18.8.06

PROJEÇÃO NACIONAL

Antes de abrir a temporada de 1951, o TBC teve que lidar com um problema profissional que poderia desestruturar a ainda jovem companhia teatral; já indisposto com grupos e pessoas da companhia, e seduzido por uma proposta de ter um teatro próprio para futuras montagens e também se transformar no principal diretor dos filmes a serem realizados pela futura companhia cinematográfica Maristela, proposta essa feita por um jovem brasileiro, Audrá Júnior, de família importante, acabado de chegar da Itália e deslumbrado pelo neo-realismo italiano, Ruggero Jacobbi (1920 - 1981), e com ele Madalena Nicol, a futura estrela do novo empreendimento, abandona (ou foi abandonado devido aos hoje célebres problemas ocorridos em sua montagem de A Ronda dos Malandros, considerados imperdoáveis pelos poderosos do TBC) a troupe tebeceana para criar um novo grupo.

Aproveitando o palco do Teatro Royal – antes um cinema –, a nova companhia consegue montar com sucesso, ainda em 1950, a peça Electra e os Fantasmas, do dramaturgo americano Eugene O'Neill, estrelando Madalena Nicol, Elísio de Albuquerque, Sérgio Brito, Luiz Linhares, Tito Fleury e outros. Com o aval do primeiro sucesso, ainda monta Lady Godiva, de Guilherme de Figueiredo,
Antes do Café, também de O'Neill, e O Homem, a Besta e a Virtude, de Luigi Pirandello.


Porém, em virtude do esquema quase amador das montagens, àquela altura já ultrapassado pelos novos tempos, e também devido ao afastamento de Jacobbi para a preparação das filmagens de Presença de Anita, o primeiro filme a ser realizado pela nascente Cinematográfica Maristela, o grupo não consegue realizar um trabalho à altura dos principais atores e atrizes da companhia, que, à falta de público, logo fecha as portas. Os tempos são mesmo outros.

Diferentemente, entretanto, apesar das defecções, o esquema de produção montado pelo TBC é mesmo profissional. Logo Ziembinski (1908 - 1978) é escolhido para ser o diretor de Paiol Velho de Abílio Pereira de Almeida (1906 - 1977), peça escolhida para abrir a temporada de 51.

Desde a montagem de Vestido de Noiva, Ziembinski era um mito no mundo teatral. Nascido na Polônia em março de 1908, aos 23 anos, já dirige o Teatro Nacional de sua terra, tendo que fugir, quando a Alemanha começa a segunda guerra mundial ao invadir, exatamente, a Polônia. Depois de vaguear por vários países europeus, Zbigniew Ziembinski acaba aportando no Rio de Janeiro, sem saber uma linha sequer de português. Isso em 1941. E nesse mesmo ano já consegue encenar a peça de Bernard Shaw À Beira da Estrada. Daí a Vestido de Noiva, em 1943, foi questão de tempo. Sua montagem ousada para a época, ainda mais para uma peça do maldito Nelson Rodrigues, o tornam uma "celebridade instantânea". Depois de uma carreira de sucesso no Rio de Janeiro, foi contratado pelo TBC e pela Vera Cruz, iniciando em São Paulo uma respeitável carreira de diretor e ator, atuando tanto no teatro quanto no cinema e, posteriormente, na televisão.

O sucesso da montagem de Paiol Velho, com Cacilda Becker,Eugênio Kusnet, Freddi Kleemann e Maurício Barroso nos papéis principais (a peça entrou em cartaz exatamente um mês antes do lançamento do filme Terra é Sempre Terra, baseado no mesmo texto de Abílio, só que com Marisa Prado no papel vivido por Cacilda nos palcos) foi total, apesar das dificuldades da montagem e das evidentes deficiências dramáticas da peça de Abílio Pereira de Almeida. Não obstante, a peça rendeu a Abílio o prêmio Governador do Estado de Melhor Autor nacional (Bassano Vaccarini também foi premiado por sua impressionante cenografia). E para a próxima montagem – Seis Personagens à Procura de um Autor – de Pirandello (com tradução de Mennoti del Picchia), Adolfo Celi, escolhido como o diretor, contaria com um elenco estelar, sobressaindo-se Cacilda Becker, Sérgio Cardoso, Paulo Autran, Cleyde Yáconis, Carlos Vergueiro, Eugênio Kusnet, Elisabeth Henreid e muitos mais.

Rosy Aragão em cena no espetáculo Seis Personagens à procura de um Autor.



Além do sucesso de público, tanto o desempenho de Cacilda quanto o de Sérgio Cardoso nessa peça foram elogiados pela crítica especializada. Sobre isso, assim escreveu Décio de Almeida Prado:

"(...) Sérgio Cardoso, especialmente, nunca subiu tão alto (...) Cacilda move-se no palco com a elasticidade, a graça carnal e o ímpeto felino de um animal presa, pronto a atacar e a ferir, lançando-se à menor provocação contra tudo e contra todos (...) Sua interpretação é fértil em pesquisa de técnica como aquele riso voluntariamente vazio e forçado que percorre o papel de ponta a ponta (...)"
Por essa época, o interesse do TBC era a consagração nacional, estruturado que foi para colher os frutos do sucesso também fora da paulicéia. Então, para isso, as novas montagens do grupo foram invadidas por dezenas de críticos cariocas, convidados para assistirem às estréias das novas montagens da companhia, visando maior visibilidade junto ao público amante do teatro por todo o Brasil, graças ao alcance dos jornais da Capital Federal.

Preparado para vôos mais altos, e com um grupo talentoso e afiado, o TBC alcança em 1951 o maior triunfo de sua curta carreira. Assim, logo no início do ano, é montada Convite ao Baile, de Anouilh, direção de Luciano Salce, elenco contando com o já lendário Sérgio Cardoso, o respeitadíssimo Eugene Kusnet, Célia Biar, Nydia Lícia, Ziembinski e Cleyde Yáconis, brilhando sobremaneira no papel de Lady Indiana, pequeno na realidade, mas que lhe permitia, hipnoticamente, se destacar no palco. A partir daí, os sucessos vêm de roldão: a remontagem de Pega Fogo (Jules Renard), com Cacilda Becker, Cleyde Yáconis, Wanda de Andrade Hammel e Ziembinski; Ralé, de Máximo Gorki, encenada por uma das últimas contratações da companhia, Flaminio Bollini, vindo diretamente da Itália; aliás, o elenco desta peça dá uma demonstração dos talentos à disposição do TBC: Paulo Autran, Maria Della Costa (em seu único espetáculo para o TBC), Nydia Lícia, Luiz Linhares, Ziembinski, Sérgio Cardoso, Marina Freire e Cleyde Yáconis, esta já começando a brilhar quase tanto quanto sua poderosa irmã, Cacilda Becker; sua interpretação de uma tuberculosa nessa peça lhe valeu o prêmio de Atriz Revelação do ano, concedido pela crítica especializada paulista.


Ralé, de Máximo Gorki, em montagem de Adriano Garib.




E as montagens se sucedem: para as comemorações do jubileu de Ziembinski, foi encenada a peça Harvey, de Mary Chase, nova direção de Ziembinski que encabeça o elenco ao lado de Célia Biar, seguida do projeto mais ambicioso da companhia para o ano: A Dama das Camélias, dirigida por Luciano Salce e interpretada por Cacilda Becker, encabeçando o elenco no papel de Marguerite Gauthier, ao lado de Fredi Kleemann, o futuro astro Leonardo Vilar, Carlos Vergueiro, Paulo Autran, Elisabeth Henreid e Cleyde Yáconis.


A estréia de A Dama das Camélias foi no Teatro Municipal de São Paulo, que comemorava seu terceiro aniversário. A montagem teve vários problemas devido ao imenso tamanho do teatro, já que os atores estavam acostumados com o pequeno teatro do TBC, não impedindo, porém, que Cacilda fosse premiada pela Associação Brasileira de Críticos Teatrais - ABCT - como a Melhor Atriz do ano. Logo depois, a companhia leva a peça para ser encenada no Teatro Municipal do Rio de Janeiro, sendo considerada pelo elenco a prova de fogo definitiva para todos e a possibilidade de brilhar, pela primeira vez, na Capital Federal, a peça servindo de cartão de visitas. A verdade é que ninguém se deu conta de que a empreitada era deveras arriscada. A rivalidade entre os dois centros culturais era pública e notória e uma recepção não calorosa poderia acontecer.

Só que, na opinião de todos, o receio não se justificava; afinal de contas, quem poderia não gostar de uma peça com tamanha qualidade e com um elenco mais do que competente?


A resposta veio logo após a estréia. A reação do público foi excelente, mas, boa parte da crítica carioca (capitaneada por Paschoal Carlos Magno) detestou o espetáculo; muitos, em virtude da interpretação considerada empostada e grandiloqüente de Cacilda, criticada por seu sotaque paulista carregado, um tanto quanto italianado. Outros, pela ausência de Sérgio Cardoso, aguardado com grande expectativa por ser bem conhecido pela crítica carioca desde os tempos do Teatro do Estudante do Brasil.


Mas, apesar de todos os pesares, a temporada de 51 foi o amadurecimento definitivo do TBC, e a certeza para todos os seus integrantes de que um futuro grandioso esperava por todos. O futuro diria se o grupo estava com a razão.

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