5.9.06

“EU VOU PARA MARACANGALHA”

Com as exceções de praxe, 1957 teve um péssimo carnaval em termos de qualidade das suas músicas; apesar de praticamente todos os grandes ídolos terem gravado para esse carnaval, Dalva de Oliveira (A Rosa e o Beija-Flor, de Raul Sampaio e Ivo Santos), Ângela Maria (Rainha da Cor, de Fernando Sérgio e Milton de Oliveira), Jorge Goulart (Inflação de Mulheres, de Marino Pinto e Frazão), Nora Ney (Se o Negócio é Sofrer, de Mário Lago e Chocolate), Linda Batista (Levou Fermento, de Monsueto e José Batista), Carlos Galhardo (O Tempo Bom), Blecaute (O Inventor da Mulata, de Manoel Rosa e Nilton Ribeiro), Jorge Veiga (Palhaço, de Fernando lobo e Ari Cordovil), Francisco Carlos (Rosa Tatuada), Joel de Almeida (Isso Não se Faz, de Joel de Almeida e Guadalupe), Orlando Silva (Marcha do Vira, de Raul Sampaio e Ivo Santos), Aracy de Almeida (Mais Vale um Gosto, de Mirabeau, Don Madrid e Urgel de Castro), Jackson do Pandeiro (Te Consola Comigo), Marlene (Inda Tem Que Rebolar, de Antônio Almeida e Zé Tinoco) e até Dolores Duran (Minha Agonia, de Mirabeau, Valdir Rocha e Paulo Gracindo), a indigência foi, mais uma vez, total. As marchinhas eram pobres e repetitivas; os sambas, ruins e sem inspiração.


Também, no carnaval desse ano, começam a aparecer com mais intensidade denúncias de que estaria crescendo demasiado o pagamento de “jabá”, por parte de compositores, cantores e editores, para que determinadas músicas fossem executadas, como já fora denunciado, anteriormente, por vários compositores, dentre eles Ary Barroso. De qualquer forma, a pobreza das músicas lançadas permitiu que o carnaval fosse dominado por pouquíssimos novos lançamentos e por músicas antigas e sucessos de meio de ano, como foi o caso de Mulata Assanhada, de Ataulfo Alves, bastante cantada e executada, e, principalmente, de Maracangalha, um samba de meio de ano composto por Dorival Caymmi no ano anterior e que se tornou um fenômeno musical, cantada no carnaval a plenos pulmões em todo as cidades brasileira.


Então com mais de 20 anos de uma carreira solidamente construída, já considerado um ícone da música popular brasileira, Dorival Caymmi (1914 - 2008), baiano de Salvador, iniciou sua carreira em 1935, cantando na Rádio Clube da Bahia, em um programa idealizado pelo radialista Gilberto Martins denominado “Caymmi e Suas Canções Praieiras” e, logo no ano seguinte, então com 22 anos, vence o concurso de músicas para o carnaval baiano com o samba de sua autoria A Bahia Também Dá.


Em 1938, abandona Recife em busca das glórias sulistas, estreando, ainda nesse ano, na Rádio Tupi do Rio de Janeiro, onde interpretava músicas de sua autoria, dentre elas, o samba O Que É Que a Baiana Tem?, composição iniciada ainda em Salvador e concluída no Rio de Janeiro.


Aí, mais uma vez, “o inesperado causa uma surpresa” no cenário artístico: como já visto, Banana da Terra estava sendo filmado por Wallace Downey e Braguinha; A estrela cantaria no filme três músicas de Ary Barroso: Boneca de Piche (1938), Na Baixa do Sapateiro e No Tabuleiro da Baiana. Só que, por questões financeiras, os produtores do filme e o compositor não chegaram a um acordo financeiro quanto à última música, o que paralisou, momentaneamente, a produção. Braguinha, através de seu parceiro, Alberto Ribeiro, conhece então o compositor baiano e suas músicas, logo percebendo que O Que É Que a Baiana Tem? poderia perfeitamente substituir a música de Ary, sem prejuízo dos cenários já construídos, por possuírem a mesma temática. Desta forma, a música foi utilizada em substituição à canção de Ary Barroso e, com o êxito da fita, lançada no país em 1939, tornou-se conhecida em todo o país.

Betty Faria e Grande Otelo interpretando Boneca de Piche.



Elis Regina interpretando Na Baixa do Sapateiro.



Dorival Caymmi interpretando O Que é Que a Baiana Tem.



O sucesso do filme aproximou Caymmi de Carmen Miranda; nesse mesmo ano de 1939, ano em que ele estava, literalmente, em todas, a convite do compositor Newton Teixeira, grava pelo selo Odeon, em dueto com a estrela, de um lado, exatamente o samba O Que É Que a Baiana Tem?, importante na carreira da artista por ajudá-la a compor sua persona artística que a acompanharia por toda a sua vida, e, do outro, A Preta do Acarajé, também de sua autoria. Igualmente, nesse ano, com arranjo de sua autoria, grava a cantiga Roda Pião, de domínio público, outra vez em dueto com Carmen Miranda, gravando, em seguida, dessa vez sozinho, ambas de sua autoria, as canções Rainha do Mar e Promessa de Pescador. Ainda em 1939, já contratado pela Rádio Nacional (onde conhece sua companheira de toda a vida, a cantora Stella Maris) teve uma outra música de sua autoria – O Mar – aproveitada na espetacular revista Joujoux e Balangandãs, de Henrique Pongetti, espetáculo de cunho beneficente que foi patrocinado pela então primeira dama, Darcy Vargas, um enorme êxito que ajudou a consolidar sua carreira de cantor e compositor.

Gal Costa interpretando Rainha do Mar.



Mateus Sartori interpretando Promessa de pescador.



Dorival Caymmi interpretando O Mar.



Em 1940, grava dois discos em 78 rpm: o primeiro contendo o samba (na realidade um jongo) Navio Negreiro, de J. Piedade, Sá Roriz e Alcyr Pires Vermelho e a canção de sua autoria Noite de Temporal; no outro, grava a canção O Mar, utilizando ambas as duas partes do 78 rpm. Ainda em 1940, o Bando da Lua (que estava no Brasil após dois anos nos Estados Unidos acompanhando Carmen Miranda) gravou, com enorme sucesso, O Samba da Minha Terra, ("Quem não gosta de samba/Bom sujeito não é/É ruim da cabeça/Ou doente do pé), último fonograma do grupo realizado no Brasil.

Virgínia Rodrigues interpretando Noite de Temporal.



Novos Baianos interpretando O Samba da Minha Terra.




Seu sucesso chamou a atenção de sua antiga emissora, a Rádio Tupi, para onde retornou em 1941, emissora pela qual atuou por mais nove anos. Nesse mesmo ano, grava na Columbia o jongo Essa Nêga Fulô, música de Osvaldo Santiago sobre versos do poeta Jorge de Lima, e o samba Balaio Grande, que ele compôs com o mesmo Osvaldo Santiago. Grava, em seguida, nesse mesmo ano, outro 78 rpm, contendo, de um lado, a toada que se tornaria um de seus maiores sucessos de todos os tempos É Doce Morrer No Mar, com melodia de sua autoria sobre versos de Jorge Amado contidos no romance Mar Morto e, do outro, a canção A Jangada Voltou Só, também de sua autoria. Dorival alcançaria outro grande sucesso como compositor, nesse mesmo ano com a gravação, pelos Anjos do Inferno, de duas músicas de sua autoria, Você Já Foi à Bahia? (o maior sucesso do grupo, na realidade) e Requebre Que Eu Dou Um Doce.

Cesária Évora e Marisa Monte interpretando É Doce Morrer no Mar.



João Gilberto interpretando Você Já Foi à Bahia?.



Consiglia Latorre e Luiz Duarte interpretando Requebre Que eu Dou um Doce.



Com o sucesso do disco anterior, em 1942, os Anjos do Inferno voltariam a gravar outro 78 rpm com canções do compositor, Vatapá e Rosa Morena, duas músicas que se tornaram clássicas no cancioneiro brasileiro. Com a saída da gravadora Columbia do Brasil, a Continental, que ficou de posse de seus fonogramas, relança, em 1943, as músicas do compositor gravadas naquele selo. Foi nessa ocasião que Caymmi excursiona por todo o país, aproveitando a popularidade alcançada nesses poucos anos de carreira, que, a essa altura, já estava consolidada

Gal Costa interpretando Vatapá.



Casuarina interpretando Rosa Morena.



João Gilberto e Caetano Veloso interpretando Rosa Morena.



Após quatro anos sem gravar, Caymmi retorna à Odeon em 1945, lançando, em novo 78 rpm, mais dois sucessos eternos, o samba (autobiográfico) Peguei Um Ita no Norte e o samba-canção Dora, uma homenagem à cidade de Recife, onde são citados a passista, o frevo e o maracatu. Em 1946, grava, pelo mesmo selo, de sua autoria, os sambas A Vizinha do Lado e Trezentas e Sessenta e Cinco Igrejas, gravações que trazem como curiosidade a participação de Benedito Lacerda e seu conjunto regional.

Emílio Santiago interpretando Peguei um Ita no Norte.



Gal Costa interpretando Dora.



Roberta Sá interpretando A vizinha do Lado.



A partir desse ano, já famoso em todo o país, lança uma sucessão de êxitos eternos, com destaque para A Lenda do Abaeté (1948), música apresentada no filme Samba em Berlim, de 1943, Sodade Matadera (1948), Saudade de Itapoã (1948), O Vento (1949), Não Tem Solução (1952, em parceria com Carlos Guinle), Nem Eu (1952), Sábado em Copacabana (1952), Tão Só (1953), o clássico João Valentão (1953), Quem Vem Pra Beira do Mar, Pescaria, A Jangada Voltou Só (essa última regravação de um sucesso de 1941), todas de 1954, ano em que também grava seu primeiro Long Playing denominado Canções Praieiras, onde regrava seus sucessos – com uma única inédita, O Bem do Mar –, tendo como motivo o mar), o espetacular sucesso Só Louco (1956) e vários outros.

Baden Powell interpretando Lagoa do Abaeté.



Almir Sater interpretando Sodade Matadera.



Nana Caymmi interpretando Não Tem Solução.



Guto Gucci (Dorival e Nana Caymmi) interpretando Nem Eu.



Maria Betânia interpretando Sábado em Copacabana.



Mateus Sartori interpretando João Valentão.



Dorival caymmi interpretando Quem Vem Pra Beira do Mar.



Gal Costa interpretando O Bem do Mar.



Djavan interpretando Só Louco.



Gal Costa interpretando Só Louco.

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Maracangalha foi um enorme êxito popular de 1956, disputando com Conceição (Cauby Peixoto), A Voz do Morro (Jorge Goulart), Iracema (Demônios da Garoa), Rock Around de Clock (Bill Halley), Obsessão (Carmen Costa), Meu Vício é Você (Nelson Gonçalves), Turma do Funil (Vocalistas Tropicais), Sixteen Tons (Tennessee Ernie Ford) e outras mais as preferências do grande público. Com versos singelos, fáceis de serem rememorados, parecia mesmo ter sido feita para estourar no carnaval. Até hoje é uma das mais conhecidas músicas de Dorival Caymmi:

“Eu vou pra Maracangalha eu vou
Eu vou de uniforme branco eu vou
Eu vou de chapéu de palha eu vou
Eu vou convidar a Anália eu vou.

Se a Anália não quiser ir eu vou só
Eu vou só, eu vou só

Se a Anália não quiser ir eu vou só
Eu vou só, eu vou só sem a Anália
Mas eu vou.”


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Mateus Sartori interpretando Salvador e Maracangalha.




Beth Carvalho interpretando Maracangalha.



***


Mirabeau, como sempre, não deixou de provocar polêmica; mais uma vez foi acusado de ser um plagiário. Desta feita, seu samba para esse carnaval – Jarro da Saudade – foi acusado de ter o mesmo refrão melódico de Tarde na Serra, de Lamartine Babo. Seja como for, ele deixou sua marca nesse carnaval de 1957. Feita em parceria com Daniel Barbosa e Geraldo Blota e interpretado por Carmen Costa, Jarro da Saudade, apesar de sua melodia um tanto quanto tristonha (ou por causa disso), foi um dos sambas mais executados no tríduo momesco:



“Iaiá, cadê o jarro

O jarro que plantei a flor

Eu vou lhe contar um caso

Eu quebrei o jarro

E matei a flor.


Que maldade!

Que maldade!

Você bem sabia

No jarro de barro

Eu plantei a saudade.”


Pela total ausência de sambas de categoria, um samba menor do mestre Wilson Batista, composto em parceria com Jorge de Castro – Vagabundo –, interpretado por Roberto Silva, um dos reis do sincopado (ao lado de Ciro Monteiro), fez sucesso nos salões, uma das mais cantadas e executadas nesse carnaval:


“Eu vou beber

Eu vou jogar

Quando você me deixar

Me deixar.


Vou ficar sozinho no mundo

Vou me tornar um vagabundo

Meu lar vai ser um botequim

Quando você amor cansar de mim."



O primeiro ano do governo de Juscelino Kubitschek, como já foi visto, foi difícil e conturbado. A UDN não dava tréguas, os militares conspirando e o povão esperando as promessas serem cumpridas. Ricardo Galeno fotografou a cena e compôs o samba Deixa o Nonô Trabalhar em apoio ao governo. Foi uma das poucas letras a tratar da política brasileira, mas não fez o merecido sucesso. A música foi gravada por Carminha Mascarenhas, uma boa promessa que não se cumpriu:


“O morro tá falando por falar

A Escola vai sair

E as cabrochas vão sambar

Chega, ainda é cedo pra julgar

Deixa o Nonô trabalhar.


Nonô quando assumiu a presidência da Escola

Não encontrou sequer um tamborim

Agora que a Escola tomou jeito

(Pois sim!)

Chega, ainda é cedo pra julgar

Deixa o Nonô trabalhar.”



Com muita boa vontade, ainda poderíamos citar outro samba – Descansa a Cabeça –, de autoria de Santos Garcia, que, na voz do Veterano Gilberto Alves (1915 - 1992), também fez um razoável sucesso, bem menor, porém, do que seu espetacular sucesso do carnaval de 1955 Recordar (Aldacir Louro/Aluísio Martins/Adolfo Macedo):

Descansa a cabeça no meu ombro
Esqueça o mal que te fiz
Descansa a cabeça no meu ombro
Só assim poderei ser feliz.

Enxuga dos olhos as lágrimas

E troca a tristeza pela alegria

É certo, o passado não volta

Amanhã será outro dia.”



A grande vencedora do carnaval de 1957, porém, foi novamente a cantora Emilinha Borba; após alguns carnavais em que suas músicas, apesar de bem executadas e cantadas, ficaram aquém das expectativas, nesse ano, sua marchinha Vai Com Jeito, outra delícia composta por João de Barro (que nos dá bem a idéia de como era o Rio de Janeiro na década de 50), arrebata os foliões, sendo premiada como a melhor marcha do ano no concurso da prefeitura do Distrito Federal. Segundo o Site hot100brasil.com, foi o nono maior sucesso de 1957, participando de todas as antologias sobre as melhores marchas carnavalescas de todos os tempos:

“Vai, com jeito vai
Senão um dia a casa cai
Menina, vai, com jeito vai
Senão um dia a casa cai.

Se alguém te convidar
Pra tomar banho em Paquetá
Pra um piquenique
Na Barra da Tijuca
Ou pra fazer
Um programa no Joá
(Menina...).”

Ouça Emilinha Borba interpretando Vai com Jeito.



Dircinha Batista (1922 - 1999) também não fez feio nesse carnaval; sua marcha Ela Foi Fundada, uma sátira feroz aos esforços de mulheres, digamos, maduras, de parecerem mais jovens, composta pelo trio Otolino Lopes, Arnô Provenzano e Oldemar Magalhães, foi um dos sucessos do ano, muito executada, talvez por influência de Oldemar Magalhães, discotecário bastante poderoso no cenário carnavalesco:


"Conheço uma dama
Que se diz soçaite
Que passa dos sessenta
Mas não sai dos trinta e dois
Coitada está cansada
De ficar no espelho
Tapando seus buracos
Com creme e pó-de-arroz
Ela foi fundada
Em mil oitocentos e oitenta e dois.”

O Rio de Janeiro vivia uma febre de empresas loteadoras de terreno. A Barra da Tijuca, por exemplo, era somente um lugar distante, ermo e perigoso. Os aproveitadores de sempre enganavam o povo incauto, vendendo lotes inexistentes ou impróprios para construções. Aproveitando o mote, Estanislau Silva e Gil Lima compuseram a marcha Olha o Jacaré, que, gravada pela cantora de elite Vera Lúcia, ex-Rainha do Rádio, mesmo não tendo feito grande sucesso, foi uma das melhores desse carnaval:

“Comprei um lote de terreno a prestação
O moço disse que era perto da estação
Andei, andei a pé
E o terreno é uma lagoa assim de jacaré.

Cheguei a ver meu fim
Corri atrás do trem
E o jacaré atrás de mim.”

Nelson Gonçalves (1919 - 1998), sobre quem ainda muito vai se falar nesse ano de 1957, fez também um razoável sucesso com uma marchinha de Klécius Caldas e Armando Cavalcanti denominada Casamento é Loteria, uma crítica ácida à instituição do casamento. Os marmanjos, principalmente, a cantaram a plenos pulmões:

“Casamento é loteria

Pra que, pra que eu vou casar

Solteiro tem dinheiro

Farreio o ano inteiro

Casado só tem conta pra pagar.


O meu pai sempre dizia

Pra filharada escutar

Casamento é loteria

Pra que, pra que eu fui casar.”


Parecia impossível e, se alguém apostasse um centavo em seu sucesso, certamente encontraria dezenas de apostadores antagonistas. Nesse Carnaval de 1957, uma marcha de bloco, ou frevo de bloco, com uma letra razoavelmente difícil de ser guardada, tomou conta das ruas e salões de todo o país, cantada à exaustão por foliões de todas as idades e sexo, um sucesso difícil de ser explicado. Estamos falando de Evocação, composto por Nelson Ferreira, que se tornou o grande sucesso da Fábrica de Discos Rozenblit, fundada no Recife em 1952 e distribuidora do selo Mocambo para todo Brasil.


Gravada em 1956 pelo Bloco Batutas de São José para o carnaval de 1957, Evocação nº 1 foi o primeiro grande sucesso daquela gravadora, tornando-se uma música de execução obrigatória em qualquer festa carnavalesca, fosse nos salões ou nas ruas; o certo é que, junto com a marcha Vai Com Jeito, dominou o carnaval de ponta a ponta.


Segundo o próprio Nelson Ferreira, em depoimento ao Museu da Imagem e do Som de Pernambuco, e em texto inserido no álbum duplo Rozenblit – LPP 015/16 (1968), Evocação nº 1 fora inspirado em figuras de blocos carnavalescos do Recife dos anos 20, então desaparecidas. Em suas próprias palavras:

"Felinto de Moraes e Fenelon Moreira [de Albuquerque] eram do Apôis Fum; Pedro Salgado era presidente do Bloco das Flores; Guilherme de Araújo era a figura de proa do Andaluzas em Folia e do Pirilampos de Tejipió; o velho Raul Moraes era compositor, pianista e ensaiador do Bloco das Flores, para o qual escreveu várias marchas, inclusive a Marcha Regresso. Dela usei os versos ‘Adeus, adeus minha gente / Que já cantamos bastante’. Fiz Evocação n.º 1 numa noite só, de uma vez só.

Dessas figuras citadas, notabilizava-se Felinto de Moraes (Recife, 1884 - Rio de Janeiro, 1927), fundador e principal dirigente do mais famoso bloco carnavalesco de todos os tempos, o Apôis Fum, surgido na povoação da Torre em 1925. Em depoimento ao Diário de Pernambuco, de 29 de janeiro de 1980, uma antiga simpatizante, Ana Uzeda Luna, afirma que 'o bloco congregava os melhores músicos, inclusive os componentes do conjunto Turunas da Mauricéia, conjunto vocal composto pelos maiores violonistas de sua época, entre eles Manuel de Lima (violonista cego), Alfredinho de Medeiros e seu primo Felinto de Moraes; o bandolinista Luperce Miranda (1904-1977) e seu irmão, Romualdo Miranda (1897-1930), eram a nota alta dos bandolins, enquanto Augusto Calheiros (1891-1956), que viria receber o apelido de Patativa do Norte, chefiava o coro'".


Evocação que, primeiramente, conquistou a cidade de Recife e depois se espraiou por todo o país, nunca mais teve outro similar. Sua importância reside exatamente por ter sido o exemplar único de uma música de carnaval, principalmente sendo um frevo, ritmo bastante distante da realidade musical do Rio ou de São Paulo, saída de uma praça distante e que conquistou o Brasil somente por suas qualidades. Será uma música eterna:


“Felinto... Pedro Salgado...

Guilherme... Fenelon...

Cadê teus blocos famosos?

‘Bloco das Flores'...

'Andaluzas'...’

‘Pirilampos'...

'Apois Fum’...

Dos Carnavais famosos.


Na alta madrugada

O coro entoava

Do bloco a Marcha-Regresso

Que era um sucesso

Nos tempos ideais

Do velho Raul Morais

Adeus, adeus minha gente

Que já cantamos bastante

E Recife adormecia

Ficava a sonhar

Ao som da triste melodia.”


Ozi dos Palmares interpretando Evocação nº 1.

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