29.8.06

GERALDO PEREIRA X MADAME SATÃ: ENCONTRO FATAL

A partir de 1951, as coisas pareciam entrar nos eixos para Geraldo Pereira; emplaca para o carnaval o samba Escurinha, de sua autoria e Arnaldo Passos, desta feita interpretado por ele mesmo; gravada pela Sinter, novata no mercado, a música, apesar de suas óbvias qualidades, não obteve a atenção devida da gravadora e nem batalhada como devia por Geraldo. Desse modo, passou despercebida pelos divulgadores e radialistas, não vendendo praticamente nada; de qualquer modo, fez relativo sucesso junto aos foliões, deixando o compositor animado com sua carreira de cantor. A composição – mais tarde redescoberta por Zizi Possi, incluída no CD Valsa Brasileira e tornando-se uma das responsáveis pelo retorno da cantora à nata da música popular brasileira – é um primor da excelência de Geraldo Pereira, com ritmo sincopado, letra e música casando-se em perfeita harmonia:

“Escurinha tu tens que ser minha

De qualquer maneira

Te dou meu boteco, te dou meu barraco

Que tenho no morro de Mangueira.


Comigo não tem embaraço

Vem que eu te faço, meu amor

A rainha da escola de samba

Que teu nego é diretor.


Quatro paredes de barro

Telhado de zinco

Assoalho de chão

Só tu, escurinha

É quem está faltando

No meu barracão.


Sai disso, bobinha

Só nessa cozinha

Levando a pior.


Lá no morro eu te ponho no samba

Te ensino a ser bamba

Te faço a maior.”

.
Maria João interpretando Escurinha.



Samba das Moças interpretando Escurinha.




Ainda pela Sinter, em 1951, também interpretados por ele, foram lançados quatro sambas, em 78 rpm, Pedro do Pedregulho/Ela, Se Meu Amor Voltar/É Hora, Cabrocha. O destaque ficou por conta de Pedro do Pedregulho, com melodia triste, um dos poucos sambas dolentes de Geraldo Pereira. A música se casa perfeitamente com a letra que explora o tema de um malandro barra pesada que deixa a boemia por causa de uma cabrocha, daí, apesar da nova vida, a tristeza. Este samba sempre é usado como exemplo de que o compositor tinha uma posição antimachista, a exemplo de outras músicas de sua autoria, tais como Ainda Sou Seu Amigo (gravada por Déo em 1946); Golpe Errado (Geraldo Pereira, David Nasser e Cristóvão Alencar, 1946), gravada por Ciro Monteiro; Onde Está a Florisbela (Geraldo Pereira e Ary Monteiro, 1944), gravação de Moreira da Silva e outras mais:


“Pedro dos Santos vivia no Morro do Pedregulho

Quebrando boteco, fazendo barulho

Até com a própria polícia brigou

Vivia do jogo e quando perdia só mesmo muamba

Rasgava pandeiro, acabava com o samba

Parece mentira, Pedro endireitou.


Estelinha, orgulho do morro, mulher disputada

Que quando ia ao samba saía pancada

Ao Pedro dos Santos deu seu grande amor

E ele trocou o revólver que usava, fingindo embrulho

Por uma marmita

E sobe o Pedregulho

De noite, cansado do seu batedor.”


Outra música de Geraldo Pereira, em nova parceria com Arnaldo Passos, que se destaca nesse ano é Ministério da Economia, uma composição gravada pelo próprio Geraldo Pereira (que, aliás, a interpreta muito bem ) que comporta várias leituras. Muitos a celebram como uma canção de esperança, porquanto, exatamente naquele momento, Getúlio Vargas estava voltando ao poder, depois de vencer a eleição do ano anterior batendo as forças conservadoras agrupadas em torno da UDN; com uma proposta de governo baseada na industrialização, na afirmação da soberania nacional e na incorporação dos trabalhadores ao cenário político, Getúlio tinha o apoio da quase totalidade dos cantores e compositores brasileiros, aí, obviamente, incluídos Geraldo e Arnaldo Passos:

"Seu Presidente,

Sua Excelência mostrou que é de fato

Agora tudo vai ficar barato

Agora o pobre já pode comer.

Seu Presidente,

Pois era isso que o povo queria

O Ministério da Economia

Parece que vai resolver.

Seu Presidente,

Graças a Deus não vou comer mais gato

Carne de vaca no açougue é mato

Com meu amor eu já posso viver.

Eu vou buscar

A minha nega pra morar comigo

Porque já vi que não há mais perigo

Ela de fome já não vai morrer.

A vida estava tão difícil

Que eu mandei a minha nega bacana

Meter os peitos na cozinha da madame

Em Copacabana.

Agora vou buscar a nega

Porque gosto dela pra cachorro

Os gatos é que vão dar gargalhada

De alegria lá no morro".

Agora se aventurando realmente como cantor e também assinando comuma gravadora de maior porte, a RCA Victor, em 1953, Geraldo lança o samba Cabritada Mal Sucedida, feito em parceria com Wilson Wanderley; Se não foi um real sucesso popular, a música é hoje considerada, por praticamente todos os pesquisadores da música popular brasileira, como um dos grandes sambas brasileiros e um dos melhores de Geraldo pereira:


“Bento fez anos

E para almoçar

Me convidou

Me disse que ia matar um cabrito.


Onde tem cabrito eu tou

E quando o comes e bebes começou

No melhor da cabritada

A polícia e o dono do bicho chegou.


Puseram a gente sem culpa

No carro da radiopatrulha e levaram

Levaram também o cabrito

E toda a bebida que tinha quebraram

Seu comissário zangado

Não tava nem querendo

Ninguém dispensar.


O patrão da Sebastiana

É que foi ao distrito

E mandou me soltar.”


Ciro Monteiro, o amigo de todas as horas, inclusive livrando Geraldo Pereira de muitas enrascadas, após um período em que adoecera, volta às gravações em 1954 e encomenda ao compositor uma música para compor seu novo 78 rpm a ser gravado pela Todamérica. Geraldo lhe dispõe o samba Escurinho que, imediatamente, estoura nas rádios, tornando-se um sucesso imediato e um clássico que atravessou décadas. A letra do samba é quase a história da vida de Geraldo Pereira, um negro briguento que gostava de birita, brigas e de confusão:


“O escurinho era um escuro direitinho

Agora está com a mania de brigão

Parece praga de madrinha

Ou macumba de alguma escurinha

Que ele fez ingratidão.


Saiu de cana inda não faz uma semana

Já a mulher de Zé Pretinho carregou

Botou embaixo o tabuleiro da baiana

Porque pediu fiado e ela não fiou.

Já foi no morro da Formiga

Procura intriga

Já foi no morro do Macaco

Já bateu num bamba

Já foi no morro dos Cabritos

Procurar conflitos

Já foi no morro do Pinto

Acabar com o samba.”

Chico Buarque de Holanda interpretando Escurinho.



Teresa Cristina interpretando Escurinho.




Interessante é que nesse mesmo ano, Geraldo participara de em uma baita briga em São Paulo, por ocasião das comemorações do IV Centenário da cidade de São Paulo; um grupo de sambistas e ritmistas, dentre os quais estavam Geraldo Pereira, Buci Moreira, Raul Marques, Arnô Carnegal, Barão, Geraldo Barbosa e outros, acompanhados de algumas pastoras requisitadas dos programas de rádio do Rio de Janeiro, foram contratados para se apresentar em uma boate durante os festejos. Quando se deram conta de que o empresário que os contratou era um pilantra e de que não haveria pagamento pelos shows já realizados, iniciaram o maior quebra-quebra, à frente, é claro, Geraldo Pereira.


Ironicamente, Escurinho foi o último sucesso de Geraldo Pereira e, exatamente, na voz de Ciro Monteiro, que fora, também, o cantor que gravara seu primeiro sucesso, Falsa Baiana. Mas, no início de 1955, o compositor estava mesmo é curtindo o seu sucesso, com muitas mulheres, muita birita e muitos planos para o futuro.


Até que lhe aparece à frente o terror da Lapa, um dos bambas do pedaço, Madame Satã.

Trailer do filme Madame Satã.




João Francisco dos Santos (1900 – 1976), o Madame Satã, era bastante famoso no baixo mundo carioca; homossexual, negro, artista de cabarés decadentes e, acima de tudo, valente, um homem que não levava desaforo para casa. Já matara, já brigara centenas de vezes, na maioria para defender seus direitos, em uma época que direitos para pessoas como ele não eram respeitados, e já passara dezenas de anos preso pelos mais diversos motivos. Seu encontro e sua briga com Geraldo Pereira naquele dia fatídico do mês de maio de 1955 hoje estão envoltos em lendas, disse-me-disse, meias verdades e que tais.


Depois disseram que o compositor já estava muito doente, emagrecendo a olhos vistos; disseram até mesmo que, quando de seu aniversário, em abril desse ano, passara mal no banheiro, com crises de vômito. Diziam também que já vinha evacuando sangue há algum tempo e que seu fígado estava em frangalhos, o que era de se esperar pela vida desregrada que levava.


Uma das versões conta que sua morte aconteceu logo depois de uma briga de bar – por causa de um copo de chope – com Satã, que, como vimos, ostentava a fama de valente. Depois da discussão no Restaurante Capela, na Lapa, Satã teria acertado um soco no rosto de Geraldo Pereira, que, bêbado, perde o equilíbrio e cai na calçada, na porta do bar. Com a queda, bate com a cabeça no meio-fio, ficando desacordado, sendo carregado para o Hospital dos Servidores, onde morreu dois dias depois de “hemorragia intestinal reincidente”. Muitos de seus amigos, porém, garantem que ele morreu de câncer.


Madame Satã assim contou para o Pasquim o incidente com Geraldo Pereira:


“Eu entrei no Capela, estava sentado tomando um chope. Ele chegou com uma amante dele (ainda vive essa mulher), pediu dois chopes e sentou ao meu lado. Aí tomou uns goles do chope dele e cismou que eu tinha que tomar o chope dele e ele quis tomar o meu copo, e eu disse pra ele: ‘Olha, esse copo é meu’.

Aí ele achou que aquele copo era dele e não era o meu. Então peguei meu copo e levei para a minha mesa. Aí ele levantou e chamou pra briga. Disse uma porção de desaforos de palavras ‘obicênias’, eu não sei nem dizer essas coisas. Aí eu perdi a paciência, dei um soco nele: caiu com a cabeça no meio fio e morreu. Mas ele morreu por desleixo médico, porque foi para a assistência ainda vivo.”


Contando com apenas 37 anos, e de maneira inglória, assim morreu um dos maiores compositores da fase de ouro da música popular brasileira.

14 comentários:

Anonymous Anônimo said...

A história sobre a morte de Geraldo Pereira é de fato uma falacia. Geraldo Pereira já vinha a 05 anos doente e nunca brigou com Madame Satã. Essa história foi inventada pelo o senhor Francisco (madame Satã) que estava preso.
Geraldo Pereira ficou uma semana internado no Hospital dos servidores dos funcináros do Municipio. Onde minha mãe e minhas tias o visitará.
Geraldo Pereira morre em 08 de maio de 1955 apos a visita e a minha e minhas ouve pelo radio.
Geraldo Pereira não era brigão nem um bebedo era e é um grande copositor que sempre brigou, sim, pelos seus direitos autorais, porem a lenda se fez!
Sou Profº Araujo e sobrinho neto de Geraldo Pereira, pesquisador e historiador.

22/1/09  
Anonymous Anônimo said...

Prefiro acreditar na "lenda" depois de ler atentamente as palavras desse "professor"!

2/4/09  
Anonymous Anônimo said...

desculpem, mas tenho uma opinião que diverge ambas as anteriores. é mostrado na wikipédia que Geraldo Teodoro Pereira morreu num hospital, dia 5 de maio de 1955, Meses após uma briga com sr.Francisco, de cirrose hepática. não sei qual é a história verdadeira, mas vou postar essa.

14/7/09  
Anonymous Anônimo said...

Wkipedia...putz.....qualquer pessoa escreve o que quiser lá....não ha nenhuma credibilidade naquilo!

5/1/10  
Anonymous Anônimo said...

Wikipedia... putz. O cara leva um soco e morre de cirrose. Será que Madame Satã lhe acertou no fígado?

7/1/10  
Anonymous Anônimo said...

Na verdade, ele morreu de sifilis, uma doenca que nao havia cura na epoca. Foi registrada causa da morte como cirrose hepatica, mas todos sabiam que ele estava com sifilis, contraida de alguma de suas centenas de mulheres que conheceu nas esquinas da Lapa.

3/4/10  
Anonymous Anônimo said...

QUERIA MUITO SABER SE ALGUEM TEM ALGUMA FOTO OU FATOS DAQUELA EPOCA DO COMPOSITOR ARNALDO PASSOS
ESTOU TENTANDO RECONSTITUIR A MEMORIA MUSICAL DELE COM BOEMIA DA EPOCA E NAO ESTOU CONSEGUINDO

email ana.o.passos@hotmail.com

3/9/10  
Anonymous Anônimo said...

brigão ou não, alcoólatra ou não,
GERALDO PEREIRA ficou com seu samba ESCURINHO GRAVADO NA MINHA MEMÓRIA, DESDE OS CINCO ANOS DE IDADE (TENHO HOJE 60) Dele tb
diversas outras obras primas que seriam re-editadas já na bossa nova! Essa história de Madame Satã
pode ser ,sem má intenção dele,fruto de um engano, já que o pobre GERALDO ESTAVA DOENTE, conforme depõe o professor! Não há razão para se desacreditar o seu depoimento.
De qualquer maneira, merece seu espaço na MPB e a tarefa de restaurar a sua obra merecia mais apoio da classe artística!

26/4/11  
Anonymous Anônimo said...

Essa história da Madame Satã tem tudo pra ser lenda. Uns dizem que foi um soco no abdômen que o matou, outros que foi a queda de cabeça no meio-fio... vai saber! Mas o que ninguém pode negar é que histórias desse tipo é que fazem uma lenda. Todo mundo, lá no fundo, adora uma morte dramática em biografia de artista. ''Noel morreu ao som de suas músicas, tamborilando em sua mesa de cabeceira até não ter mais forças; Lamartine Babo não agüentou a emoção de ouvir o Hino do América no salão do Copacabana Palace em sua homenagem e morreu 3 dias depois de enfarte;...'' Verdade ou Exagero, não há um leitor que se permite ignorar estas histórias. E acredite, é de histórias assim que nasce em muitas pessoas o interesse por suas obras e conseqüentemente um novo fã, pois nomes como Noel, Lamartine e Geraldo sobram em qualidade e talento, mas, no caso de Geraldo, essa história foi crucial pra sua posteridade.

23/11/11  
Anonymous Anônimo said...

Geraldo Pereira jaz na mão de Satã... Eternamente!!!

26/9/12  
Blogger Luiz Ferraz said...

Eu, ainda bem jovem, me lembro de Ciro Monteiro com sua caixinha de fosforo cantando toda a melodia do samba da epoca. O Samba Sincopado de Geraldo Pereira era simplesmente o marco inicial que daria um empurrao e incentivo a uma boa maioria da musica popular brasileira, inclusive de elite.
Lamentavelmente, hoje nao vamos poder mais saber como foi exatamente o quadro clinico de Geraldo Pereira pois a carencia de informacao, na epoca, era algo assustador.
Ou tendo sido golpeado fatalmente pela figura legendaria que foi "Madame Sata" ou de qualquer outro tipo de enfermedidade, o que e muito mais provavel, ja que bebia e levava uma vida sem regras, o importante e que o grnde Geraldo Pereira, com apenas um primario em seu "curriculum" escolar, nos deixou uma obra de qualidade que te hoje, no seculo XXI ainda se canta.
Quantas maravilhas do mundo artistico se relacionaram a Geraldo Pereira: o grande Kid Morengueira (Moreira da Silva), Ciro Monteiro e tantos outros como parceiros. Ate o nosso inesquecivel David Nasser, parceiro de muitos sucessos co outros compositores fez parceria com Geraldo.
Eu, particularmente, sinto que Geraldo Pereira nao tivesse tido uma vida mais longa.
Ai esta minha modesta opiniao.
Luiz Ferraz
lcmferraz@hotmail.com

1/12/13  
Anonymous josias barbosa said...

amigos, tanto joão francisco quanto geraldo pereira viviam uma vida de total promiscuidade e sabemos que naquele tempo higiene era artigo de luxo. a morte de geraldo pereira vai continuar em misterio até porque nunca foi ouvida testemunha nenhuma sobre o fatidico incidente envolvendo estas duas figuras. já pesquisei bastante sobre eles dois e acredito que geraldo não morreu pela mão de joão francisco e sim pela vida de orgias que ambos levavam. devemos nos apegar no legado que geraldo deixou pra musica popular brasileira, seus grandes sucessos.

12/4/14  
Blogger Unknown said...

Sou pesquisador histórico oriundo do IPHAN. A história do Geraldo Pereira sempre me interessou pelo inegável talento do principal propagador do samba sincopado. Suas composições eram avançadas no tempo. Quanto à sua morte existe a premiada obra "Um Certo Geraldo Pereira" (Funarte) onde pode ser confirmada a "causa mortis" por cópias de documentos e uma interessante entrevista com um garçon do bar. Geraldo pode ter morrido do agravamento de seu mal mas a briga houve. Estive pessoalmente com Madame Satã na época em que esteve preso na Ilha Grande e ele confirmou a história. Ele foi uma espécie de segurança da viadagem da antiga Lapa. E Geraldo era mesmo metido a valente. Bebia e ficava alterado. Há outras passagens que demonstram o seu destempero. O resto é conversa fiada. Leiam o livro.

22/11/14  
Anonymous zé fialho said...

Amigo, pesquisei bastante sobre este último post pela polêmica que sempre causou na história da Música Popular Brasileira. Como toda história, esta virou lenda, mas, tentei postar a que mais me pareceu a verdadeira. Obrigado e espero mais contribuição ao blog.

29/11/14  

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