29.8.06

“MORA NA FILOSOFIA”

Carnaval no Rio de Janeiro - 1955.



1955 foi um ano espetacular para o carnaval carioca; devido aos acontecimentos trágicos recentes, mais precisamente o suicídio de Getúlio Vargas no ano anterior, um presidente de enorme prestígio junto às massas, esperava-se o “carnaval da crise”, um carnaval desanimado e sem participação popular. O que aconteceu, no entanto, foi um carnaval alegre e participativo, com vários sambas e marchas antológicos, várias músicas se tornando lendárias e entrando, definitivamente, para a história da música popular brasileira.

Entretanto, não faltaram críticas da imprensa especializada sobre um problema que começava a aparecer no carnaval carioca: o afastamento de compositores tradicionais – Ary Barroso, Pedro Caetano, Lamartine Babo, Nássara, Mário Rossi, Mário Lago e outros – e o surgimento de discotecários que apareciam como co-autores de diversas músicas carnavalescas, sem nada terem feito. Esses discotecários, preferencialmente, executavam as músicas das quais participavam, em uma concorrência considerada desleal pelos verdadeiros compositores. Os mais notórios eram Aírton Amorim, Oldemar Magalhães e José Gonçalves que se aproveitavam do carnaval para ganhar fama e dinheiro.


Estritamente falando, foi o carnaval de um antigo compositor, um dos mais subestimados da MPB, companheiro e parceiro de mitos como Cartola, Carlos Cachaça, Marino Pinto, Claudionor Cruz, Ataulfo Alves e outros da mesma categoria: Zé da Zilda, que morrera poucos meses antes , em outubro de 1954, porém deixando gravadas com sua mulher, a Zilda do Zé, as músicas para o carnaval de 55, o lindo samba Império do Samba e uma marcha que se tornaria imortal, Ressaca.

José Gonçalves (1908 - 1954), o Zé da Zilda, também conhecido, anteriormente, pelo apelido de "Zé com fome", nasceu no Rio de Janeiro, na cidade de Campo Grande. Já aos cinco anos, filho de músico que era, começou a se interessar pelo cavaquinho, aprendendo os rudimentos de música com o pai. Por volta de 1920 morava no morro da Mangueira, onde fez amizade com vários sambistas, entre os quais Cartola, que mais tarde seria seu parceiro.


No início da carreira, integrou a Companhia Teatral Casa de Caboclo, de propriedade do bailarino Duque, tocando violão e cavaquinho e cantando emboladas e sambas. Foi nessa época que ganha o apelido de “Zé com Fome”, devido a um personagem que interpretava para aquela Companhia (outras fontes dizem que o apelido adveio do fato de ele esconder comida dentro de seu violão quando ia às festas em que era convidado). Por intermédo de Duque, ingressa na Rádio Educadora, na qual trabalhou formando dupla com Claudionor Cruz (1910 - 1995), conhecido àquela altura como “Pente Fino”. Mais tarde, como chefe de um regional e com programa próprio, passou para a Rádio Transmissora, na qual conheceu a cantora Zilda, que por essa época fazia sua estréia e com quem forma a “Dupla da Harmonia”.


Em 1936, seu samba Não Quero Mais, feito em parceria com Carlos Cachaça, foi cantado com grande sucesso pela Estação Primeira de Mangueira, sendo, nesse mesmo ano, gravado na RCA Victor por Aracy de Almeida. Interessante é que, originalmente, este samba era apenas de Zé e de Carlos Cachaça; Cartola, mais tarde, colocaria mais duas estrofes, tornando-se co-compositor da música; por ironia, hoje em dia, em virtude do tardio reconhecimento alcançado por Cartola, em várias publicações o samba é considerado somente de sua autoria. Mais tarde, o samba ganhou notoriedade ao ser relançado por Paulinho da Viola, no LP Nervos de Aço, com o nome de Não Quero Mais Amar a Ninguém:

"Não quero mais

Amar a ninguém

Não fui feliz

O destino não quis

O meu primeiro amor

Morreu como a flor

Ainda em botão

Deixando espinhos

Que dilaceram meu coração

Semente de amor

Sei que sou desde nascença

Mas sem ter vida e nasceu

E morreu sem se chegar a dar

Às vezes dou gargalhada

Ao lembrar do passado

Nunca pensei em amor

Nunca amei nem fui amado

Se julgas que estou mentindo

Jurar sou capaz

Foi simples sonho

Que passou e nada mais."

Grupo de Samba Brasilidade interpretando Não Quero Mais Amar a Ninguém.


A partir de então começa a ser reconhecido como compositor e ser gravado por vários cantores e grupos musicais: Em 1937, seu choro Devo e não Nego, em parceria com Dirigan Gonçalves, foi gravado pela então popular dupla sertaneja Alvarenga e Ranchinho na Victor, e o maracatu Eu Sou do Forte foi registrado por Laís Marival na Columbia. Em 1938, Orlando Silva, já o maior cantor do Brasil e cognominado o “Cantor das Multidões” grava, com grande sucesso, Meu Pranto Ninguém Vê, feito em parceria com Ataulfo Alves. Outras músicas de sua autoria também seriam gravadas nesse ano, como o samba-choro Barracão de Zinco (Ranchinho) e Nega Zura. Como, além de compositor, Zé era um excelente cantor, nesse mesmo ano, grava, como crooner do Conjunto Regional de Donga a toada brasileira Corta Jaca, de autoria de outra lendária compositora, Chiquinha Gonzaga, e o samba Pelo Telefone, de Donga e Mauro de Almeida.


Cacai Nunes interpretando Corta Jaca.



Eudóxia de Barros interpretando Corta Jaca.



Grupo Seresta Moderna interpretando Pelo Telefone.



Donga e Chico Buarque interpretando Pelo Telefone.



Já casado com Zilda, em 1939, a Dupla da Harmonia passa a atuar no programa de Paulo Roberto na Rádio Cruzeiro do Sul, de quem a dupla ganha um novo nome, Zé da Zilda e Zilda do Zé, com o qual doravante se apresentaria. Nesse mesmo ano, Zé grava sozinho os sambas Antonieta, de Alzira Medeiros e Zilda Fernandes, e Virgulina, de Antenor Borges, além do maxixe Escravo do Samba, de Antenor Borges e Renê Bitencourt.



No ano de 1940, a convite do Maestro Villa-Lobos, participa, juntamente com outras legendárias personalidades da música brasileira como Cartola, Pixinguinha, João da Bahiana, Jararaca, Zé Espinguela, Donga e Luiz Americano, da gravação dos discos de Leopold Stokowsky, registrados no navio Uruguai. Esses discos foram editados pela gravadora Columbia nos Estados Unidos. Na ocasião foram registrados seu samba-de-breque Festa Encrencada e seu maxixe Bole-Bole, ambos feitos em parceria com Zilda, agora Zilda do Zé.


Com a carreira já se consolidando, em 1941 seus sambas Machucando a Gente, composto em parceria com Antenor Borges e M. Amorim e Projeto de Samba, dessa feita com José Tadeu, foram gravados pela cantora Marilu (grande sambista, injustamente desconhecida hoje em dia) e a batucada Uma, Duas e Três, composta com Germano Augusto, foi gravada por Silvino Neto, na Victor, além dos sambas Tristeza, com André Gargalhada e Zé Boa Vida, com Claudionor Cruz, que foram lançados respectivamente por Gilberto Alves e por Dircinha Batista pela Odeon.


No ano seguinte, Nelson Gonçalves, ainda nos primórdios de sua carreira, grava seu samba Quem Mente Perde a Razão, feito com Edgard Nunes, e Cyro Monteiro, pela Victor, o samba Senta lá na Mesa, nova parceria com Claudionor Cruz. Ainda em 1942, outro samba seu, São Miguel, feito em parceria com a mulher Zilda, foi gravado por Marilu. Teve também o samba No Mundo da Lua, seu primeiro samba em parceria com o grande Wilson Batista, gravado pelo cantor Déo. Também no mesmo ano, obteve seu maior êxito, o samba Aos Pés da Cruz, feito com Marino Pinto, que, gravado por Orlando Silva, se tornou um imenso sucesso popular.

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Em 1943, Déo grava na Columbia seus sambas Cinzas do Coração (parceria com Osvaldo Lobo) e No Mundo da Lua, outra parceria com Wilson Batista. Na Victor, Marilu grava o samba Júlia Sapeca e o choro Fiz um Chorinho; Nelson Gonçalves também gravaria nesse ano outro samba de Zé, Cruz da Desilusão. Nesse ano, agora sem censura do DIP, em plena Segunda Guerra Mundial, a cantora Marilu grava na Victor sua marcha Galinha Verde, apelido que era dado popularmente aos simpatizantes do integralismo, nesse momento em desgraça frente ao getulismo. Também, em 1943, grava seu primeiro disco com a esposa Zilda – a dupla agora com o nome Zé e Zilda – interpretando de sua autoria os sambas Levanta, José e Fim do Eixo.


Curiosamente, Ricardo Cravo Albin diz em seu Dicionário da Música Popular Brasileira que esse último samba fazia referência à derrota do eixo formado por Alemanha, Itália e Japão na Segunda Guerra Mundial, o que, em 1943, era ainda impossível de ser prevista.



Em seguida, no ano de 1944, teve seus sambas Meu Poema (com Jorge de Castro), Tapete de Flor (com Renê Bittencourt) e Diz o Teu Nome (com Ataulfo Alves) gravados pelos pesos pesados Orlando Silva, Gilberto Alves e Ataulfo Alves respectivamente. Com Zilda, grava os choros Um Calo de Estimação, parceria com José Tadeu e O Malhador, outra parceria com Germano Augusto. Seu nome agora brilha no panteão dos grandes compositores brasileiros, a exemplo de Wilson Batista, João da Baiana, Pixinguinha, o próprio Ataulfo Alves e muitos outros.

Calo de Estimação (Zé de Zilda).



Em 1945, Zé tem gravadas várias músicas feitas em parceria com Germano Augusto: Não Posso te Aceitar (Carmen Costa), Rei do Astral (Gilberto Alves), Compadre Chegadinho (Zé e Zilda) e Izabel Não Voltou (Zé e Zilda). Nesse mesmo ano, grava com Zilda Gonçalves seu samba-choro Dona Joaninha (com Ari Monteiro) e seu samba Gostosinho (outra parceria com Ari Monteiro.

Teresa Cristina e Pedro Miranda interpretando Dona Joaninha.



A partir desse ano, Zé da Zilda teria mais dezenas e dezenas de composições gravadas pela nata dos cantores e conjuntos populares, destacando-se Caboclo Africano (Jorge Veiga, 1946), Ela Não Tem Razão (Roberto Silva, 1949), Au Revoir (Demônios da Garoa, 1950), Filho de Mineiro (Emilinha Borba, 1952), Devagar (Aracy de Almeida, 1953), Quebra Mar (Marlene, 1953) e o grande sucesso do carnaval de 1954, como já visto, Saca-Rolha, gravado por ele em dupla com Zilda.

Império do Samba, composta com sua companheira de dupla, Zilda do Zé, imediatamente se destacou como um dos sambas favoritos dos foliões, terminando por ser a grande vencedora do concurso promovido pela prefeitura do Distrito Federal, na categoria samba:

“Venho do lado de lá
Minha gente chegou
Chegou querendo abafar
Ai!, ai!, ai!, ai!, ai!
O doutor mandou
Todo mundo gingar.

Chegou o império do samba
Agora o samba vai imperar
Ai!, ai!, ai!, ai!, ai!
O doutor mandou
Todo mundo gingar."

Além de grande compositor, Zé da Zilda era também muito versátil. Apesar de, injustamente, não ter sido premiada, sua marcha Ressaca, gravada pelo casal, foi um sucesso estrondoso desse carnaval, aliás, um sucesso eterno, uma das mais executadas e cantadas ao longo dos anos seguintes:

“Tá todo mundo de ressaca
Ressaca, ressaca, ressaca
Ninguém agüenta mais
Eu vou mandar parar
Vai todo mundo pra casa curar
Sei que você gosta muito dela
Mas é bom que não se esqueça
Que ela não é amiga
Desce pra barriga
Depois sobe pra cabeça.”

Ouça Zé da Zilda e Zilda do Zé interpretando Ressaca.




De autoria de três compositores, digamos, menores, Aldacir Louro, Aluízio Martins e A. Macedo, o samba Recordar, gravado por Gilberto Alves, foi também umas das músicas mais cantadas no carnaval desse ano. Interessante que ela é composta de seis versos e praticamente sem nenhuma rima, uma média de dois versos para cada compositor. De qualquer forma, o povão adorou e o samba também foi premiado pela prefeitura do Distrito Federal como um dos ganhadores do carnaval:

“Recordar é viver
Eu ontem sonhei com você.

Eu sonhei
Meu grande amor
Que você foi embora
Logo depois voltou.”

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E
dgard Ferreira, um dos compositores preferidos de Jackson do Pandeiro – aliás, autor de dois dos maiores sucessos do grande artista, Forró em Limoeiro e Um a Um –, presenteou o artista com Vou Gargalhar, também um samba que caiu na graça dos foliões e se tornou um grande sucesso. Foi também uma das músicas mais vendidas e executadas nesse carnaval elevando ainda mais o nome de Jackson no conceito popular:

“Quem disse que a escola não sai

Não tem cabeça para pensar

A escola vai sair

O povo da Vila vai sambar

Vou gargalhar, qua, qua, qua, qua.


Porém a Vila vai ser

A nossa apresentação

Você errou sem querer, coração

A sua profecia vai fracassar

E eu vou gargalhar, qua, qua, qua, qua.”


Jackson do Pandeiro interpretando Forró em Limoeiro e Vou Gargalhar.


De autoria de três compositores, digamos, menores, Aldade difícil aprendizagem para os foliões. Nessa época, praticamente não eram divulgados, conhecidos e cantados, basicamente, pelos integrantes de suas escolas. Até que Roberto Silva gravou o samba Tiradentes (Exaltação a Tiradentes), de autoria de Estanislau Silva, Décio Carlos (o Mano Décio) e Penteado, um samba-enredo com letra razoavelmente curta da Império Serrano, apresentado no carnaval de 1949; na realidade, entrou para a história como o primeiro samba-enredo a ser gravado, transformando-se em um dos destaques do carnaval de 55 e, com o passar dos anos, tornou-se um samba-ícone das escolas de samba, um sucesso eterno:

“Joaquim José da Silva Xavier

Morreu a 21 de abril

Pela independência do Brasil

Foi traído

E não traiu jamais

A Inconfidência de Minas Gerais.


Joaquim José da Silva Xavier
Era o nome de Tiradentes
Foi sacrificado
Pela nossa liberdade
Esse grande herói
Pra sempre há de ser lembrado".

Elis Regina interpretando Exaltação a Tiradentes.



Contudo, o mais injustiçado compositor desse carnaval foi, mais uma vez, Monsueto Menezes (1924 - 1973), que já fizera enorme sucesso popular em 1952 com o samba Me Deixe em Paz, cantado por Linda Batista. Seu samba Mora na Filosofia, com uma letra extremamente bem elaborada (foi escolhido pelo júri como o samba com a melhor letra do ano) e com uma música mais do que perfeita, feito em parceria com Arnaldo Passos (parceiro em diversas músicas do cultuado Geraldo Pereira), lançado por Marlene, mais do que merecia ter sido premiado; hoje em dia, é considerado um dos mais belos sambas da história da música popular brasileira, ficando mais famoso, mais tarde, ao ser regravado por Caetano Veloso. É outro samba lançado para ser eterno:

“Eu vou lhe dar a decisão

Botei na balança

Você não pesou

Botei na Peneira

Você não passou

Mora na filosofia

Pra que rimar

Amor e dor.


Se você ficasse marcado

Por lábios ou mãos carinhosas

Eu saberia a quantos você pertencia

Nem vou me preocupar em ver

Seu caso não é de ver pra crer

(Tá na cara).”


Caetano Veloso interpretando Mora na Filosofia.



Mayra Couto interpretando Mora na Filosofia.



Quase sempre existia acusação de plágio no carnaval; o grande escândalo desse ano foi, mais uma vez, protagonizado pelo compositor Mirabeau - leia-se Mirabô - (1924 - 1991), volta e meio acusado de plagiar músicas de outros autores. Sua música Tem Nego Bebo Aí – seguindo a trilha do mega-sucesso de 1953 Cachaça –, feita em parceria com o discotecário Aírton Amorim, também bastante acusado de ser um falso compositor, de se tornar co-autor dos verdadeiros autores em troca de divulgação, se transformou em caso de polícia, quando os dois aludidos autores foram levados aos tribunais pelos compositores Jonas Guimarães, Hercílio e Barreira, que os acusaram de ter se apropriado da música, alterando alguns versos a fim de não despertar suspeita. De qualquer modo, a marcha – com um tema recorrente no carnaval – foi um imenso sucesso popular, seu êxito atravessando décadas e décadas, sendo uma das premiadas pela prefeitura do Distrito Federal como uma das marchas vencedora do ano:


“Foi numa casca de banana que eu pisei

Escorreguei, quase caí

Mas a turma lá de trás gritou, chi

Tem nego bebo aí, tem nego bebo aí.


Se a gente está no bonde

Ou mesmo em lotação

Falando um pouco alto

É falta de educação

Se entra num boteco

Pra tomar um parati, chi

Tem nego bebo aí

Tem nego bebo aí.”


Ouça Carmen Costa interpretando Tem Nego Bebo Aí.



Carnaval sem um sucesso de Emilinha Borba não era carnaval; após fra
cassar no carnaval anterior, a cantora veio com tudo para esse ano, coma a marcha A Água Lava Tudo, de Paquito, Romeu Gentil e Jorge Gonçalves, também um dos maiores sucesso do ano, ficando com o quinto lugar no concurso da prefeitura municipal, além de entrar nas paradas, colocando-se entre os 50 maiores sucessos do ano (Site Hot Machine/Hot 100 Brasil):

“Você notou

Que eu estou tão diferente

A água lava, lava, lava tudo

A água só não lava

A língua dessa gente.

Já vieram me contar

Que lhe viram por aí

Em lugar tão diferente

A água lava, lava, lava tudo

A água só não lava

A língua dessa gente.”


Ouça Emilinha Borba interpretando A Água Lava Tudo.



Outro pequeno escândalo foi proporcionado pela marcha Maria Escandalosa, de autoria de Klécius Caldas e Armando Cavalcanti, dupla acostumada com sucessos espetaculares no carnaval (Marcha do Gago, Dona Cegonha, Máscara da Face, Piada de Salão, Maria Candelária, dentre diversos outros). Sua letra, deveras maliciosa, foi cantada com gosto pelos foliões e foi outro enorme sucesso do cantor Blecaute (e Dalva de Oliveira):
.
“Maria Escandalosa
Desde criança sempre deu alteração
Na escola, não dava bola
Só aprendia o que não era dar lição
Depois a Maria cresceu
Juízo que é bom encolheu
E a Maria Escandalosa
É muito prosa
É mentirosa
Mas é gostosa.
.
Hoje ela não sabe nada
De História, de Geografia
Mas seu corpo de sereia
Dá aula de anatomia.

Ouça Dalva de Oliveira interpretando Maria Escandalosa.




Premiada pela prefeitura do Distrito Federal, a marcha Choro do Bebê, de Erastótenes Frazão e Maria Gomes, apesar de sua péssima qualidade, foi adotada pelo povão e foi um dos últimos sucessos populares do antigo ídolo Orlando Silva, o “Cantor das Multidões”:

“Casamento é bom

É, é, é

Mas o que chateia

É o choro do bebé.


Dandá-dandá

Dandá pra ganhar tem-tem

Ai, que belezinha

Que gracinha de neném.


Dandá-dandá

Dandá pra ganhar tem-tem

Ele chora, ele grita

Ele apita como um trem.”


Ouça Orlando Silva interpretando Choro do Bebê.



Outra música premiada de gosto duvidoso foi Tutuquinha, de autoria do desconhecido Santos Garcia e cantada pelo veterano Nilton Paz, que, inesperadamente, agradou ao público, mas caiu rapidamente no esquecimento:



“Ó Tutuquinha meu amor

Presta atenção no que te digo

Quando eu crescer, crescer, crescer

Quero casar contigo.

.

Eu quero, quero, quero

Que tu te cases comigo

Tutuca, tutuquinha

Tu, tu és um perigo

Eu gosto de pular

Eu gosto de brincar

Mas só por tua causa

Tudo isso eu vou deixar.”



Muito cantada pelos foliões, Marcha da Pipoca, de Luiz Bandeira e Arcênio de Carvalho, foi mais uma música de duplo sentido que fez muito sucesso na voz da vedete Virgínia Lane, também em evidência pela sua participação na chanchada da Atlândida Guerra ao Samba (em que também participam Emilinha Borba, Dircinha Batista, Blecaute, Lourdinha Bittencourt, Francisco Carlos, Adelaide Chiozzo e outros), dirigida por Carlos Manga e estrelado por Oscarito, Eliana e Cyll Farney:

“Empurra, empurra
Empurra, a carrocinha
Avança minha gente
Que a pipoca ta quentinha.

Enquanto eu grito ‘pi’
Você responde ‘poca’
Pipoca, pipoca
Pipoca no saquinho.
Eu vou pra toda parte
Levando a carrocinha
Mas, quem vai querer
Tem doce e salgadinha."

Outros sucessos do carnaval de 1955: Enchente de Maré (Haroldo Bizarro), com Linda Batista; Ninguém Tem Pena (Monsueto Meneses), com Jorge Goulart; Guarda-chuva de Pobre (Raul Sampaio/Chico Anísio), com os Vocalistas Tropicais: Se a Saudade me Apertar (Ataulfo Alves/Jorge de Castro), com Nora Ney; Tira Essa Mulher da Minha Frente (Haroldo Lobo/Milton de Oliveira), com Jorge Veiga.

1 comentários:

Blogger Anônimos da Poesia e da Arte said...

Simplesmente extraordinário! Por não dizer... Esplêndido! Maravilhoso! Histórico! Verdadeiro! Qual palavra caiba a mais pelo meu contentamento. E entramos num "sonho", numa viagem ao tempo de meus Avós; meus parabéns como Brasileiro.
Um grande abraço dos, "Anônimos da Poesia e da Arte"

9/12/13  

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