20.9.06

DESTAQUES NO CENÁRIO MUSICAL (PARTE 2)

Analisando-se a lista das músicas mais vendidas e executadas no país nesse ano de 1960, o menos que se pode dizer é que ela é uma babel de ritmos e de tendências musicais, trazendo cantores veteranos, cantores já acostumados com o sucesso, cantores se afirmando no cenário musical, cantores já transformados em fenômenos de venda de discos, enfim, um misto de tudo, do samba tradicional, passando pela bossa nova, rock and roll, samba-canção, versões de todos os gostos e platéias, canções satíricas e assim por diante.

Celly Campelo se reafirmou como a grande sensação da brotolândia brasileira. Além de ter se transformado na nova namoradinha do Brasil, nesse ano de 1960, recebeu o troféu Roquete Pinto de "Cantora Revelação" e o troféu Tupiniquim de "Revelação Feminina" do ano. E, para coroar sua inscrição definitiva no "Hall da Fama" das cantoras brasileiras, novamente foi a intérprete do maior sucesso da temporada – Banho de Lua –, uma música dos compositores italianos B. de Fellipi e F. Migliacci, vertida para o português pelo especialista Fred Jorge:


"Fui à praia me bronzear, me queimei, escureci
Mamãe bronqueou, nada de sol
Hoje só quero a luz do luar.

Tomo banho de lua, fico branca como a neve
Se o luar é meu amigo, censurar ninguém se atreve
É tão bom sonhar contigo, oh! Luar tão cândido.


Sob um banho de lua, numa noite de esplendor
Sinto a força da magia, da magia do amor
É tão bom sonhar contigo, oh ! Luar tão cândido.

Tim, tim, tim, banho de lua, tim, tim, tim, baixando vem
Ao mundo, oh lua, oh cândida lua vem.

Tomo banho de lua, fico branca como a neve
Se o luar é meu amigo, censurar ninguém se atreve
É tão bom sonhar contigo,
Oh! Luar tão cândido

É tão bom sonhar contigo,
Oh! luar tão cândido."


Celly Campelo interpretando Banho de Lua.



Os Mutantes interpretando Banho de Lua.



Outras canções que se destacaram ao longo do ano foram Coração de Luto, uma dramática toada sertaneja do cantor Teixeirinha (1927 - 1985), também seu autor, que, em pleno domínio do rock and roll, se transformou em enorme êxito popular, um dos maiores sucessos do ano; Negue (Adelino Moreira/Enzo de Almeida Passos), espetacular sucesso de Carlos Augusto; Por Quem Sonha Ana Maria, modinha de Juca Chaves; A Noite do Meu Bem, de Dolores Duran, gravada no ano anterior, mas que foi um dos maiores sucessos de 1960; La Violetera (José Padilha/Eduardo Montesinos), êxito de Ângela Maria e, no original, com Sarita Montiel; Esmeralda (Filadélfio Nunes/Fernando Barreto), interpretada por Carlos José; Marina, sucesso italiano de Rocco Granata, com versão de Caubi Peixoto e interpretada por ele próprio, sucesso também com Leny Eversong; Meu Dilema (Adelino Moreira), com Nelson Gonçalves; Serenata Suburbana, uma inusitada guarânia de Capiba que se tornou sucesso nacional na voz de Dalva de Andrade; Súplica Cearense (Gordurinha), com o próprio autor; E Daí? (Miguel Gustavo), gravada por muita gente, mas, com destaque maior para Isaurinha Garcia, e diversos sucessos internacionais, como Oh! Carol (Sedaka/Greenfield), com Neil Sedaka; It’s Now or Never (Schroeder/Gold), com Elvis Presley; Everybody's Somebody's Fool (Jack Keller and Howard Greenfield), com Connie Francis; Theme from A Summer Place (Max Steiner), com Percy Faith e sua Orquestra; Put Your Head on my Shoulder (Paul Anka), com o próprio autor; The Green Leaves Of Summer (Dimitri Tiomkin & Paul Webster), com The Brothers Four; Pillow Talk (Buddy Pepper/Inez James), com Doris Day, e diversas outras.


Teixeirinha interpretando Coração de Luto.



Humberto Gessinger interpretando Coração de Luto.



Cesária Évora interpretando Negue.



Maria Bethânia interpretando Negue.



Milton Nascimento e Wagner Tiso interpretando A Noite do Meu Bem.



Dolores Duran interpretando A Noite do Meu Bem.



Sarita Montiel interpretando La Violetera.



Nana Mouskouri interpretando La Violetera.



Rocco Granata interpretando Marina.



Rocco Granata interpretando Marina (remix).



Mané Rollo e Serginho interpretando Meu Dilema.



Luiz Gonzaga interpretando Súplica Cearense.



O Rappa interpretando Súplica Cearense.



Gal Costa interpretando E Daí?



Maria Bethânia interpretando E Daí?


Neil Sedaka interpretando Oh! Carol.



Elvis Presley interpretando It's Now or Never.



percy Faith interpretando o tema de A Summer Place.



Paul Anka interpretando Put Your Head on my Shoulder.



The Brothers Four interpretando The Green Leaves of Summer.



Chet Atkins e Hank Snow interpretando The Green Leaves of Summer.



Trailer do filme Pillow Talk.



Connie Francis interpretando Everybody's Somebody's Fool.



***

Um cantor que estourou exatamente nesse ano de 1960, ano em que lançou seu primeiro disco solo, pelo pequeno selo Sideral, o Long Playing Um Novo Astro, foi Miltinho, o Milton Santos de Almeida (31.01.1928), carioca da gema e já com uma carreira artística digna de respeito.

Em meados da década de 1940, já participava, como ritmista (pandeirista) e vocalista do conjunto musical Cancioneiros do Luar, participando, posteriormente dos Namorados da Lua, de onde saiu, em 1948, para se integrar aos Anjos do Inferno com o qual viajou para os Estados Unidos para acompanhar, durante certo tempo, a cantora Carmen Miranda, o grupo indo, posteriormente, para o México, onde, durante cerca de dois anos, manteve no ar um programa de rádio chamado "Coisas e Aspectos do Brasil", divulgando a música e a cultura brasileiras, quase desconhecidas naquele país.

Em 1949, o grupo, de volta ao Brasil, entra novamente em estúdio, lançando dois 78 rpm, registrando, em um, os sambas Nega (Valdemar Gomes e Afonso Teixeira) e Treze de Ouro (Herivelto Martins e Marino Pinto), e, no outro, Falaram Tanto na Bahia (Arlindo Marques Jr. e Roberto Roberti), e Telhado de Vidro, de autoria de Marino Pinto e Mário Rossi. Em 1950, foram lançados no mercado quatro sambas gravados anteriormente pelo conjunto, Filomena, Cadê o Meu? (Wilson Batista e Antônio Almeida); Passa Moreninha (Roberto Martins e Mário Lago); Lá Vem a Baiana, espetacular samba de Dorival Caymmi, e Que Mulher Infernal, de Mário Lago e José Batista.

Gal Costa interpretando Lá Vem a Baiana.



Osvaldo Leão Filho interpretando Idéias Erradas.



Ferd D. interpretando Mulher de Trinta.



Após uma rápida passagem pelo conjunto Quatro Ases e Um Coringa, no segundo meado da década de 50, Miltinho conseguiu bastante notoriedade na noite carioca, ao se tornar "crooner" da Orquestra Tabajara, de Severino Araújo, além de se integrar, mais tarde, aos Milionários do Ritmo, de Djalma Ferreira. Sua voz anasalada era bastante apropriada a uma variação do samba, que começava a se firmar no cenário musical, o samba de teleco-teco, ao mesmo tempo em que também era um ótimo cantor de músicas românticas.

Pela boa repercussão de suas performances, em 1960, lançou-se à carreira solo, conseguindo gravar um Long Playing pelo pequeno selo Sideral denominado "Um Novo Astro", que se tornou um sucesso instantâneo, lançando diversas músicas que se tornaram eternas, dentre elas, Ri, de Luiz Antônio, Idéias Erradas, de Dolores Duran e J. Ribamar, Menina Moça, de Luiz Antônio, sucesso também com Tito Madi, Teimoso, de Ari Monteiro e Luiz Bandeira e Mulher de Trinta, outro samba de Luiz Antônio, que, além de ter sido um dos maiores sucessos desse ao de 1960, seria também o maior de sua carreira, consagrando-o em todo o Brasil:

"Você mulher
Que já viveu
Que já sofreu
Não minta
Um triste adeus
Nos olhos seus
A gente vê mulher de trinta.

No meu olhar
Na minha voz
Um novo mundo sinta
É bom sonhar
Sonhemos nós
Eu e você mulher de trinta.

.

O amanhã sempre vem
E o amanhã pode trazer alguém."


***

Alguns anos depois, os dois gravariam juntos diversos Long Playings, com enorme repercussão crítica e de público. Estamos falando do acima referenciado Miltinho e de uma outra cantora que também despontou para o estrelato exatamente nesse ano de 1960: Elza Soares (23.06.1937), a Bossa Negra, a maior revelação feminina dos últimos anos entre as sambistas brasileiras e que, com o passar dos anos, se tornaria uma deusa da música popular brasileira, transitando por todos os ritmos e superando todos os modismos por que passou o cancioneiro popular.

Paradoxalmente revelada quando a bossa nova se consolidava no mercado fonográfico do país, quase como uma contraposição a esse novo ritmo, Elza tivera uma vida pobre e sem muita perspetiva, vinda do que, mais tarde, ela chamaria de "planeta fome". Filha de uma lavadeira e de um operário, nascida no núcleo residencial Moça Bonita (hoje Vila Vintém), uma das primeiras favelas do Rio de Janeiro, mas criada na favela de Água Santa, subúrbio de Engenho de Dentro, tudo indicava que sua vida seria semelhante à de sua mãe e de, praticamente, todas as suas vizinhas, principalmente, quando, aos doze anos se casou, sendo mãe aos treze e já mãe de cinco filhos e viúva aos 18 anos (ou 21, conforme a fonte).

Exatamente como sua mãe, ainda muito nova, também trabalhou como lavadeira e, após um tempo, como encaixotadora e conferente em uma fábrica de sabão em seu próprio bairro, o Engenho de Dentro. Só que a música já habitava seu coração e, ainda casada, quase uma adolescente, fez seu famoso primeiro teste na Rádio Tupi, apresentando-se no famoso e temido programa "Calouros em Desfile", comandado por Ary Barroso. Interpretou a música Lama (Paulo Marques e Alice Chaves), sucesso de 1952 na voz de Linda Rodrigues (uma cantora do segundo time, especializada no que seria, mais tarde, chamada música de "fossa" ou de "dor de cotovelo"), e que, posteriormente, seria resgatada, com sucesso, por uma cantora quase estreante, Maria Betânia. Obviamente impressionou o grande compositor, ao ponto de ganhar o primeiro lugar naquele dia.

Geceny Martins interpretando Lama.



Através de seu irmão, Avelino, que comentara com os colegas o desempenho da irmã no famoso programa de calouro, e que era integrante da Orquestra Garam de Bailes, comandada pelo maestro Joaquim Naegli, Elza conseguiu seu primeiro emprego na vida artística como "Lady Crooner" da orquestra. Após um tempo afastada da noite, devido a uma gravidez, e após ter se apresentado em um show no Clube da Imprensa, conhece a grande bailarina e coreógrafa negra Mercedes Batista, reconhecida como a introdutora do balé afro no Brasil, que a convida a se integrar em seu elenco de bailarinas. Com essa Companhia, Elza apresentou-se, inclusive, na Argentina, em uma longa temporada, comendo, segundo ela própria, "sanduíche de pão com pão", cantando até boleros, porque o empresário do grupo fugiu com todo o dinheiro. De volta ao Brasil, participa da revista musical de Silva Filho Jou-Jou Frou Frou, estrelada por Grande Otelo, grande sucesso de público.

Como quase tudo que se refere à história dos ídolos da música popular brasileira, as informações sobre sua ascensão são divergentes; segundo certas fontes, de volta ao Brasil, já com traquejo de palco, Elza teria feito um teste para a Rádio Mauá, começando a atuar, gratuitamente, no programa do radialista Hélio Ricardo. Graça a suas apresentações nesse programa, chamou a atenção do cantor Moreira da Silva que a levou para a Rádio Tupi onde se apresentava concomitantemente ao seu trabalho de "crooner" na boate Texas. Elza, mais tarde, chegou a dizer que cantar foi até fácil, porque havia um grande espaço, já que, naquela época,


"cantar era considerado coisa de prostituta. E a família não permitia. As pessoas diziam ‘somos pobres, mas somos honestos’. Eu dizia, ‘eu hein, pobre com fome?’ Eu nunca vi honestidade com fome. Eu pensava ‘honestidade pra mim é barriga cheia’. Eu tive uma oportunidade e então eu fui para a Argentina e comecei cantando praticamente com o Astor Piazzola."

Na Texas, Elza conhece outra cantora em ascensão, Sylvia Telles, e seu marido, Aloysio de Oliveira, homem da noite, cheio de contatos na indústria cultural, que a teria convidado para gravar seu primeiro 78 rpm.

Com pequenas variações, outras fontes dizem que, em 1959, ao regressar ao Brasil, foi contratada por Walter Silva para a Rádio Vera Cruz, onde teria se encontrado, de novo, com mesmo Moreira da Silva, que a levou para cantar no Texas Bar, em Copacabana, fazendo contato com Silvinha Teles e Aloysio de Oliveira, o qual a convidou para gravar.

Seja como for, ainda em dezembro de 1959, a cantora grava, pela Odeon, um 78 rpm com as músicas Se Acaso Você Chegasse (Lupicínio Rodrigues e Felisberto Martins), sucesso no ano de 1938 com Ciro Monteiro, no lado A, e, no lado B, a versão de Mack the Knife, de Kurt Weill e Bertold Brecht, feita por Alberto Ribeiro, segundo Elza, para aproveitar sua voz "muito americanizada". Logo no início de 1960, o timbre da voz da cantora era um dos assuntos mais comentados nas rodas musicais do Rio de Janeiro e Se Acaso Você Chegasse já era um sucesso nacional:

"Se acaso você chegasse
No meu chateau e encontrasse
Aquela mulher que você gostou
Será que tinha coragem
De trocar nossa amizade
Por ela que já lhe abandonou?

Eu falo porque essa dona
Já mora no meu barraco
À beira de um regato
E de um bosque em flor
De dia me lava a roupa
De noite me beija a boca
E assim nós vamos vivendo de amor."

Simone interpretando Se Acaso Você Chegasse.



Em
fevereiro desse ano de 1960, Elza lança outro 78 rpm, dessa feita com Edmundo, versão de In the Mood (Garland/Razaf), feita por Aloysio de Oliveira, no lado A, e Era Bom, de Hianto de Almeida e Macedo Netto, no lado B. Ainda em 1960 (agosto), gravaria outro 78 rpm, contendo as músicas Teleco Teco n.º Dois (Nelsinho/Oldemar Magalhães) e Casa de Turfista, Cavalo de Pau, outra composição da
dupla Hianto de Almeida e Macedo Netto, além de lançar seu primeiro Long Playing – Se Acaso Você Chegasse (A Bossa Negra) –, contendo as músicas já lançadas em 78 rpm, Se Acaso Você Chegasse (Felisberto Martins/Lupicínio Rodrigues), Casa de Turfista, Cavalo de Pau (Hianto de Almeida/Macedo Netto), Era Bom (Hianto de Almeida/Macedo Netto) e Teleco Teco n.º Dois (Nelsinho/Oldemar Magalhães), além de Mulata Assanhada, de Ataulfo Alves, que fez muito sucesso, Samba em Copa (Cyro Monteiro), Dedo Duro (Carlito/Zeca do Pandeiro), Contas (Amâncio Cardoso), Sal e Pimenta (Newton Ramalho/Nazareno de Brito), Cartão de Visita (Edgardo Luiz/Nilton Pereira de Castro), Nego Tu... Nego Vós... Nego Você, outra composição de Macedo Netto e Hianto de Almeida, e Não Quero Mais, de Júlio Hungria e Nestor.

Elza Soares interpretando Teleco Teco número 2.



Elza Soares interpretando Edmundo.




Judy Garland interpretando In the Mood.



Flávia Bittencourt interpretando Mulata Assanhada.



Elza Soares é a única cantora – única –, despontada na década de 50, a fazer sucesso popular e ter prestígio junto à crítica especializada até hoje, em pleno novo milênio. Algumas ainda têm prestígio crítico e fazem algum sucesso fora do Brasil junto a um público especializado – como é o caso de Leny Andrade –, mas, ser recebida como ícone, transitar até pelo Rap, só Elza, só Elza Soares, a Bossa Negra.

***

.
Uma bossa nova que não era bossa nova: assim podemos definir um dos grandes sucessos desse ano de 1960, a música Menina Moça, que, composta por Tito Madi e interpretada por ele próprio, ficou meses nas paradas de sucessos, tornando seu autor, até então conhecido apenas por alguns iniciados (aquela parcela do público que gostava de Tom Jobim, Dolores Duran, Dick Farney, Lúcio Alves, Sylvia Telles, Maysa Matarazzo, do pessoal da nascente bossa nova, bastante influenciado por ele, e outros mais), um dos nomes mais em evidência em todo o país.

Chauki Maddi, aliás, Tito Madi (18.07.1929), filho de imigrantes árabes, já aos 10 anos de idade, tocava violão e se apresentava em festas do grupo escolar de sua cidade natal, Pirajuí, interior de São Paulo, o que lhe abriu as portas para, aos 18 anos de idade, começar a trabalhar na rádio local, onde fazia de tudo um pouco: era programador, locutor, redator e cantor. Quando sentiu que a cidade ficara pequena demais para ele, resolveu tentar a vida artística na capital, São Paulo, mudando-se para lá em 1952, conseguindo, nesse mesmo ano, se integrar ao cast da Rádio Tupi de São Paulo.

Em 1953, o conjunto vocal Os Quatro Amigos gravou, pelo selo Odeon, uma valsa de sua autoria, Eu e Você, lado A de um 78 rpm. Mas, sua estréia como cantor aconteceu no ano seguinte, quando grava com o Trio Tupi, pela Continental, em 78 rpm, o samba-canção Pirajuí, e o samba Não Diga Não, ambos as músicas de sua autoria, compostas em
parceria com Georges Henry. Com esse disco, foi eleito cantor revelação o ano, ganhando o Troféu "O Guarani" dos cronistas fonográficos de São Paulo. Nesse mesmo ano, Leni Caldeira (boa e eclética cantora que não fez carreira, que gravava todos os ritmos possíveis, samba, samba-canção, bolero, toada, baião, tarantela, xote, fox etc.) gravou, na RCA Victor, seu samba Joguete de Amor, outra parceria sua com Georges Henry. Nesse mesmo ano de 1954, Tito também gravaria o samba-canção de sua autoria, em parceria com Clélia Simone, Vem Felicidade e a valsa Eu e Você, anteriormente gravada pelo conjunto Os Quatro Amigos. E, como prova de seu reconhecimento como compositor, uma cantora em grande evidência em todo o país, Nora Ney (1922 - 2003), regrava seu samba Não Diga Não, abrindo-lhe os olhos para uma nova praça, o Rio de Janeiro, para onde se muda no ano seguinte, 1955, sendo logo contratado pela Rádio e TV Tupi, apresentando-se, ao mesmo tempo, em diversas boates cariocas, como a Jirau, a Cangaceiro, a Litlle Club, a Texas, enfim as mesmas em que se apresentavam seus concorrentes da música romântica de qualidade, Miltinho, Sylvia Telles, Elisete Cardoso, Dolores Duran e vários outros.

Ao longo dos próximos três anos, aumentava sua fama e carreira de compositor, suas músicas sendo gravadas por diversos intérpretes da música popular brasileira, dentre eles Orlando Ribeiro (Encontro no Sábado, em 1955), Léo Romano (Como é Triste Dizer Adeus, também em 1955), Marion, Garotos da Lua e Sylvia Telles (Não Diga Não, em 1956), Vera Lúcia (Cansei de Ilusões, em 1956), Nelly Martins (Ditei Minha Questão, também em 1956), Ivon Curi (Senhorita, 1957) e Luiz Cláudio (Quero-te Assim, 1957.

Um ensaio de Cansei de Ilusões.



Lisa Ono interpretando Quero-te Assim.



Ao mesmo tempo sua carreira discográfica ia a todo vapor; ainda em 1955, lança, pela Continental, outro 78 rpm, contendo, no lado A, Faz Tanto Tempo, de sua autoria, em que canta em duo com Juanita Cavalcanti, e, no lado B, Canto do Engraxate, também de sua autoria. Em 1956, grava, pelo mesmo selo, outro disco em 78 rpm, com as músicas A Saudade Apertou e Senhorita, ambas também de sua autoria.


Em 1957, Tito consegue seu maior sucesso até então, quando lança Chove Lá Fora, de sua autoria, um dos discos mais vendidos desse ano, entrando nas paradas de sucessos ao lado de Mocinho Bonito (Billy Blanco), com Dóris Monteiro, A Volta do Boêmio (Adelino Moreira), com Nelson Gonçalves, Se Todos Fossem Iguais a Você (Tom Jobim e Vinícius de Moraes), com Maysa, Por Causa de Você (Tom Jobim e Dolores Duran), com Sylvia Telles, Only You (Buck Ran e Ande Ran), com The Platters e outras mais. Com essa música, Tito ganhou reconhecimento nacional, sendo premiado com o Troféu "O Guarani" como o Melhor Compositor do ano, além de ter sido agraciado com a Medalha de Ouro, da Revista do Rádio, entregue pelo presidente da República, Juscelino Kubitschek. Recebeu também o Disco de Ouro do jornal O Globo, enfim, ganhou, além de fama, reconhecimento crítico. A música se tornou clássica, sendo gravada pelos melhores cantores brasileiros, dentre eles, Elisete Cardoso, Jane Duboc, Sylvia Telles, Nora Ney, Rosana Toledo, Agostinho dos Santos e diversos outros:

"A noite está tão fria
Chove lá fora
E essa saudade enjoada não vai embora
Quisera compreender porque partiste
Quisera que soubesses como estou triste.
.
E a chuva continua
Mais forte ainda
Só Deus pode entender como é infinda
A dor de não saber
Saber lá fora, onde estás, onde estás
Com quem estás agora, agora.
.
A noite está tão fria
Chove lá fora
E essa saudade enjoada não vai embora
Quisera compreender porque partiste
Quisera que soubesses como estou triste.
.
E a chuva continua
Mais forte ainda
Só Deus pode entender como é infinda
A dor de não saber
Saber lá fora, onde estás, onde estás
Com quem estás agora, agora."

Cláudia Moreno interpretando Chove Lá Fora.



Lobão interpretando Chove Lá Fora.



Dóris Monteiro interpretando Mocinho Bonito.



Nelson Gonçalves interpretando A Volta do Boêmio.



Gal Costa interpretando Se Todos Fossem Iguais a Você.



Roberta Sá interpretando Por Causa de Você.



The Platters interpretando Only You.



Ainda em 1957, ele, além de gravar outro 78 rpm contendo a já clássica Se Todos Fossem Iguais a Você (Tom Jobim e Vinícius de Moraes), sucesso nacional de Maysa, e outra melodia de sua autoria, Quero-te Assim, Tito Madi lança seu primeiro Long Playing – Chove Lá Fora –, acompanhado por Ribamar e Seu Conjunto, que trazia Chove Lá Fora (Tito Madi), a clássica Duas Contas (Garoto), Cansei de Ilusões (Tito Madi), Duas Vidas (Esdras Pereira da Silva e Ribamar), Não Diga Não (Tito Madi e Georges Henry), Foi a Noite (Tom Jobim e Newton Mendonça), Fracassos de Amor (Tito Madi e Milton Silva) e E a Chuva Parou (Esdras Pereira da Silva, Ribamar e Victor Freire).

Osvaldo Leão Filho interpretando Duas Contas.



Marlene Xavier interpretando Foi a Noite.



Seu segundo Long Playing é lançado logo no ao seguinte, 1958; com o título A Saudade Mata a Gente, o vinil traz verdadeiras preciosidades do período pré-bossa no
va, canções paradigmáticas desse estilo, como é o caso de Marina (Dorival Caymmi), A Saudade Mata a Gente (João de Barro e Antônio Almeida), Copacabana (João de Barro e Alberto Ribeiro), Um Cantinho Para Você (Jair Amorim e José Maria de Abreu) e Ponto Final (outra composição de José Maria de Abreu e Jair Amorim), a maioria delas pertencente ao repertório de Dick Farney, de quem ele e Lúcio Alves eram rivais no estilo e no modo de cantar.

Danilo Caymmi interpretando Marina.



Maria Bethânia interpretando A Saudade Mata a Gente.



Dick Farney interpretando Copacabana.



E como mostra de que o os discos em vinil viriam acabar mesmo com a era dos 78 rpm, que estavam realmente em processo de extinção, ao mesmo tempo em que demonstrava a consolidação da carreira discográfica do cantor e compositor, em 1959, Tito lançaria no mercado quatro Long Playings: A Saudade Mata a Gente, contendo as mesmas melodias já lançadas no LP homônimo de 1958, co
m mais quatro fonogramas adicionais; Sua Voz... Suas Composições, basicamente trazendo diversas composições de sua autoria já lançadas em 78 rpm; Encontro No SábadoUm LP para Namorados, disco gravado em conjunto com a cantora Nelly Martins (atriz e cantora, casada com o mítico maestro Radamés Gnatalli, injustamente esquecida, que participou da fase inicial da bossa nova. Seu nome praticamente não existe nos textos relacionados com a música popular brasileira); e Quero-te Assim, um LP em que interpreta somente canções de outros compositores, à exceção da canção-título, como é o caso de Caminhando na Garoa (Nazareno de Brito e Dunga), O Nosso Olhar (Sérgio Ricardo), Mal Entendido (Ivon Curi), Não me Condenem (Júlio Nagib), dentre outras.

Porém, foi no sistema 78 rpm que Tito Madi alcançaria o maior sucesso de sua carreira. Gravada no final de 1959, Menina Moça, lado A do disco que trazia, no lado B, outra canção de sua autoria – Carinho e Amor –, foi caindo no gosto popular, até atingir o primeiro lugar de todas as paradas de sucessos, a da Revista do Rádio no mês de maio de 1960:

"Você botão de rosa
Amanhã a flor mulher
Jóia preciosa cada um deseja e quer
De manhã banhada ao sol
Vem o mar beijar
Lua enciumada noite alta vai olhar.
.
Você, menina moça
Mais menina que mulher
Confissões não ouça
Abra os olhos se puder
Tudo tem seu tempo certo
Tempo para amar
Coração aberto faz chorar.

A lua, o sol, a praia, o mar
Lição de deus
A vida eterna para amar."

***

Um cantor tímido, retraído, mas com um enorme apelo popular, o que o fazia um grande vendedor de discos, nesse ano de 1960, atinge o seu auge, ao lançar um dos maiores sucessos do ano, e o maior de sua carreira, intitulada Alguém me Disse, composta por Evaldo Gouveia e Jair Amorim, e que se tornaria um clássico da música romântica, mais tarde regravado pelas divas da música popular brasileira Gal Costa e Ana Carolina. Seu nome: Anísio Silva.

Anísio (1920 – 1989), baiano de Caitité, iniciou sua carreira artística tardiamente, no Rio de Janeiro, com mais de trinta anos. Dono de uma voz macia e aveludada, própria para a música romântica então muito em voga, em 1952, grava seu primeiro 78 rpm pelo selo Star, trazendo, no lado A, o samba-canção Um Passarinho Tristonho, de Mary Monteiro e Acúrcio Rosas, e, no lado B, a valsa Quando eu me Lembro, de autoria de Alencar Terra. Não fez sucesso popular, mas permitiu-lhe continuar na sucessora da gravadora, o novo selo Copacabana, lançando, em 1953, em dueto com o desconhecido cantor Jack Jony, o fox-trot Aquela Noite, que ele compôs em parceria com Oliveira Neto, lado A do 78 rpm que trazia, no lado B, o baião Um Grande Amor, de sua autoria com Jorge de Castro.

Apadrinhado pelo famoso disk-jockey Fausto Guimarães, em 1957, Anísio foi contratado pela Odeon, selo pelo qual gravou o 78 rpm que continha Sempre Contigo, sua e de William Duba, e Sonhando Contigo, também de sua autoria, mas, que ganhou a parceria do discotecário Fausto Guimarães, segundo algumas fontes, para ser tocada em seu famoso programa de rádio, prática bastante comum naquele tempo.

Executada à exaustão, tanto no programa de Fausto quanto em diversos outros (como o de José Messias), Sonhando Contigo, paulatinamente, vai galgando as paradas, até se tornar um enorme êxito popular, o primeiro da carreira de Anísio:


"Mais uma luz se apaga
Mais um sonho que chega ao fim
Mais uma vez a saudade
Está vivendo em mim
Mais uma hora que passo de tristeza na vida
Mais uma vez eu abraço a ilusão que está perdida.

Mais um dia que passo pensando, sonhando contigo
Mais uma noite que passo acordado
Sem poder dormir
Quem me dera pudesse saber quanto tenho sofrido
Nestas horas que ausente passei tão distante de ti.

Mais um dia que passo pensando, sonhando contigo
Mais uma noite que passo acordado
Sem poder dormir
Quem me dera pudesse saber quanto tenho sofrido
Nestas horas que ausente passei tão distante de ti."

Mito interpretando Sonhando Contigo.



Esse sucesso lhe propiciou a honra de ser o primeiro artista brasileiro a ganhar um disco de ouro, além de impulsionar sua carreira, inclusive rumo à Rádio Nacional, onde se apresentava no programa de auditório de Paulo Gracindo.

Logo, ainda nesse 1957, Anísio Silva estava lançando seu primeiro Long Playing – Sonhando Contigo –, contendo as músicas Interesseira (Murilo Letini e Bidu Rei); Falas de Amor Outra Vez (Raul Sampaio e Benil Santos); Aperta-me em Teus Braços (sua e de Almeida Rêgo); Sonhando Contigo (parceria com Fausto Guimarães); Não se Afaste de Mim (Raul Sampaio e Jorge Gonçalves); Se eu Pudesse Esquecer e Vida, Vida (ambas de sua autoria); Não me Diga Adeus (outra parceria com Fausto Guimarães); Apesar dos Pesares (Murilo Letini e Bidu Reis); Sempre Comigo (parceria com William Duba, já lançada em 78 rpm); Abismo (de sua autoria) e Juntando Saudades (Nazareno de Brito e Alcyr Pires Vermelho).

Lançadas em 1958, no sistema 78 rpm, as músicas Abismo e Interesseira, que faziam parte do repertório do LP do ano anterior, também se constituíram em enorme êxito popular, entrando em todas as paradas de sucessos. Seguiram-se diversas gravações, com maior ou menor sucesso, inclusive um dueto com Dalva de Oliveira (Minha Mãe, valsa do maestro Lindolfo Gaya sobre versos do poeta Casemiro de Abreu). Em 1959, mais uma vez, arrebata todo o país com a guarânia Quero Beijar-te as Mãos, de Lourival Faissal e Arsênio de Carvalho, meses nas paradas e um dos discos mais vendidos no país. Seu sucesso lhe garante capas nas mais diversas revistas do país:

Quero beijar-te as mãos minha querida
Senta junto de mim, vem por favor
És o maior enlevo da minha vida
És o reflorir do meu amor.

Sinto nessa ansiedade
Que minha alma invade
Que me faz sofrer
A luz de um divinal querer
Eterna glória de viver.

Se tu me quiseres tanto
Quanto eu que vivo para te adorar
Será um mundo de esplendor
O nosso amor

Amor, nosso amor."


Cascatinha e Inhana interpretando Quero Beijar-te as Mãos.


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Até que, nesse ano de 1960, Anísio Silva lança o grande sucesso de sua carreira, o bolero Alguém me Disse, de autoria de uma das mais bem sucedidas dupla de compositores do Brasil de todos os tempos, Evaldo Gouveia e Jair Amorim. Segundo a então famosa vedete Eloína, uma das deusas do teatro de rebolado do Rio de Janeiro, a letra de Evaldo Gouveia, integrante do Trio Nagô, para essa canção foi feita para ela. Em entrevista ao jornal Zero Hora, ela disse textualmente:

"A gente teve um namoro, sabe?, não foi tumultuado, mas o desfecho foi tumultuado, porque eu era muito nova, mocinha ainda, e tinha chegado de São Paulo. Eu tinha feito umas temporadas em São Paulo e tava meio deslocada no Rio, na casa de uma amiga e tal, e ele: ‘Não, vem morar na minha casa, e tal, tenho um apartamento grande no Flamengo’. E eu fui, e acabei, claro, tendo um romance com ele. Ele me fechava dentro de casa e levava a chave. Só que ele morava no 2º andar e tinha uma sacada. E eu um dia cansei de estar presa, fechada a chave e atirei minha mala lá por cima e saí lá por cima mesmo. E fui-me embora. Então ele fez a música ‘Deixe que Ela se Vá’ (parceria com Gilberto Ferraz, 1957, gravada por Nelson Gonçalves). Porque ele disse que todo mundo perguntava: ‘Onde é que tá a Eloína?’ e ele: ‘Ah, a Eloína, deixe que ela se vá!. E aí ele fez depois ‘Alguém me Disse’, porque ele diz que todo mundo chegava pra ele: ‘Ah, ela tá com Fulano’, ‘Ela tá com não sei quem’, aí ele fez ‘Alguém me Disse’."
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Alguém me Disse, foi, possivelmente, a música mais executada do ano, e um dos cinco maiores sucessos de 1960, não obstante a carreira do cantor, dentro de pouco tempo, cair em uma espécie de limbo, sem conseguir lançar no mercado um êxito real de repercussão nacional, tendo, ainda, que enfrentar, em sua seara, outro cantor romântico que apareceu no cenário musical com grande força, Altemar Dutra. Como conseqüência, abandonou sua carreira em 1968, tentando uma volta na década de 70. Em vão, pois os tempos eram outros. Sua carreira terminou melancolicamente em meados dessa década:

"Alguém me disse que tu andas novamente
De novo amor, nova paixão toda contente
Conheço bem tuas promessas
Outra ouvi iguais a essa
Esse teu jeito de enganar conheço bem.

Pouco me importa que tu beijes tantas vezes
E que tu mudes de paixão todos os meses
Se vai beijar como eu bem sei
Fazer sonhar como eu sonhei
Mas sem ter nunca amor igual ao que eu te dei."

Nelson Gonçalves e Joana interpretando Alguém me Disse.



Ana Carolina interpretando Alguém me Disse.

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