25.8.06

"O CANGACEIRO" E "AGULHA NO PALHEIRO" : DUAS APOSTAS DIFERENTES PARA O CINEMA BRASILEIRO


Enquanto São Paulo, aparentemente, consolidava sua indústria cinematográfica, com a produção nesse ano de 14 filmes, sete somente saídos dos estúdios da Vera Cruz (sem contar o inacabado O Americano, co-produção da Multifilmes com a Columbia Pictures), o Rio de Janeiro, com 10 filmes, parecia entrar em um período de franca decadência. Dos estúdios da Atlântida, por exemplo, saíram quatro péssimas produções: A Carne é o Diabo (baseada na peça Lar Doce Lar, de Armando Gonzaga), dirigida pelo desconhecido Plínio Campos e com um elenco de segundo time, Heloísa Helena, Carlos Tovar, Míriam Moema, Alexandre Amorim, e Diana Morel; Dupla do Barulho, primeira incursão de Carlos Manga na direção, com Oscarito e Grande Otelo (oficialmente, o primeiro filme de Oscarito e Grande Otelo como dupla); É Pra Casar, direção Luiz de Barros, também com um elenco quase indigente, pontuando Silva Filho, Iris Delmar, Manoel Vieira, Jane Gray, Alexandre Amorim e outros mais; e Santa de um Louco, de George Dusek (considerado pela crítica carioca o melhor diretor de 1952 por Preço de um Desejo), contando no elenco com Jardel Filho e Roberto Bataglin.

Os destaques do ano, não obstante serem propostas diametralmente opostas de qual rumo deveria seguir o cinema brasileiro, ficam para O Cangaceiro, dos estúdios Vera Cruz, e para Agulha no Palheiro, modesta produção da Flama Filmes (leia-se Moacir Fenelon), primeira experiência brasileira de uma proposta recém vinda da Itália: o neo-realismo.

Com uma proposta diferente de fazer cinema, basicamente em virtude da situação de penúria por que passava a Itália do pós-guerra, encampada quase sempre por jovens cineastas humanistas e de esquerda, o neo-realismo tinha como característica básica um cinema pobre (mas não descuidado), que retratava os sonhos e anseios do povo italiano comum, com elenco amador ou com artistas longe da fama dos grandes estúdios hollywoodianos. Seus maiores trunfos eram os roteiros muito bem alinhavados, aliados às filmagens executadas nas ruas, barateando os custos de produção. Vitório de Sica, Roberto Rosselini, Luchino Visconti, Michelângelo Antonioni (da primeira fase) estão entre os melhores cineastas desse período.


O Neo-realismo italiano.



Neo-realismo italiano (em inglês).



Silvana Mangano, em cena do filme Arroz Amargo (neo-realismo italiano, 1949).


Alex Viany (04.11.1918) não era um neófito no cinema. ex-correspondente da revista O Cruzeiro em Hollywood, antes de se aventurar nas intermináveis filmagens de O Saci para a Maristela como diretor de produção, colaborara no roteiro de Aglaia (1950), de Ruy Santos, além de ter fundado, ao lado de outros críticos brasileiros, o “Ciclo de Estudos Cinematográficos”, de ter editado com Vinícius de Morais a revista especializada Filme e de ter sido eleito presidente da Associação Brasileira de Cronistas Cinematográficos. Apesar de tudo isso, recém-chegado ao Rio de Janeiro vindo de São Paulo, se vê desempregado, sem dinheiro e sem possibilidades.

A aventura paulista se mostrara inútil, posto que a realidade já mostrava sua cara aos estúdios da Maristela, que, como a rival, a Vera Cruz, se encontrava em um beco sem saída, insistindo nos mesmos erros e prisioneira dos eternos problemas da indústria cinematográfica brasileira, quer sejam, a produção, a distribuição e de como enfrentar o mercado dominado pelos estrangeiros. Sua derrocada, segundo os rumores, era questão de tempo.


Assim que chega ao Rio de Janeiro, Alex é procurado por Mário del Rio, um suposto ex-assistente de Buñuel na Espanha e com quem trabalhara na Maristela. Recém-saído das filmagens de Com o Diabo no Corpo nos estúdios Flama, do mineiro Moacir Fenelon, (Tudo Azul), com Aracy Costa encabeçando o elenco, Mário lhe faz uma oferta do tipo irrecusável: se ele tivesse um argumento interessante ou qualquer história na cabeça que pudesse ficar pronta em poucos dias, seria possível transformá-lo em um filme, aproveitando a disponibilidade dos estúdios, naquele momento sem nenhuma produção à vista. Alex, obviamente, seria o diretor. A única exigência era que a história teria ter características populares, a exemplo das congêneres da Atlântida.

Viany se vê entre dois fogos: por um lado, sua experiência na Maristela trouxera-lhe a convicção de que aquela alienação típica das produções paulistas não lhe interessava; por outra, mesmo utilizando alguns de seus elementos, abominava as chanchadas da Atlântida que, em seu entender, enganavam as massas através de sua irresponsabilidade social.

Como não tinha um argumento disponível, Viany coloca a mão na massa e, em poucos dias (segundo a lenda, em um dia), ele estava pronto. Em síntese, conta a história de Mariana (Fada Santoro), moça simples do interior de Minas Gerais que chega ao Rio de Janeiro à procura de um noivo carioca (Hélio Souto), que lhe dera um endereço em Copacabana, cujo nome era José da Silva. A moça hospeda-se na casa de uma tia, Dona Adalgisa (Sara Nobre), mãe de Baiano (Jackson de Souza) e de Elisa (Dóris Monteiro), moradores do subúrbio carioca.

Sabendo dos problemas da prima, e após se certificarem de que o endereço dado pelo rapaz não existia, os parentes tentam encontrá-lo através da lista telefônica. Desânimo total, ao constatarem a quantidade de "Josés da Silva" constante da lista. Ao mesmo tempo, Mariana começa a vivenciar outro problema: estava grávida.

Essa gravidez foi a gota d'água: convictos de que o rapaz era um patife que se aproveitara da ingenuidade da moça, os primos, mais Eduardo, colega de Baiano que se apaixonara por Mariana tão logo a vira na rodoviária, onde fora buscá-la, empreendem tenaz busca ao rapaz folgado por todo o Rio de Janeiro, pela dificuldade, o mesmo que procurar uma agulha no palheiro. Enquanto isso, a mocinha também se apaixona por Eduardo, tudo caminhando para um acerto entre os dois.

Até que, após algumas peripécias de praxe, sabendo da existência de um José da Silva, freqüentador da boate onde trabalha Juca, outro amigo da família, é providenciada a ida do casal até aquele local. Em vão. O conquistador não aparece. No dia seguinte, não podendo contar com Mariana, em estado acentuado de gravidez, vão os primos e Eduardo. Desta vez o suposto José aparece.

Preparando-se para abordá-lo, Eduardo recebe a notícia de que Mariana estava no hospital para ter o bebê. Todos se encaminham para lá, inclusive José da Silva, que se mostra desinteressado do caso. Depois do parto, Dona Adalgisa, a pedido da sobrinha, pede ao sedutor para entrar no quarto. Eduardo fica arrasado, disposto a ir embora. Não demora, porém, o rapaz deixa o quarto, negando ser o José da Silva procurado. Nos finalmentes, após também ser chamado ao quarto, Eduardo se aproxima de Mariana, procurando-lhe as mãos por cima da colcha. É o final feliz.

Aprovado o argumento, e enquanto trabalhavam no roteiro, Viany e Fenelon (designado produtor do filme) providenciavam a seleção dos atores. Roberto Batalin, vindo de um modesto sucesso, Vento Norte (Salomão Scliar), fica com o papel de galã, o motorneiro Eduardo. Tentando consolidar sua carreira de cantora, Dóris Monteiro, linda, maravilhosa, descoberta nas páginas de O Cruzeiro, é contratada, sem testes, para o importante papel de Elisa, a suburbana aspirante a cantora. Para o papel de Baiano não houve problemas: desde o princípio Viany tinha Jackson de Souza na cabeça e escrevera o papel para ele. O pequeno, mas fundamental papel de José da Silva foi parar nas mãos de Hélio Souto, também vindo de um sucesso de estúdios paulistas, O Comprador de Fazendas. A veterana Sara Nobre interpretaria Dona Adalgisa, e para finalizar o elenco de apoio, César Cruz, o compositor de algumas músicas que comporiam a trilha sonora do filme, é escolhido para dar vida ao pianista Juca. Ficaria faltando somente o papel da heroína, Mariana.

A princípio, Viany tinha em mente uma atriz iniciante para o papel principal, uma garota belíssima chamada Sheila Waddington, que chegou a ser aprovada nos testes. Porém, como ele estudava, seria necessária uma licença especial do colégio para sua participação na película. Quando as filmagens estavam prestes a se iniciar, a licença foi recusada, ficando o filme sem estrela. Um nome, então, já anteriormente ventilado, ganha força, terminando por ser contratada: Fada Santoro, em passos largos para se tornar uma verdadeira estrela nos estúdios Atlântida, e que, contratada em um dia, iniciou sua participação no outro.Seis músicas são escolhidas para compor a trilha sonora do filme: a música-tema, Agulha no Palheiro (César Cruz/Artur Vargas Jr.); Moamba (José Maria de Abreu); Perdão (César Cruz); Vai Levando (César Cruz); O Vôo do Mangangá (Humberto Teixeira) e Piou o Caboré, do compositor Xerém. Dóris interpreta a canção-título e Carmélia Alves, passando por razoáveis índices de popularidade e que se representa no filme como a "Lady-Crooner" da boate onde finalmente José da Silva é reconhecido, canta Moamba e O Vôo do Mangangá.

Apesar de sua honestidade e, de certa forma, seu pioneirismo, por ser basicamente o primeiro filme brasileiro com coloração neo-realista, Agulha no Palheiro é um filme irregular, maus momentos se alternando com outros muito bons. Pretendendo ser uma comédia de costumes à la carioca, termina por se constituir em um melodrama, a despeito de seu criador.

A crítica, principalmente aquela que detestava as chanchadas da Atlântida, elogiou o filme. Foi chamado de "limpo", "honesto" e "interessante". Cyro Siqueira, em crítica de 15 de agosto de 1953 (Estado de Minas), assim sintetizou o filme:

"Finalmente um filme brasileiro sem pornografia, sem shows radiofônicos, sem quadros de teatro, e com Dóris Monteiro numa excelente estréia cinematográfica. 'Agulha no Palheiro' deve ser assistido por todo mundo para que se saiba até onde o cinema nacional poderá ir, se deixar de ser controlado por certas forças de interesses inconfessáveis."


Não foi sem surpresa, todavia, que os leitores do jornal O Tempo (04.10.1953), que leram a coluna cinematográfica de Bresser Pereira, fossem contemplados com uma crítica ácida e distorcida de Agulha no Palheiro. Mais uma vez, um filme brasileiro de boas qualidades foi arrasado pelo péssimo crítico, sem medidas de perspectivas:

Nestes últimos tempos o cinema nacional fez-se representar na Cinelandia por um filme simples e sincero, "O sacy", por uma comédia de segunda ordem, mais aceitável, "A família lero-lero"; por duas fitas péssimas vindas do Rio, "Santa de um louco" e "Perdidos de amor"; e finalmente por esta "Agulha no Palheiro", que é apenas um pouco melhorzinha do que as duas anteriores, havendo sido produzida também na Capital Federal.

"Agulha no palheiro" é o primeiro filme de Alex Viany, conhecido crítico de cinema que durante vários anos colaborou como correspondente da revista "O Cruzeiro", em Hollywood. Recentemente ele foi um dos assistentes de Rodolfo Nanni, na direção de "O sacy", mas a sua melhor contribuição ao cinema nacional até hoje foi ter editado dois números da revista "Filme" um empreendimento dos mais sérios em matéria, de cinema, mas que teve vidamuito curta.

Agora esta fita da Flama marca a sua estréia como diretor e cenarista. E, infelizmente, não se pode dizer que tenha sido uma estréia auspiciosa, pois em nenhum momento de seu filme ele evidenciou um verdadeiro talento cinematográfico. "Agulha no palheiro" é uma película mal alinhavada, chocha, sem nenhum calor, sem nenhuma vivacidade, embora pretenda ter tudo isso. A única coisa que notamos de realmente positivo em Viany — e aí que residem nossas esperanças em relação a ele — foi a honestidade. o visível desejo de acertar, e a recusa de usar de meios demagógicos e rasteiros, o que se pode observar em sua fita de estréia.

Temos nessa película a experiência fracassada de uma tentativa de imitação do neo-realismo italiano róseo. Nessa frase está resumido praticamente tudo. Alex Viany procurou contar-nos uma história simples e corriqueira, vivida por gente pobre do Rio de Janeiro. Nota-se em toda a sua fita uma profunda influencia de filmes como "Sob o sol de Roma", "É primavera", "Viver em paz" e outros. Entretanto, Viany escreveu um roteiro duro e mecânico, sem vibração humana, sem elementos típicos autênticos, sem aquele sentido de observação um tanto cômica, ou aquela percepção dos elementos poéticos e simples da vida, que fazem a grandeza dos melhores filmes italianos. Para alcançar um resultado desses seria necessário o talento de um verdadeiro artista, que falta a Alex Viany. Nem dirigir os atores ele soube, embora contasse com alguns elementos verdadeiramente bons, como Fada Santoro, Doris Monteiro e Jackson de Sousa. No que diz respeito a seu mister específico de narrar uma história em termos cinematográficos, procurou ele novamente inspirar-se no aparente descuido formal de um Castellani ou de um De Sica. O descuido desses diretores, porém, é puramente "aparente"; tudo aquilo vem muito bem estudado, como pudemos ainda comprovar recentemente em "Garotas da Praça de Espanha", enquanto que o de Alex Viany é bem real. Mostrou-se inseguro, hesitante, cometeu erros de corte e esqueceu-se de que existe ritmo em cinema... Fotografia péssima de Mario Pagés e música razoável de Claudio Santoro."

Agulha no Palheiro acabou premiado no 1.º Festival Cinematográfico do Distrito Federal, abocanhando os prêmios de Melhor Atriz para a bonita performance de Dóris Monteiro e Melhor Argumento, exatamente para Alex Viany.

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A notícia chegou ao Brasil com a força de um petardo: após ter assombrado crítica e público durante sua exibição no festival de cinema de Cannes, o mais famoso do mundo, imediatamente ficando cotado como um dos favoritos da mostra, o filme O Cangaceiro, do cineasta Lima Barreto, pela primeira vez na história do cinema brasileiro, ganha dois importantes prêmios, o de "Melhor Filme de Aventuras" e "Menção Honrosa" pela música, no caso Muié Rendera, antigo tema popular adaptado pelo compositor Zé do Norte, que, lançada em disco no Brasil e no exterior, se transformou em um dos maiores sucessos do ano e uma música eterna do cancioneiro popular brasileiro, hoje tema obrigatório para centenas de coros espalhados pelo mundo.


Grupo de MPB da UFPR - Muié Rendera (Zé do Norte).



Muié Rendera - Participaçao do Coral CESAMA no 5º Festival de Corais de Belo Horizonte.



Muié Rendera - Liberty High School - Fall Choir Concert 2006.



Muié Rendera - The Longmeadow High School Accidentals.



Muié Rendera - Ayala Choirs Womens Ensemble Porto Rico.



Muié Rendera - The San Jose Sate Concert Choir.


Com direção, argumento e roteiro de Lima Barreto, diálogos de Raquel de Queiroz, música de Gabriel Migliori, cenografia do pintor Carybé e com um elenco em que brilham Alberto Ruschel (recém saído de Ângela e Apassionata), Marisa Prado (Tico Tico no Fubá), Milton Ribeiro e Vanja Orico, O Cangaceiro - misto de faroeste americano com a saga do cangaço - poderia ter sido a salvação dos estúdios Vera Cruz, a essa altura já dando repetidos sinais de esgotamento em seu funcionamento, fruto de vários equívocos, principalmente na escolha da maioria de suas produções.


Na realidade, a saga nordestina somente se tornou realidade devido à teimosia e à tenacidade de seu diretor, Lima Barreto.


Chamado de tudo pela imprensa, de presumido, mesquinho, vaidoso, recalcado, inculto, oportunista, vaidoso e de ostentar qualidades que verdadeiramente não existiam, Lima Barreto, paulista de Vargem Grande (segundo um leitor amigo, Lima Barreto é, na realidade, de Capim Branco), nascido em junho de 1906, era filho de pais separados, vivendo ora com o pai, com quem tinha uma relação conturbada, em virtude de sua (do pai) profissão, diretor da estrada de ferro Mogiana, que o obrigava a ter ora uma vida nômade, ora a viver com vários parentes. Tais fatos não permitiam ao jovem Lima levar uma infância normal, tornando-o tímido e agressivo. Além do mais, contra sua vontade, seus parentes intentavam enviá-lo para um seminário, ao mesmo tempo em que o impediam de brincar com outros garotos, de soltar papagaios e de levar uma vida normal de menino do interior. Assim, a inveja e o ódio aos outros meninos cedo se manifestam em seu caráter, marcando-o para o resto de sua vida. Para disfarçar a timidez, refugiava-se, cada vez mais, na presunção, na arrogância e no pedantismo.


Primeiramente, quis ser tudo: pintor, escritor, músico e até ferroviário. Tornou-se bancário, pintor e fotógrafo de jornal, o que o aproximou da sétima arte. Sua primeira incursão no gênero foi em pequenos filmes comerciais, realizando, também, alguns filmes de curta-metragem, o primeiro intitulado Fazenda Velha, reminiscências de onde nascera. Participando de um debate sobre cinema, conhece, um tempo depois, Alberto Cavalcanti, a essa altura um homem poderoso na Vera Cruz, que, impressionado com seus conhecimentos cinematográficos, o convida a entrar para o novo estúdio, permitindo-lhe a realização do curta-metragem O Mural (ou Painel), baseado na obra Tiradentes, do pintor comunista Cândido Portinari, premiado no festival de Punta Del Leste. Logo realizaria outro curta, Santuário, agora baseado na obra do mestre mineiro do barroco, Aleijadinho, que, também, é premiado no conceituado festival de cinema de Veneza.

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Como O Cangaceiro estava em sua cabeça há, pelo menos, 10 anos, Lima, aproveitando o sucesso alcançado com seus dois curtas, inicia sua batalha particular para estrear como diretor de longas-metragens, aproveitando, obviamente, sua história. As dificuldades iniciais, no entanto, tinham um nome: Franco Zampari, o poderoso chefão da Vera Cruz.


Zampari, além de não gostar de Lima Barreto, não acreditava em sua capacidade para dirigir um filme. Considerava-o agressivo e boquirroto, um quase cinqüentão que falava mal de todo mundo, principalmente dos estrangeiros do estúdio. Aliás, segundo o próprio Lima, a dificuldade maior para conseguir emplacar seu projeto advinha principalmente do fato de ele ser brasileiro e, por isso, considerado incapaz de dominar as boas e novas técnicas cinematográficas. Somente após a intercessão de um diretor da companhia, Caio Pinto Guimarães, que se apaixonara pelo texto, ameaçando inclusive financiar o projeto com dinheiro de seu próprio bolso ou mesmo impedir a produção de outros filmes, é que Zampari resolve bancar a produção, mesmo a contragosto.


Com a concordância do estúdio, Lima Barreto parte para a Bahia em busca de locações apropriadas, filmando e fotografando as paisagens agrestes, os usos e os costumes do sertanejo e da população do sertão. Por essa época, conhece o famigerado cangaceiro Volta Seca, antigo participante do bando de Lampião, o Rei do Cangaço, que, após anos de cadeia, fora indultado pelo presidente da República.


Lima queria o aval do antigo bandoleiro sobre a autenticidade dos cenários e dos figurinos, fato desnecessário porque, tendo ficado a cargo de Carybé, tudo fora executado levando-se em consideração extensa pesquisa sobre os costumes dos cangaceiros, desde as sandálias e os chapéus, até as armas e os arreios.

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No entanto, Lima Barreto perdera seu tempo no sertão baiano. Por medida de contenção de despesas, as filmagens exteriores foram realizadas em Vargem Grande do Sul (São Paulo), para onde parte uma grande equipe técnica para dois meses de filmagem.

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Ficam por extensos oito meses.


Enquanto as filmagens prosseguiam, notícias alarmantes chegavam à Vera Cruz, dando conta do que se passava nos sets. Dizia-se que rolava de tudo, desde orgias, escândalos e bebedeiras, passando por brigas entre os membros da equipe. Não obstante tudo isso, um simples fato impedia maiores aborrecimentos para os executivos da companhia: a qualidade do material enviado das locações pelo cineasta. Lima, por outro lado, apostando em suas potencialidades, não se preocupava com o tempo, irritando muita gente por seu preciosismo. Às vezes ficava dias sem filmar, esperando um sol mais radioso; o número de extras, também, era considerado exagerado, sendo que, só de cangaceiros havia mais de oitenta. Ao mesmo tempo, o cineasta sentia-se desprestigiado pelos executivos da companhia, reclamando que faltava de tudo desde películas até refletores.

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Só que Zampari tinha mesmo que ficar preocupado. Os custos de produção atingiam níveis jamais pensados por ele, desmistificando-se, assim, a acusação contra Alberto Cavalcanti, identificado com a gastança da Vera Cruz, já que, a essa altura, ele estava longe dos estúdios veracruzianos. Se ele, porém, mandava alguém até as locações para acompanhar as filmagens, Lima Barreto se alterava, terminando por expulsar qualquer um que tentasse intervir em seu projeto. Quando as filmagens finalmente terminaram, os nervos da equipe estavam em frangalhos e a situação dos estúdios, uma incógnita.

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O enredo de O Cangaceiro tem a seguinte trama: após roubar os equipamentos de uma equipe do governo que pretendia construir uma estrada rasgando o sertão, Capitão Galdino (Milton Ribeiro), à frente de seu bando, invade um vilarejo roubando e assassinando seus moradores, acabando por raptar a professora primária local (Marisa Prado). Teodoro (Alberto Ruschel), principal lugar-tenente do capitão, sente o drama da jovem e tenta, debalde, convencer o chefe a soltá-la, os dois imediatamente atraídos por ela.

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Sentindo o interesse do capitão pela moça, Teodoro resolve fugir com ela, aproveitando que todos dormiam após uma festa no acampamento. Assim que amanhece, e descoberta a fuga, o bando parte em perseguição aos fugitivos, enquanto a volante - formada exatamente para combater o bando - também inicia sua caçada aos cangaceiros. Galdino, conhecendo o sertão como a palma de sua mão, embosca os perseguidores, exterminando-os.

Durante a fuga, o casal se apaixona, Olívia, a professora, insistindo com o cangaceiro para abandonar o cangaço e viver com ela na cidade. O rapaz, porém, sabe da impossibilidade de tal ato. Ele é um homem do sertão, acostumado com a vida rude e agreste.


No final do filme, com a aproximação do bando, Teodoro obriga Olívia a fugir, ficando emboscado em uma pedreira para retardá-lo, enquanto a moça desaparece para sempre. Cercado pelos oponentes, o herói se rende quando acaba a munição. Sabedor da valentia do ex-companheiro, Galdino lhe propõe um jogo: Teodoro iria andando até uma árvore distante cerca de 500 metros. A partir daí, 23 cangaceiros atirariam em sua direção. Se escapasse das balas, seria um homem livre.

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Teodoro Morre. Galdino também, simbolizando a morte do cangaço no sertão. As últimas cenas mostram os cangaceiros indo embora, em silhueta como no início do filme, enquanto todos cantam Mulher Rendeira ("Olê mulé rendeira/olê mulé rendá/tu me ensina a fazê renda/que eu te ensino a namorá").

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O elenco, ao lado da maravilhosa fotografia de Chick Fowle, e das canções de Zé do Norte que fazem parte da trilha sonora, com destaque para Sodade, Meu Bem, Sodade, que, cantada por Vanja Orico, também se tornou um imenso sucesso popular, é um dos pontos altos do filme, a maioria com atuação acima da média: Alberto Ruschel, Marisa Prado, Miltom Ribeiro, Vanja Orico, Adoniran Barbosa, o próprio Lima Barreto, Heitor Barnabé, horácio Camargo e grande elenco.

Lenir Appes interpretando Sodade, Meu Bem, Sodade.



Áudio de Muié Rendera.


Lua Bonita, de Zé do Norte, da trilha sonora de O Cangaceiro.



Milton Ribeiro compõe um Capitão Galdino com tanta convicção que acabou prisioneiro de seu personagem, terminando por repetir sua composição em vários outros filmes.


Mineiro de Passos (21.08.1921), Milton Ribeiro iniciou sua vida artística como cantor (baixo profundo), indo depois trabalhar em novelas radiofônicas na Rádio Cruzeiro de São Paulo. Daí, por intermédio de Otávio Gabus Mendes (outro Gabus de talento), vai para a TV Tupi paulista, além de se aventurar no teatro, integrando o elenco do Teatro Brasileiro de Comédia. Participa, então, das montagens de O Auto da Compadecida (como o Cristo negro), O Casal Ano 20, Nick Bar, Arsênico e Alfazema, Paiol Velho e outras mais. Foi sua participação em Paiol Velho que lhe proporciona o papel de Capitão Galdino, seu mais importante papel no cinema, que entrou na galeria internacional dos grandes tiranos da história do cinema. Seu desempenho foi tão absoluto que eclipsou os astros do filme, tornados meros figurantes.


Alberto Ruschel, o galã do filme, nascido em Estrela, Rio Grande do Sul, em 1918, como Milton Ribeiro, também inicia seu envolvimento com as artes como cantor, chegando a participar do quarteto Quitandinha Serenader's, de certa fama nos anos quarenta. Atuando na noite carioca, é convidado a integrar o elenco do filme de maior sucesso do ano, Esse Mundo é um Pandeiro (1947), de Watson Macedo. Ruschel se destaca, o que lhe permite participar de mais dois filmes, É com este Que eu Vou (José Carlos Burle) e E o Mundo Se Diverte, também de Watson Macedo.

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Insatisfeito com seus papéis, abandona a carreira cinematográfica e passa a se dedicar apenas ao canto. Por pouco tempo. Após um período, volta para o Rio Grande do Sul, onde funda uma produtora para se dedicar a documentários. Também por pouco tempo. Atraído pelas luzes da Vera Cruz, assim que toma conhecimento de que os estúdios paulistas, Alberto Cavalcanti à frente, estavam formando um elenco imbatível para subverter completamente a indústria cinematográfica brasileira, parte para São Paulo, conseguindo ser contratado para participar de Ângela, já como o galã do filme.

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Seu tipo físico - alto e másculo - logo chama a atenção do público feminino, tornando-o, imediatamente, ao lado de Anselmo Duarte e Mário Sérgio, um dos principal galãs dos estúdios Vera Cruz, não demorando então a ser chamado para estrelar O Cangaceiro, no papel do apaixonado Teodoro.

Lançado em janeiro de 1953, o filme logo se transforma em enorme êxito popular, permanecendo, somente na capital paulista, dez semanas em cartaz, sendo visto na ocasião por cerca de um milhão de pessoas, quando São Paulo tinha uma população estimada em pouco mais de três milhões. Recorde absoluto.


Por ironia do destino, o sucesso do filme foi em vão: tendo custado cerca de quinze milhões de cruzeiros (nove milhões na produção mais seis milhões de custos indiretos), teve que ser vendido à Columbia Pictures por vinte e um milhões para saldar suas dívidas com diversos credores, dentre elas a própria Columbia, que, não investindo nada, teve com o filme, ao longo dos anos, um lucro estimado em duzentos milhões de dólares.


O caso é que, em fins de 1953, começam os rumores que davam conta do iminente colapso financeiro da Vera Cruz. Segundo esses rumores, a companhia paulista teria suspendido suas produções, dispensado técnicos, estando, assim, à beira de fechar suas portas. O mais impressionante era que, ao longo do ano, o estúdio paulista lançara, além de O Cangaceiro, nada mais nada menos do que cinco filmes no mercado: Esquina da Ilusão, dirigido por Ruggero Jacobbi e estrelado pela jovem sensação dos estúdios, Ilka Soares, e Alberto Ruschel; Família Lero-Lero, com direção de Alberto Pieralise e estrelado por Walter Dávila e Marina Freire; Luz Apagada, dirigido por Carlos Thiré, com Maria Fernanda e Mário Sérgio encabeçando o elenco; Nadando em Dinheiro, também dirigido por Carlos Thiré e com Mazzaropi no papel principal; Uma Pulga na Balança, dirigido por Luciano Salce, e Sinhá Moça, a superprodução dos estúdios, com Anselmo Duarte e Eliane Lage. Para muitos, com tal demonstração de força, era impossível imaginar a poderosa companhia cinematográfica paulista em dificuldades financeiras.


O que acontecia, na verdade, era que, durante bastante tempo, a Vera Cruz vinha financiando seus débitos com dinheiro obtido junto ao Banco do Estado de São Paulo, montante que atingia, segundo se comentava, a cifra de quarenta milhões de cruzeiros. Quando o banco suspende o financiamento, a companhia se viu sem capital de giro, ficando impossibilitada de pagar até os milionários salários de seus funcionários - artistas incluídos - em torno de um milhão e oitocentos mil cruzeiros mensais.


Tentando uma solução para ultrapassar a crise por que passava, a Vera Cruz empenha-se em conseguir, junto ao Banco do Brasil, um empréstimo de cem milhões de cruzeiros, o suficiente para superar o atual sufoco, permitindo-lhe uma pausa para meditação. Enquanto isso, algumas medidas são tomadas: primeiramente, alguns filmes em andamento são paralisados, dentre os quais Floradas na Serra, Na Senda do Crime, e É Proibido Beijar. Depois, foi adiado o início de várias produções, O Sertanejo, Ana Terra (planejada para ser um épico, a maior produção jamais saída de um estúdio brasileiro), A Estrada, Telegrama de Artaxerxes, O Árbitro, A Voz do Violão (a vida romanceada do cantor Francisco Alves) e outras mais. Também foi reduzido o número de integrantes das equipes de filmagem, que, de quarenta, passaram para cerca de 15 pessoas, com a conseqüente dispensa de vários técnicos. Finalmente, decidiu-se investir em planejamento, manter sob contrato somente os pesos pesados do elenco ( Anselmo Duarte, Mário Sérgio, Alberto Ruschel, Mazzaropi, Tônia Carrero, Eliane Lage, Marisa Prado e Ilka Soares), além de cinco diretores, Lima Barreto, Tom Payne, Fernando de Barros, Adolfo Celi e Abílio Pereira de Almeida.


Se nada disso desse certo, 1954 parecia ser o último ano da Vera Cruz.

3 comentários:

Blogger Sérgio said...

Excelente matéria sobre O Cangaceiro, com curiosidades e fatos sobre o filme e o seu diretor Lima Barreto. Apenas uma correção se faz necessária pra evitar a propagação de um erro: VICTOR LIMA BARRETO nasceu em Casa Branca, e não em Vargem grande do Sul, como consta. Sua família materna é de Casa Branca, onde ainda tem muitos parentes.

6/1/10  
Blogger Michael said...

Maravilha, bela homenagem a Fada Santoro, minha mae.
Obrigado.
Michael

24/2/10  
Blogger Myrian Lujan said...

Parabéns! pena não ter visto o nome de meu pai Homero Marques que também interpretou a trilha sonora deste Classico.Abraços Myrian Lujan .

23/3/11  

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