5.9.06

O ANO DAS CHANCHADAS

1957 foi o ano em que as chanchadas cariocas dominaram as telas dos cinemas por todo o Brasil. Quase se pode dizer que foi o ano de seu auge. E muitas de razoáveis qualidades, diga-se de passagem. Foram dezenas de títulos, dos quais podemos citar: A Baronesa Transviada, da Brasil Vita Filmes, (direção de Watson Macedo, argumento dele próprio e de Chico Anísio, elenco contando com Grande Otelo, Catalano, Badaró, Otelo Zelloni, a vedete suburbana Zaquia Jorge, Bill Farr, Aída Campos e outros), veículo para Dercy Gonçalves, interpretando uma manicure que, jogada fora ao nascer, herda uma fortuna que lhe permitirá realizar o maior sonho de sua vida, tornar-se uma estrela de primeira grandeza do cinema nacional, realizando um filme carnavalesco que a consagrará como grande intérprete. Uma Certa Lucrécia, também estrelado por Dercy Gonçalves, uma das poucas chanchadas feitas em São Paulo (produção da Cinedistri S/A, mas filmadas nos estúdios da Vera Cruz, agora usados por produtores independentes), com argumento de Talma Oliveira que mistura baile de carnaval com as intrigas e maquinações da corte veneziana da época dos Bórgia. Segundo Pierino Masenzi, o cenógrafo da fita, sua participação nessa produção foi o que lhe rendeu mais retorno profissional, pois teve que reconstruir nos estúdios os canais de Veneza, segundo ele, um trabalho dificílimo. Com direção de Fernando de Barros, o elenco de suporte contava com Anselmo Duarte, Odete Lara, Aurélio Teixeira, Anamaria Nabuco, Luciano Gregory, Miriam Pérsia, o futuro astro de Glauber Rocha, Maurício Nabuco etc. Com Jeito Vai (produção Osvaldo Massaini/Herbert Richers, direção de J. B. Tanko, estrelado pela dupla de palhaço, então com grande popularidade, Fred e Carequinha, Anilza Leoni, Grande Otelo, Celeste Aída, Renato Restier, Jaime Ferreira, Costinha, a vedete Nancy Montez e outros, números musicais a cargo de Emilinha Borba, Ivon Cury, Cauby Peixoto dentre outros); Garotas e Samba – variação de um tema constante nos filmes de todo o mundo, a chegada de moças do interior ao Rio de Janeiro em busca de fama e sucesso nas rádios cariocas, nesse caso, Adelaide Chiozzo e Sônia Mamede; produzido pela Atlântida, dirigido por Carlos Manga, o elenco contava ainda com Zé Trindade, como sempre, impagável, Cyll Farney, Renata Fronzi (em grande atuação como Naná, uma vigarista companheira de quarto das jovens interioranas, que paquera Zé Trindade, casado com Jocelina/Susy Kirby), Zezé Macedo, César Ladeira, Jece Valadão, Francisco Carlos, a miss Brasil, Terezinha Morango e diversos outros. Nesse filme, os números musicais ficaram por conta de Emilinha Borba, César de Alencar, Joel de Almeida, Isaurinha Garcia, Jorge Goulart, Nora Ney, Venílton Santos e Ruy Rey.

A vedete Zaquiqa Jorge no filme A Baronesa Transviada.



Dercy Gonçalves no filme A Baronesa Transviada.



Dercy Gonçalves no filme Baronesa Transviada.



Metido a Bacana é outra produção hilária da dupla Osvaldo Massaini/Herbert Hichers desse ano, onde Ankito (o pipoqueiro Hilário), sósia do príncipe de Araquelândia que visitava o Brasil, substitui o príncipe para que este curtisse o carnaval sem ser molestado ou reconhecido. Também dirigida por J. B. Tanko, o elenco era secundado por Grande Otelo (como sempre ótimo como o camareiro carioca do príncipe que o induz a cair no samba), Nelly Martins, Celene Costa, Wilson Grey e outros. Números musicais a cargo de Ângela Maria (Rainha da Cor, de Fernando César e Milton de Oliveira), Cauby Peixoto (cantando O Teu Cabelo Não Nega, de Lamartine Babo), Dircinha Batista (Ela foi fundada, de Otolino Lopes, Arnô Provenzano e Oldemar Magalhães), Carlos Galhardo, Linda Batista (Nova Capital, de Aldacir Louro, Sebastião Mota e Edgard Cavalcanti), Nelson Gonçalves (Casamento é Loteria, de Klécius Caldas e Armando Cavalcanti), Dora Lopes e Jorge Veiga.
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Podemos também citar: Rico Ri à Toa, que conta a história de um chofer de praça (Zé Trindade) que ganha na loteria e sua vida se transforma de uma maneira inesperada. Rico, ele se sente deslocado, passando por situações inusitadas e constrangedoras. Este filme foi a primeira experiência real de Roberto Farias como diretor (o argumento também era seu), tendo no elenco Zé Trindade, Violeta Ferraz, Zezé Macedo, Osvaldo Gonzaga e outros, além de Rio Fantasia, um interessante filme produzido e dirigido por Watson Macedo, que (mais uma vez) narra a história de um quarteto musical, migrante do nordeste, que vai para o Rio de Janeiro em busca da fama e da fortuna. Veículo para a estrelíssima Eliana Macedo, o filme também traz no elenco o Trio Irakitan, John Herbert, Zezé Macedo, Madame Lou, Renato Murce, Catalano, Ângela Maria, João Dias e Rosa Sandrini.

Ângela Maria no filme Rio Fantasia interpretando Mentindo.



Outro exemplar que merece ser relembrado é Treze Cadeiras, com roteiro de Cajado Filho baseado em um romance farsesco da dupla soviética Ilia Ilf e E. Petrov, o filme desenvolve a história de um camelô que recebe de herança uma mansão, mas o imóvel é confiscado pelo governo e ele fica apenas com 13 cadeiras. Após vendê-las, fica desesperado ao saber que o falecido havia escondido uma fortuna no estofamento de uma delas, e decide reavê-las a qualquer custo. O final é inesperado. Dirigido pelo desconhecido Francisco Eichorn, o elenco é encabeçado pela excepcional dupla de comediantes Oscarito e Zé Trindade (que nesse ano estava em todas), trazendo, também, no elenco Renata Fronzi, Rosa Sandrini, Grijó Sobrinho, Zezé Macedo e (um então desconhecido) Maurício Sherman.


No entanto, os grandes destaques do ano ficam para duas chanchadas, no mínimo, espetaculares, muito bem estruturadas, engraçadíssimas ambas, cujas histórias praticamente sintetizavam o mundo das chanchadas. Estamos falando dos filmes De Vento em Popa, de Carlos Manga, e de Absolutamente Certo, estréia do astro Anselmo Duarte como diretor de cinema.


O filme De Vento em Popa é uma farsa sobre a eterna discussão sobre a questão “grande arte” versus cultura popular. A primeira seqüência de De Vento em Popa inicia-se com a câmera mostrando um lindo jardim, ao mesmo tempo em que se escuta alguém ensaiando um canto lírico. Já dentro da casa, de aparência pequeno-burguesa, o espectador trava conhecimento de quem canta: é Lucy (Dóris Monteiro), linda e meiga. Conhece também a família que conversa orgulhosamente sobre o filho Sérgio (Cyll Farney) que se encontra nos Estados Unidos da América estudando física nuclear. A esperança do pai é que ele vai se tornar um cientista de renome, o primeiro brasileiro com capacidade de construir a bomba atômica para a glória do país. Em um recurso cênico de grande inventividade, ao enfatizar sua esperança, o pai bate na tampa do piano, produzindo um estrépito. Um rápido corte, e o som anterior é substituído pelo rufar de uma bateria, tocada por quem? Pelo filho cientista. O que logo fica claro para o espectador é que Sérgio tem outros planos: voltando de navio para o Brasil, fica-se sabendo que ele abandonou seus estudos para abrir uma casa noturna para tocar jazz e rock and roll, este último, o novo ritmo coqueluche do momento. Para que isso aconteça, ele contará com a ajuda de Chico (Oscarito) e Mara (Sônia Mamede), a dupla Maracangalha, loucos para participarem de um show no navio, na realidade, dois clandestinos, entusiastas dos ritmos brasileiros. Ao fim da viagem de navio, totalmente encalacrados, Oscarito, Sônia Mamede e Cyll Farney criam uma sociedade para enganar o pai-mecenas: Sérgio convence Chico a se passar por um famoso professor de energia nuclear e Mara, sua assistente; com o dinheiro do pai, inicialmente destinado ao desenvolvimento da bomba atômica, o trio criará a almejada casa de shows.


O jornalista Ruy Gardnier, fundador e editor da revista Contracampo, fez uma acurada análise sociológica de De Vento em Popa, assim resumida:

“Mesmo depois de Paulo Emílio Salles Gomes, a idéia de que a chanchada é um gênero de cinema americanizado, não ‘autenticamente’ brasileiro, ainda persiste (como se "autenticamente" ainda tivesse algum significado verdadeiro, longe da mistificação). Ao contrário, seja por uma incapacidade em copiar (uma má desculpa do mesmo Paulo Emílio) ou por uma enorme criatividade em roubar o estilo dos outros para achincalhá-lo, o cinema brasileiro mais dinâmico é e sempre foi o parodístico, o de mais acidez, o de maior poder antropofágico. Quando da saída de Miramar, Júlio Bressane reclamou para si um certo espírito oswaldiano que não teria sido transposto às telas nem por Joaquim Pedro em O Homem do Pau Brasil nem por Zelito Vianna em Os Condenados: entretanto o filme de Bressane é pouco ou nada oswaldiano, e o filme de Joaquim Pedro permanece a melhor adaptação de Oswald de Andrade. Mas nem O Homem do Pau Brasil poderia ser mais oswaldiano do que os paródicos O Império do Desejo, de Carlos Reichenbach; Carnaval Atlântida, de José Carlos Burle; ou De Vento em Popa, de Carlos Manga, de que falaremos aqui. Esses sim, verdadeiros filmes "de exportação" na acepção oswaldiana, ruminando linguagem estrangeira e traduzindo em ‘coisas nossas, muito nossas’.

(...)


Nos circuitos ‘cultos’ do Brasil dos anos 50, cinema era coisa de vagabundos; muito mais o cinema brasileiro, então, mera escória mal-acabada dos filmes estrangeiros. Nada mais normal, então, do que um cinema popular reagir a isso: mostrá-la apenas em sua pose, em sua forma de ser fingidamente educada e elegante, infeliz e sem jogo de cintura. Isso aparece claramente na figura interpretada por
Dóris Monteiro, a candidata a esposa do cientista "do barulho": ela não gosta verdadeiramente do que faz; é apenas adestrada para transformar-se numa bela idéia do que a época achava que era uma "esposa cultivada". Assim que ela descobrir que não é dessa forma que ela conquistará o galã, ela logo logo mudará de repertório e o ganhará com uma modinha jazzística que ele próprio, sem saber, acompanha ao piano.

Mas um momento de De Vento em Popa é particularmente hilário e destruidor. Na noite de estréia da boate, por ocasião da ausência do astro Melvis Prestes, Oscarito se veste de rei do rock'n'roll e, com uma guitarra desajeitada, que ocupa toda o dobro da extensão de seu tronco, dança enlouquecidamente e canta a canção ‘Calypso Rock'n'roll’ (a canção não tem nome, mas como só essa expressão é repetida ao longo da música, tratamos de assim nomeá-la), resposta imediata brasileira à entrada do rock no cinema americano. A acidez da interpretação de Oscarito alcança o riso profundo, o achincalhe da alta cultura que o Brasil, por síndrome de analfabeto, sempre aprendeu a conservar como a maior porque não a detém. O riso de De Vento em Popa consegue um engajamento estético que jamais um filme do cinema novo – à exceção de Glauber Rocha e de Nelson Pereira dos Santos – conseguiu: a adequação perfeita com seu público e a confirmação de que nós podíamos fruir verdadeiramente nossa cultura porque nós a criamos, e ela é bela. De Vento em Popa também é belo."

A música a que se refere Ruy Gardnier se chama, na realidade, Calipso Rock, de autoria de Carlos Imperial e Roberto Reis, interpretada no filme por George Green.


De Vento em Popa
tem atuações memoráveis: Oscarito da um show de interpretação e se supera na seqüência da dança de rock and roll, imita
ndo Elvis Presley; Sônia Mamede, advinda do teatro de revista e descoberta pelo diretor Carlos Manga, mostrou a que veio: tornou-se a grande comediante da fase final da chanchada. Zezé Macedo, também em atuação espetacular como madame Frou-Frou, arrasou no papel de uma cantora lírica. E teve também Dóris Monteiro; está simplesmente maravilhosa no filme, e sua interpretação da música Dó, Ré, Mi, de Fernando César (cantaria também Mocinho Bonito, de Billy Blanco, um dos cinco grandes sucessos do ano), acompanhada ao piano pelo galã Cyll Farney, deixou todo o país emocionado. Fez um merecido sucesso, dando sobrevida a um gênero que começava a demonstrar que estava com seus dias contados. A televisão já mostrava sua força. O filme foi considerado pela crítica especializada o melhor do ano.

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Após uma desgastante filmagem, em locação na Serra do Mar entre Peruíbe e Itanhaém (simulando uma paisagem amazônica), de Arara Vermelha, baseado no romance homônimo de José Mauro de Vasconcelos, resultando em um filme de aventuras de baixa qualidade, não obstante ter sido dirigido pelo competente Tom Payne e contar no elenco com Odete Lara, pronta para se transformar na grande estrela do cinema nacional, Milton Ribeiro, Anamaria Nabuco, Aurélio Teixeira e ele próprio na pele do protagonista – um policial que foge de um garimpo, juntamente com sua mulher grávida, com um diamante de grande valor, o Arara Vermelha do filme, sendo tenazmente perseguido pelo seu dono –, Anselmo Duarte, que fizera, sem pretensões, um documentário sobre as filmagens que acabou abocanhando o prêmio Governador do Estado na categoria Melhor Documentário do ano de 1957, adquiriu a convicção de que, devido ao seu longo envolvimento com a sétima arte, ganhara experiência bastante para dirigir seu primeiro longa-metragem; aproveitando um argumento do ator carioca Jorge Dória e de Jorge Ilelli (diretor de Amei um Bicheiro) que focalizada um programa de televisão de perguntas e respostas tipo “O Céu é o Limite” (que tornara célebre o apresentador Jota Silvestre), Anselmo desenvolveu um roteiro, um misto de chanchada e neo-realismo, sobre um linotipista que desenvolveu a estranha capacidade de decorar toda a lista telefônica da cidade de São Paulo, o que lhe acarreta sérias dificuldades e, ao mesmo tempo, se transformaria em sua redenção. O título do filme seria Absolutamente Certo e transformaria radicalmente a vida e a carreira de Anselmo Duarte.


Trailer do filme Absolutamente Certo.



Com elenco encabeçado por Dercy Gonçalves, Odete Lara, Maria Dilnah (que, não muito depois, após participar de mais três filmes, dentre eles Bruma Seca, abandonaria o cinema ao se casar com Mário Civelli, da Multifilmes), Aurélio Teixeira, José Policena, Fregolente, Marina Freire e grande elenco (dentre eles, o futuro astro Mário Benvenutti, de Noite Vazia, Edson França, que se tornaria galã de certo renome nas novelas televisivas, Marthus Mathias, e, como extra, Fúlvio Stefanini, que se tornou famoso na TV Globo ao interpretar Tonico Bastos da novela Gabriela em 1975), o filme começa focalizando uma academia de Jiu-Jitsu; vêem-se lutadores treinando e logo se fica sabendo que ali também funciona, ilegalmente, uma casa de apostas.
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Também o
espectador fica sabendo que os resultados das apostas são arranjados através de meios ilegais, a quadrilha forçando os possíveis ganhadores a perder, ganhando assim as apostas ao descarregá-las no concorrente mais fraco. A televisão, nesse momento, está mostrando uma luta arranjada, onde o lutador favorito (papel interpretado pelo campeão de boxe Paulo de Jesus) perderá. Raul (Aurélio Teixeira), dono da academia e chefe da quadrilha, pergunta a um capanga se o resultado está confirmado. A resposta é positiva. Só que, ao contrário, o lutador favorito efetivamente ganha, deixando Raul furioso e disposto a se vingar.


Cena de Absolutamente Certo.



Na casa de Dona Bela (Dercy Gonçalves), situada em bairro de classe média baixa, a televisão está sintonizada no programa Absolutamente Certo, um programa de perguntas e respostas que premia com um milhão de cruzeiros o grande vencedor. Uma mulher está respondendo sobre (imaginem) Balzac. Dona Bela cobra cinco cruzeiros da vizinhança para eles assistirem ao programa. Ela conduz com mão de ferro sua casa, onde quem manda é ela. Enquanto todos assistem ao programa, Zé do Lino (Anselmo Duarte) e Gina (Maria Dilnah) namoram no sofá. Com o desmaio de pai de Gina quando a participante do programa não soube responder a última pergunta, o espectador trava conhecimento da habilidade de Zé do Lino: ele sabe de cor toda a lista telefônica, desenvolvida por trabalhar como linotipista na lista durante anos. Dona Bela não gosta do chamego, começa a implicar com Zé, dizendo que 10 anos de namoro é tempo demais, que ele tem que dar um jeito. Zé acaba expulso da casa da futura sogra. Nota-se que aquilo era comum. Zé vai para sua casa, colada à da noiva. Seu pai o espera. Os dois se dão muito bem. É um velho doente que não anda. O sonho de Zé é comprar uma cadeira de rodas para ele, mas, com seu salário, que também o impede de se casar, é impossível efetuar a compra.


Enquanto isso, na tipografia, os companheiros de Zé discutem sobre a lista telefônica. Todas as dúvidas são dirimidas por ele. Enquanto trabalham, conversam sobre o programa Absolutamente Certo que é o atual sucesso da televisão. Com a chegada do chefe (Fregolente, que se tornaria figurinha carimbada nos filmes baseados em obras de Nelson Rodrigues) e seu filho Raul, o dono da academia, Zé aproveita para pedir aumento, o que é negado. O filho do chefe (Aurélio Teixeira) é prepotente e inicia uma briga com Zé, logo apartada. Ele exige a demissão do oponente, mas o pai lhe diz que o rapaz é importante na gráfica por saber a lista de cor. O bandido se interessa. Pede desculpas ao linotipista e testa seus conhecimentos. Fica entusiasmado com ele e lhe pergunta se não gostaria de participar do programa sensação do momento. Assim que o rapaz concorda, eles se dirigem aos estúdios da televisão, e Raul, conhecido da equipe do programa, oferece a participação do empregado do pai no programa. O produtor recusa. Com a insistência de Raul, ele entra em contato com o patrocinador que, ao saber das habilidades do rapaz, concorda com sua participação no programa. A intenção de Raul é sinistra. Ele vai descarregar as apostas no rapaz até sua última participação, com a intenção de fazer um acordo com ele quando da última questão do programa. Ele então perderia de propósito o prêmio, para que ele, Raul, embolse uma bolada de vários milhões. Enquanto isso, Gina espera o noivo na porta da gráfica, ficando aborrecida ao saber que ele não a esperara. Após ser paquerada pelo porteiro, vai embora caminhando pelas ruas.


Nos estúdios, chega Odete (Odete Lara), uma estrelinha da televisão, reclamando de sua roupa. Fica-se sabendo que ela e Raul têm um caso. Após ser apresentada a Raul, ela se dirige ao set do estúdio e ensaia a rumba Quando eu Digo (B. Frometa), de maneira canhestra. Não sabe nem cantar nem dançar, mas é linda e provocante, motivos óbvios para ser contratada.


Quando chega de carro à gráfica, Zé, ao não encontrar a noiva, sai atrás dela. Depois de encontrá-la, entram no bonde. Discutem. Ela lhe diz que ele não a considera, dizendo que é muito paquerada. Diz-lhe também que ele nem se lembrara de seu aniversário. Zé a surpreende com um anel e lhe conta que participará do programa que permitirá que eles se casem.



Corte para a academia. Alguns atletas estão treinando e outros freqüentadores estão dançando o rock and roll, ao som da música Enrolando o Rock (Betinho/Heitor Carillo). Odete, a gostosona, dá seu show particular. Nesse momento, entra o boxeador que traiu o acordo. O clima fica tenso, muitos abandonam a academia. Raul o acusa de ter quebrado o acordo. Ele diz que tem vergonha na cara. Os comparsas de Raul avançam para o lutador que, apesar de muito se defender, não consegue fazer frente a tantos oponentes. Após muito lhe baterem, quebram-lhe a mão como lição.

Betinho e Seu Conjunto interpretando Enrolando o Rock no filme Absolutamente Certo.



Nesse ínterim, a festa de aniversário de Gina está preparada. Com a demora da filha, Dona Bela fica exasperada. Quando o casal chega, as mesmas brigas de sempre. Zé, após, mais uma vez, enfrentar a sogra, é novamente expulso de sua casa. Mas dona Bela tem bom coração e logo leva bolo para o pai do noivo da filha e, como sempre, tudo acaba em paz.


Zé do Lino começa sua participação no programa, apresentado por Aurélio Campos (Luiz Orioni), com a assistência de Odete. Todos estão assistindo ao programa, tanto na academia quanto na casa de dona Bela. Após acertar as perguntas iniciais, Zé erra a última questão para desespero de Raul, que se sente enganado. Só que uma grã-fina (Marina Freire), a dona do endereço do telefone considerado errado pela produção, faz com que o marido corrija a informação. Zé, que já está abandonando os estúdios, volta triunfante para delírio do auditório.

Flashes rápidos dão o tom da escalada de Zé rumo ao triunfo. A cada programa, sua vida vai se modificando: muda seu guarda-roupa, começa a freqüentar boates com Odete. Abandona os amigos e sua noiva é esquecida, para furor de dona Bela, que dizia saber que um dia isso aconteceria. O pai é presenteado com a tão esperada cadeira de rodas. Logo ele compra um carro, um Romi-isetta, mesmo sem saber dirigir.

Trio Irakitan interpretando Agora é Cinza no filme Absolutamente Certo.



Quando a relação de Zé do Lino com Odete está mais ou menos consolidada, Raul lhe pede que convença o rapaz a errar a última pergunta do programa; Odete sugere a trapaça para o rapaz; sua recompensa seria ganhar duas vezes mais o valor do prêmio, Zé do Lino, honesto que era, se recusa a participar da farsa, alegando que não poderia enganar o público telespectador. De qualquer forma, Odete o avisa sobre o caráter de Raul, pedindo-lhe que tivesse cuidado.


Chegando a sua casa, Zé nota que a esquecida noiva o espreita pelas frestas da janela. Pede-lhe que apareça. Gina faz de conta que não escuta, fazendo com que o rapaz comece a bater com mais força, chamando por ela. dona Bela, puta da vida, abre uma das janelas e lhe joga um balde d’água, deixando-o fulo de raiva. Ao entrar em casa, o pai o repreende, dizendo-lhe que não mais o reconhece, que ele é outra pessoa, uma pessoa pior em todos os sentidos. Zé argumenta que faz tudo aquilo por ele, mas o pai, mesmo o perdoando, lhe pede que volte a ser como antes.


Posto que Odete se encontra com Raul e lhe conta sobre a recusa de Zé, o bandido fica possesso e a agride. Mesmo assim, ela lhe diz que nada pode fazer devido à honestidade do concorrente. Mas Raul sabe exatamente o que tem que ser feito: Zé é seqüestrado e levado para a academia. Lá ele é espancado para aceitar a trapaça, mas, mesmo assim, se recusa, fazendo com que apanhe mais ainda. O boxeador que tivera a mão quebrada chega e fica observando a cena.

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Porém, Raul tem uma carta na manga: logo parte da quadrilha chega com o pai de Zé, fazendo com que este fique desesperado. O pai lhe diz para não aceitar a chantagem. Neste momento, todo o pessoal da casa de dona Bela também é trazido pelos meliantes para a academia, já que todos assistiram ao seqüestro do pai de Zé e poderiam avisar à polícia. Quando iam iniciar nova sessão de pancadas, Zé lhes pede para não o espancar perto do pai, sendo levado para outro compartimento da academia. Quando começa o espancamento, o boxeador chega repentinamente, dizendo que sua outra mão estava boa e que os bandidos teriam uma lição. Aproveitando a ocasião, Zé consegue fugir, pega um taxi e se dirige à gráfica, onde seus companheiros estão trabalhando. Pede-lhes ajuda para salvar o pai. Só que o programa está quase começando e Zé tem que estar lá.


Ele então se dirige para a estação de TV, enquanto os amigos vão para a academia tentar salvar o velho e o pessoal da pensão. Raul, por seu lado, ao saber da fuga do rapaz, também vai para o mesmo local. Tensão nos estúdios. Zé não aparece. O tempo se esgota. É feita a última chamada. Após driblar parte da quadrilha na porta da TV, Zé entra correndo para alívio de todos. O auditório delira. O programa se inicia. Enquanto Zé começa sua participação no último programa, a quadrilha assiste ao programa pela televisão. Dependendo da atuação do rapaz, o velho pagará caro. Sentindo a barra, ele consegue jogar um objeto no aparelho ligado, quebrando-o, impedindo, assim, que a quadrilha saiba o que está acontecendo nos estúdios.

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Paralelamente, o pessoal da gráfica chega à academia e, ajudados por dona Bela, consegue vencer os bandidos, dirigindo-se imediatamente para a estação de TV. Zé, nervoso, vai respondendo as primeiras perguntas, ao mesmo tempo em que vê Raul armado nos bastidores. De repente, os comparsas do bandidão conseguem desligar as luzes dos estúdios. O programa é interrompido. Confusão por todos os lados, após a qual, o programa recomeça. Zé acerta todas as perguntas. Chega-se ao clímax do programa: a última pergunta. Zé vai contemporizando, enquanto espera algum sinal do pai, que não aparece. Novo apagão. Novo reinício. Zé não consegue responder à última questão. O tempo urge. Os bandidos à espreita. Suspense. Zé responde de forma incompleta à última pergunta, em compasso de espera. Mas Aurélio Campos não pode mais esperar. O programa está para ser encerrado.

De repente, o pai de Zé do Lino aparece no corredor do auditório. Dona Bela e família também chegam aos estúdios. Zé, aliviado, responde a pergunta. ABSOLUTAMENTE CERTO. Zé nem bem responde e ataca Raul. Gina, por seu lado, se chega à Odete e também ataca a moça. Confusão por toda a parte. Dona Bela roda a baiana, atacando por todos os lados. Raul é preso. Zé separa Gina de Odete, que se afasta. Gina abandona chorando os estúdios. Zé vai atrás dela. Diz-lhe que a ama. Gina o encara, sorrindo. Os dois se beijam.


Fim.


Absolutamente Certo fez um enorme sucesso em todo o Brasil. A crítica se surpreendeu com a boa qualidade da película, considerando-a uma inovação da chanchada. Acabou premiado com dois prêmios Saci, o de Melhor Roteiro e o de Melhor Trilha Musical (para o maestro Enrico Simonetti). Ganhou também dois prêmios Governador do Estado, o de Melhor Ator para Anselmo e o de Melhor Roteiro. Lançado em vinte cinemas em São Paulo e em outros vinte no Rio de Janeiro, lotou todas as sessões; segundo Anselmo Duarte, com esse filme ele ganhou em um ano mais do que ganhara em toda a sua carreira. Nesse mesmo ano (e parte de 1958), ele ainda participaria de mais dois filmes, Senhora (inacabado) e de O Cantor e o Milionário (direção de José Carlos Burle, elenco contando com Marlene, Luiz Delfino, Eva Wilma, Felipe Wagner, Paulo Goulart e outros). Em cerca de dez anos, não mais participaria como ator de nenhum filme no Brasil. Logo embarcaria para a Europa, iniciando um novo capítulo em sua história. Em terras européias participaria de filmes tanto na Espanha quanto em Portugal, onde filmaria As Pupilas do Senhor Reitor, baseado na obra imortal de Júlio Diniz.