco, uma das maiores, se não a maior vendagem de música carnavalesca de todos os tempos. Sua letra, deliciosa e provocante, tocava em temas muito comentados então, o nudismo, por causa da vedete Luz Del Fuego, e o existencialismo, tornado famoso pelo filósofo francês Jean Paul Sartre. Estes fatos, aliados a uma interpretação segura de Emilinha, tornaram-na a favorita imediata do público.



Como resultado do sucesso das duas músicas de Brag
uinha, Tem Marujo no Samba ganha o concurso oficial como o melhor samba de 1949, e Chiquita Bacana se consagra como a melhor marcha deste mesmo ano, também ganhando o carnaval. A transcrição da letra dessa última música demonstra por que se tornou famosa desde então:


“Chiquita Bacana
Lá da Martinica
Se veste com uma casca
De banana nanica.

Não usa vestido
Não usa calção
Inverno pra ela
É pleno verão.

Existencialista
Com toda razão
Só faz o que manda
O seu coração."

Ouça Chiquita Bacana, com Emilinha Borba.

Rita Lee interpretando Chiquita Bacana.



Cérebro Eletrônico interpretando Chiquita Bacana.




Com o sucesso de Chiquita Bacana, Emilinha abria, definitivamente, o caminho para ser a Estrela do Brasil da década de 50.

1 comentários:

Anonymous Anônimo said...

Extraordinário trabalho de pesquisa com excelente apresentação!
Parabéns é pouco para traduzir tanto mérito!
Mais didático impossível!

8/8/10  

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