25.8.06

II BIENAL DE ARTE MODERNA DE SÃO PAULO: O IMPACTO


Quando, no início de 1953, a imprensa deu eco à informação segundo a qual os artistas plásticos ligados ao Partido Comunista não participariam da II Bienal de Arte Moderna de São Paulo, muitos sentiram que a mostra perderia bastante de seu brilho e outros temeram até mesmo pelo seu sucesso. Afinal de contas, alinhavam-se com o comunismo importantes nomes que abrilhantariam a mostra, sendo Picasso, Diego Rivera, Siqueiros e, no Brasil, Cândido Portinari e Di Cavalcanti, os nomes mais importantes e em evidência.


Entretanto, quando em dezembro desse ano, dando início às comemorações do Quarto Centenário da Cidade de São Paulo, foram abertas as noventa salas do Palácio das Nações e do Palácio dos Estados, integrantes de um conjunto inacabado de nove edifícios projetados no Parque do Ibirapuera por Oscar Niemeyer (24 mil metros de construção, dois pisos cada um, comunicando-se entre si através de rampas, sem escadas), o impacto foi imediato, mesmo com as ausências de monstros sagrados das artes plásticas nacionais como o referido Portinari, Lasar Segall, Pancetti, Iberê Camargo, Burle Marx etc.


IV Centenário de São Paulo.



A recusa dos artistas de esquerda de não participarem da mostra, alegando que ela nada mais seria do que um "certame burguês", tudo dentro do contexto da guerra fria instalada entre os Estados Unidos e a União Soviética, mais escondia do que esclarecia a questão, principalmente se fosse levada em conta a participação do mesmo Portinari na primeira bienal acontecida em 1951.

Essa I Bienal de Arte Moderna de São Paulo nascera de uma decepção: em 1949, o Museu de Arte Moderna de São Paulo promovera uma mostra que supostamente deveria refletir o atual estágio das artes contemporâneas no Brasil e no mundo. Chamada de "Do Figurativo ao Impressionismo", sem a presença de fundamentais representantes da arte abstrata do pós-guerra, a qualidade das obras expostas na mostra decepciona muita gente, dentre eles Danilo Di Prete, pintor italiano radicado em São Paulo, que teria sugerido ao milionário casal Yolanda Penteado/Francisco Matarazzo, com quem privava de intimidade, a realização da bienal à semelhança da Bienal de Veneza, a mais importante do mundo.

Comprando a idéia, Matarazzo ("nós que constituímos uma certa elite, temos que instruir o povo") e Yolanda, esta absolutamente fascinada com a idéia de uma bienal em Sampa, partindo, inclusive, para a Europa para convidar os artistas naquele momento em destaque na cena das artes plásticas, saem a campo e, assessorados por Lourival Gans e Sérgio Milliet, a um custo aproximado de oito milhões de cruzeiros, organizam a I Bienal de Arte Moderna de São Paulo em um pavilhão construído no Parque Trianon exatamente para esse fim.


Inaugurada em outubro de 1951, sob a batuta de Lourival Gomes Machado, escolhido como o diretor artístico do evento, contando com a participação de 21 países e com mais de 1.800 obras expostas, a mostra, vista por cerca de 5.000 pessoas em sua inauguração, e apesar de sua limitação, possibilita a um público heterogêneo entrar em contato com muito do que de melhor havia nas artes plásticas do século, com destaque para Picasso, Morandi, Alexander Calder, Jackson Pollock, Léger, Max Bill e, do Brasil, Portinari, Goeldi, Aldemir Martins, Lasar Segall e Di Cavalcanti entre outros. A nota curiosa a respeito dessa Bienal é que as deusas do modernismo brasileiro, Anita Malfati e Tarsila do Amaral, teriam submetido suas obras à apreciação do júri de seleção, sendo, não se sabe por que, imediatamente recusadas. As participações de ambas desmentiram tal ato.

Mais de 100.000 pessoas, em 66 dias, visitaram a mostra, que premiou (cem mil cruzeiros) o francês Roger Chastel (pintura), o suiço Max Bill (escultura) e, pelo Brasil, Aldemir Martins (desenho), Danilo Di Prete (pintura), Osvaldo Goeldi (gravura) e Brecheret (escultura).


Soube-se depois que causou desconforto e foi objeto de críticas por parte de certas camadas bem pensantes a premiação de Danilo Di Prete na categoria pintura, com o quadro “Limões”, seu laurel sendo creditado somente à sua amizade com o todo-poderoso casal Matarazzo.


Mário Pedrosa, o mais importante crítico brasileiro de artes plásticas, assim resumiu a bienal:

"Antes de tudo, a Bienal de São Paulo veio ampliar os horizontes das artes brasileiras. Criada literalmente nos moldes da Bienal de Veneza, seu primeiro resultado foi o de romper o círculo fechado em que se desenrolavam as atividades artísticas do Brasil, tirando-as de um isolacionismo provinciano (...) ao facilitar aos artistas e ao público brasileiro o contato direto com o que se fazia de mais 'novo' e mais audacioso no mundo'."

Já com relação à II Bienal, tudo foi grandioso: representantes de 40 países, compreendendo cerca de 4.000 obras, participaram da mostra, fazendo com que o público tivesse que andar cerca de sete quilômetros para vê-las a contento. Também se gastaram 800.000 cruzeiros só no transporte das obras do porto de Santos até São Paulo. Aliás, retirá-las da alfândega em Santos se mostrou tão complicado que as autoridades da aduana resolveram instalar um posto fiscal dentro do recinto da própria bienal.

Além das retrospectivas do Cubismo (Picasso, Braque, Picabia) e do Futurismo (Boccioni, Soffici, Carrá), ganharam salas especiais os monstros sagrados Paul Klee (65 obras), Oscar Kokoschka (18 obras), James Ensor (20 obras), Alexander Calder (45 obras), Edward "O Grito" Munch (65 obras) entre outros, inclusive o pintor brasileiro Eliseu Visconti. De todas as obras expostas, a que causou mais sensação e impacto, ao lado dos móbiles de Alexander Calder, foi Guernica, de Pablo Picasso, uma imensa tela de 3,8 x 8,5 metros, retratando os horrores da guerra civil espanhola.


Mais de 6.000 pessoas se encontravam presentes no Parque do Ibirapuera, quando a primeira dama, Dona Darci Vargas, o governador paulista, Lucas Garcez, e o prefeito de São Paulo, Jânio Quadros, inauguraram a II Bienal, àquela altura já considerada uma das três melhores bienais do mundo, ao lado da Bienal de Veneza e da Bienal de Pittsburg. Dos pintores estrangeiros de renome ligados ao Partido Comunista, somente Picasso participou dessa segunda mostra, lamentando-se as ausências de Diego Rivera, Siqueiros e Orosco, que, como esperado, efetivamente não participaram. Wolfgang Pfeiffer, diretor do MAM de São Paulo, a esse respeito comentaria:


"Os organizadores da bienal elaboraram um programa com objetivos meramente artísticos. Não cogitaram, um minuto sequer, de qualquer aspecto político que ele pudesse ter. Lamentam, por isso, o incidente que determinou a ausência de pintores como Cândido Portinari, Siqueiros, Orosco e outros grandes nomes. Lamentam, igualmente, a não participação de todos aqueles cujas forças criadoras, no momento, estão entregues mais a atividades estranhas à arte (...)"

Acusado de que teria sido o responsável pelas ausências dos companheiros de partido, Portinari se defenderia. Além de negar a existência de uma carta-manifesto, ele explicaria:

“Em princípio, não gosto de expor em mostras coletivas onde não se pode interferir na colocação dos quadros, na escolha da cor do fundo e na iluminação. Está claro que, se todos os artistas pensassem assim, não haveria exposições coletivas, mas, desde que eu obtive o prêmio de viagem, me considerei livre de expor como entendesse. Raras vezes participei de exposições coletivas, tanto aqui como no estrangeiro, e, mesmo assim, por persistência de colegas. Agora seria impossível participar de qualquer exibição. Estou preparando meus trabalhos para o Museu de Arte de São Paulo como parte das comemorações do lV Centenário da Cidade."

Homenagem a Cândido Partinari.


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O escultor francês Henri Laurens foi o ganhador do grande prêmio da bienal (200.000 cruzeiros), que também premiaria o mexicano Rufino Tamayo (melhor pintor estrangeiro), Henri Moore (Inglaterra), Giorgio Morandi (Itália) e Bem Shahn (EUA).

Quando da premiação dos brasileiros, acontece um pequeno escândalo: além da ausência entre os vencedores de Tarsila do Amaral, considerada um absurdo total, rumores davam conta de que o primeiro prêmio já estava de antemão destinado a Di Cavalcanti. As coisas se complicam porque Volpi causara sensação e impressionara enormemente o júri. A saída foi salomônica: o primeiro prêmio foi dividido entre os dois grandes pintores brasileiros, sendo também premiados Bruno Giorgi (escultura), Lívio Abramo (gravura), Arnaldo Pedroso d'Horta (desenho) e Antônio Bandeira (cartaz).


Além de ter definitivamente inserido o Brasil no contexto internacional das artes contemporâneas, essa segunda bienal ainda teve o mérito de revelar ao mundo o pintor italiano Giuseppe Santomaso, o também italiano Afro e o escultor austríaco Rudolf Hoflehner, cuja série de três esculturas - Artista I - Artista II - Artista III - também foi impactante junto ao público brasileiro.


Sobre o resultado dessa segunda mostra, dois depoimentos são definitivos: segundo Bernard Dorival, conservador do Museu de Arte Moderna de Paris, "a II Bienal de São Paulo superou todas as mostras internacionais de arte moderna já realizada no mundo". Já Rudolf Palluchini, membro do júri da premiação e secretário da Bienal de Veneza, considerou que "a II Bienal de São Paulo quebrou 50 anos de tradição da Bienal de Veneza. Os paulistas realizaram em dois o que levamos, em Veneza, 50 anos para conseguir".

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