6.4.09

O FIM DE UM SONHO

Não obstante o entusiasmo com que se recebeu a notícia da fundação da Cia. Cinematográfica Vera Cruz, que abria (ou parecia abrir) um novo horizonte à cinedramaturgia brasileira, os fortes boatos de que a Cinédia, um dos mais antigos estúdios brasileiros, fundado pelo legendário Adhemar Gonzaga ainda na década de 30, estava na iminência de fechar suas portas nesse ano de 1949 surpreendem e entristecem os cinéfilos brasileiros.
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Transformando a produção cinematográfica brasileira, quando se sua criação, a Cinédia opta então por seguir um tipo de gerenciamento ainda inédito no Brasil, criando uma empresa em moldes capitalistas, a exemplo de suas congêneres americanas; seus funcionários e técnicos são mantidos em constante atividade, todos efetivamente contratados pela empresa e trabalhando em estúdios bem montados e com equipamentos modernos. Com tudo isso, Gonzaga pôde se cercar com o que de melhor existia na cinematografia brasileira, ambicionando exibir (obviamente sem conseguir) ao menos um filme por mês. O paralelo com a futura Vera Cruz é evidente.

Para inaugurar sua companhia cinematográfica, Gonzaga trouxera de Minas Gerais – mais precisamente de Cataguases – o jovem cineasta Humberto Mauro, que montara em sua cidade um pólo de cinema admirado em todo o Brasil, e que teria a responsabilidade de dirigir o primeiro filme da Cinédia: Lábios Sem Beijos (1930), projeto de Gonzaga, impedido de realizá-lo devido a problemas burocráticos e outros advindos da montagem de seus novos estúdios.

Quando foi contratado pela Cinédia, em 1930, Humberto Mauro já era considerado gênio por muita gente boa. Sua fama já ultrapassara os limites das Minas Gerais e se espraiara por várias partes do Brasil. Seu cinema, com influências de Griffith e Strohein, posto que pobre e com limitações de toda sorte, é belo e avançado, muitos o considerando um profissional tão talentoso quanto seus influenciadores, mestres do talento e da criatividade. Porém, seu relacionamento com Adhemar Gonzaga vinha de muito antes, desde 1926, data em que ambos compartilham das mesmas concepções a respeito do cinema como uma indústria e, ao mesmo tempo, a de possuírem a convicção de serem de certa forma pioneiros dessa incipiente indústria cinematográfica brasileira.

Nascido a 30 de abril de 1897, filho de italiano pobre, mas com ambições de subir na vida, e de uma mineira de tradicional família, em uma fazenda (distrito de Volta Grande) perto de Cataguases, na Zona da Mata mineira, Humberto Mauro, ainda garoto, ganhava seu poucos tostões carregando malas e vendendo quitutes para ajudar a família que atravessava dificuldades financeiras, situação que começa a se modificar, ao se mudarem, em 1910, definitivamente, para Cataguases.

Cedo ainda, graças aos conhecimentos autod
idatas do pai, um “engenheiro de algibeira”, e da mãe, de família culta e letrada, interessa-se por arte em geral e pelo cinema em particular; logo que chega a Cataguases, começa a assistir, de graça, a praticamente todos os filmes que passavam no Cine Recreio, graças à bondade do gerente que permitia a entrada daquele garoto curioso, como também a um senhor de nome Liberato, analfabeto, que, às vezes, pagava sua entrada para que ele lesse para ele as legendas dos filmes.

Assim que termina o curso ginasial, Humberto vai para a capital, Belo Horizonte, para cursar Engenharia Civil. Nem bem termina o primeiro ano e larga a escola, voltando para sua cidade, onde logo começa a fazer um curso de eletricidade por correspondência, com resultados já esperados. Só que sua “curiosidade volúvel” logo o encaminha para o Rio de Janeiro, onde permanece por dois anos, trabalhando na Light e no Lóide, enrolando motores e transformadores.

Também por pouco tempo. Em 1
918, volta novamente para Cataguases, onde, exercendo os conhecimentos anteriormente adquiridos, monta uma oficina eletromecânica, iniciando nessa época um trabalho que maravilhava todo o mundo: a instalação de eletricidade em fazendas prósperas da região.

Em 1920, após le
var uma boa vida de playboy, Humberto Mauro se casa com Maria Vilela de Almeida, o casal se tornando o centro das atenções da pequena cidade devido, principalmente, à informalidade do rapaz, chegado a uma modernidade. Data dessa época sua aproximação com o fotógrafo Pedro Comello e sua fama como o primeiro instalador de rádios para os ricos da região. Como Humberto, Comello era fã absoluto da nascente indústria cinematográfica. Já com 50 anos, esse italiano era cheio de habilidades: instrumentista, professor de línguas, afinador de pianos etc. E dentro de pouco tempo, ambos planejam enveredar rumo ao novo entretenimento.

Financiado por um comerciante local, Homero Cortes Domingues, e utilizando uma Pathé baby 9,5 mm, os dois amigos filmam, em 1925, o pequeno e histórico Valadino, o Cratera, um, digamos assim, faroeste mineiro-caboclo. Logo depois, partem para um projeto mais ambicioso, o de filmar uma história um pouco mais elaborada, Os Três Irmãos, um melodrama escrito por Comello, impossível de ser filmado, devido aos parcos recursos existentes à época. Isso ainda em 1925.

Entretanto, para sorte da dupla, outro rico comerciante, Agenor Cortes de Barros, se junta ao grupo e, logo, fundam a Phebo Sul American Film. A notícia um tanto quanto estranha de que, em breve, seriam rodados filmes em Cataguases, tal qual em Hollywood, alvoroça a cidade e as vizinhanças, ao mesmo tempo em que começa a realmente colocá-la no mapa do Brasil, ao menos para os cinéfilos. E logo, em 1926, é rodado o primeiro filme, Na Primavera da Vida, estrelado por Eva Nil, filha de Comello e considerada uma das mulheres mais lindas de seu tempo, transformada em estrela de nível nacional pelo crítico Pedro Lima, não obstante seus filmes praticamente não terem sido lançados fora de Cataguases.

A história de Na
Primavera da Vida é simples e ingênua: um vigia de um posto fronteiriço (papel interpretado por Chico Mauro, irmão de Humberto) mora na cidade em um ambiente limpo e agradável. O filme deixa claro que é um local civilizado. Ao mesmo tempo, o chefe de uma quadrilha de contrabandistas que, com sua atividade, diminui a renda do posto fronteiriço, freqüenta, com seu bando, um botequim de terceira categoria, onde sempre promove arruaças. A contraposição entre civilização e estado da natureza é evidente. Com o desenrolar da história, o mocinho se apaixona pela heroína, que é desejada, ao mesmo tempo pelo facínora, que, se sentindo rejeitado, a rapta. Após algumas ações, o galã salva a donzela, terminam os problemas do posto, e o casal vive feliz para sempre. O filme praticamente se perdeu, dele restando somente alguns fotogramas.

Paralelamente, os donos da Phebo Film
empreendem diversas tentativas de tornarem a companhia conhecida em outras fronteiras. Como Adhemar Gonzaga era proprietário da revista Para Todos, onde o cinema tinha seu lugar de destaque, a meta do grupo seria a de fazer com que a Phebo começasse a ser objeto de matérias na revista. Adhemar, entretanto, já tinha outro projeto gráfico em andamento, a criação de uma revista - Cinearte - dedicada totalmente ao cinema, colocando-a à disposição de Humberto. Após os primeiros contactos, os dois cineastas estreitam a amizade, Adhemar se tornando também mestre e influência do mineiro.

Apesar de tudo, o filme recebe severa crítica da revista, assinada por Pedro Lima, que criticava praticamente tudo do filme, começando por sua concepção, sua fotografia, suas imagens e, principalmente, sua linearidade. Isso fez com que o filme fracassasse tanto no Rio de Janeiro, quanto em Belo Horizonte, apesar de pagar os relativamente baixos custos de produção.

Antes mesmo do lançamento de Na Primavera da Vida, a Phebo Film inicia uma nova produção Os Mistérios de São Mateus (1926), roteirizado e dirigido por Comello. Um drama policial, o filme também não pôde ser concluído, devido às complicações da história insanáveis àquela altura do campeonato. Mas, o grupo estava animado e coeso, o que lhe possibilita a realização de dois filmes ao mesmo tempo, o policial acima citado e Tesouro Perdido (1926/27). As filmagens desse último filme se tornaram complicadas; Eva Nil, a estrela, com forte personalidade, se desentende com a produção, mais precisamente com Humberto, e abandona os sets de filmagens, tendo sido substituída pela esposa de Humberto, que atuou com o nome de Lola Lys. Era o início dos problemas da Phebo, mas, apesar de tudo, as filmagens continuam e o filme foi concluído.

O enredo do filme, também um faroeste, segue o mesmo padrão de Na Primavera da Vida, os
bons versus os maus. Suzana, a heroína, seu pai e os órfãos Bráulio e Pedrinho vivem felizes em uma granja. Entretanto, têm como vizinho um facínora de pior qualidade, Manuel Faca (vivido pelo próprio Humberto Mauro), que (também) freqüenta um boteco de última espécie, onde a principal atração é um jogo de dados. Um tesouro escondido pelos pais dos órfãos é disputado pelos irmãos e pelo bandido. O final é, obviamente, feliz.

Tesouro Perdido, em termos de construção global, surpreende a crítica, que elogia sua narrativa, a ação e os subentendimentos, um dos problemas mais discutidos entre Humberto Mauro e Adhemar Gonzaga. Cinearte inclusive considerou-o o melhor filme de 1927, mesmo não sendo lançado no Rio de Janeiro. Sempre foi o filme preferido do cineasta mineiro, ficando seus custos em torno de 29 contos de réis.
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Após Tesouro Perdido, a Phebo filma Brasa Dormida (1928, custo de 36 contos de réis), com uma novidade: Humberto e companhia abandonam o esquema semiprofissional e contratam profissionais do eixo Rio-São Paulo, o fotógrafo Edgard Brasil, um craque, o único a receber salário mensal alem do próprio Humberto, e a jovem atriz carioca Nita Ney, a protagonista do filme, que, tendo a boca um pouco torta, e por isso não fotografando bem, teve seu papel um tanto quanto diminuído.
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Concomitantemente, Adhemar Gonzaga e sua turma iniciam Barro Humano,(produzido em 1929, roteiro e direção de Adhemar, contando no gigantesco elenco com Gracia Moreno, Carlos Modesto, Lelita Rosa, Eva Schnoor, Eva Nil, Martha Torá, Luiza Del Vale, Oly Mar, Lia Renée, Carmen Violeta, Gina
Cavalieri, Manoel F. de Araújo, Esperança de Barros, Teófilo Luciano da Silva, Brutus Pedreira (homem loiro no baile, grande amigo de Paulo Francis), Adhemar Gonzaga, Pedro Lima, Álvaro Rocha, Paulo Benedetti, Raul Schnoor, Sílvio Schnoor, Milton Marinho, Ivan Villar, Paulo Morano, Maria Conceição Correia, Yvone Strada, Iria Miraino, Estela Mar, Francisco Soroa, Edgar Brazil, Maria das Dores, Ligia Macedo Soares, Margareth Edwards, Lourival Agra, Taciana Rei, Zaíra Fontenelle, Genesy Ribeiro Gonzaga, Alfredo Rosário, Sérgio Soroa, Humberto Mauro, Polly de Viena, Carmen Alves, William Schucair, Reynaldo Mauro e Bia Silva Melo) os dois filmes entrando na história da cinematografia brasileira por suas qualidades, muito avançadas à sua época. Barro Humano, inclusive, além do grande sucesso popular, uma das melhores bilheterias até então, ganhou do Jornal do Brasil e da revista Cinearte o título de Melhor Filme do ano
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Contudo, apesar do caráter cosmopolita de Brasa Dormida, uma vez que o Rio de Janeiro é o cenário de parte da produção, o cinema de Humberto Mauro é cada vez mais considerado provinciano, a maioria de seus filmes protagonizados por pessoas de Cataguases, sendo Humberto Mauro acusado, entre outras coisas, de se descuidar em seus filmes das etiquetas sociais, imperdoável para quem deseja fazer um cinema em moldes hollywoodianos, conforme desejo do pessoal da Cinearte. De qualquer forma, o filme, apesar das críticas dúbias, a maioria desfavorável, alcança razoável sucesso, o maior de Humberto Mauro até então.

Em 1929, a Phebo inicia mais uma produção, Sangue Mineiro, com roteiro elaborado pelo próprio Humberto e estrelado pela consagrada Carmem Santos, coadjuvada por Nita Ney, que entra na produção com parte dos investimentos. Os exteriores foram filmados em Belo Horizonte, então uma aprazível capital com ares de cidade do interior, procurada por doentes do pulmão de todo o Brasil, devido a seu clima ameno e temperado. Os interiores, num barracão de um dos integrantes do grupo, Agenor de Barros, transformado em estúdio de razoável qualidade para a época.

Humberto Mauro, já então senhor de bastante experiência, domina a linguagem cinematográfica em toda a sua extensão, o que permite o término do filme em tempo recorde. Mas, uma novidade traz com ela nuvens carregadas: o cinema mudo entra em crise profunda devido ao advento do cinema falado. O grupo da Cinearte entra em parafuso, e Sangue Mineiro, cujos custos alcançaram a razoável cifra de 48 contos de réis, tem cobertura insignificante, tanto da revista quanto de outros meios de comunicação.

Aliados a isso, os já conhecidos problemas de distribuição atrapalham mais ainda a carreira de Sangue Mineiro, porquanto os grandes grupos estrangeiros monopolizam o mercado, não dando bola para os filmes nacionais. E, com o surgimento do filme sonoro, as dificuldades aumentam mais ainda, todos à procura da novidade que estava assombrando o mundo inteiro. A Phebo, endividada e sem perspectiva, não dura muito mais tempo e logo fecha as portas. É o fim do “Ciclo de Cataguases”, uma das experiências mais importantes do cinema brasileiro.


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De forma que, ao contratar Humberto Mauro, Adhemar Gonzaga não precisava se preocupar com as filmagens; conhecia o cineasta mineiro, considerava-o o maior diretor brasileiro e admirava enormemente seus filmes.


Como a Cinédia contava com uma infra-estrutura bastante razoável, o filme foi concluído dentro do prazo previsto. Lábios Sem Beijos foi recebido com críticas contraditórias; se por um lado se reconhecia sua ótima fotografia e seu fino acabamento técnico, por outro, sua história, calcada em relações familiares - uma rica e linda garota, Lelita (Lelita Rosa), está enamorada de seu primo Paulo (Paulo Morano), mas que, no desenrolar do filme, tem razões de sobra para acreditar que ele está tendo um romance com a irmã, Gina (Gina Calavieri), confusão que, assim que esclarecida, permite o final feliz do filme -, com tratamento leve, foi tachada de "fútil" pela crítica.
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A Cinédia entra então em um ritmo de produção digno de nota. Em 1931, Otávio Gabus Mendes dirige Mulher, filme marcante pela ousadia de seu roteiro considerado forte para a época. Os filmes seguintes da companhia foram Onde a Terra Acaba (1933), de Otávio Gabus Mendes, e Ganga Bruta (1931/33), também dirigido por Humberto Mauro, este último sendo, atualmente, considerado um clássico do cinema nacional, entrando em quase todas as listas dos 10 melhores filmes brasileiros de todos os tempos. É um filme fortemente erótico e com conotações freudianas, apesar de ainda ter o sabor do interior de Minas Gerais
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O argumento de Ganga Bruta, de autoria de Octávio Gabus Mendes, roteirizado pelo próprio Humberto Mauro, com belo "score" musical de Radamés Gnatalli e de Humberto, narra a história de um jovem, Marcos (Durval Belline) que, ao se saber enganado pela noiva (Lu Marival) na noite docasamento, a mata alucinado. Absolvido tanto pela sociedade quanto pelo corpo de jurados, muda-se para uma pequena cidade do interior, contratado para serviços de construção. Nessa cidade, conhece Sônia (Déa Selva), loura e linda, porém já noiva de Décio (Décio Murilo) e por quem se apaixona. Quando descobre o que acontecia à sua volta, Décio, desesperado, se entrega à bebida, que lha dá forças para lutar pela mulher. Inconformado em perder a noiva, procura o rival para um acerto de contas. Completam o elenco Andréa Duarte, Alfredo Nunes, Ivan Villar, Carlos Eugênio, Francisco Bevilacqua, João Baidi, Humberto Mauro, Adhemar Gonzaga, Elsa Moreno, Renato de Oliveira e outros mais.
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Sobre a trilha sonora de Radamés e a canção Ganga Bruta, com letra de Joracy Camargo e música de Heckel Tavares, cantada por Jorge Fernandes, a revista Cinearte publicaria em 15 de abril de 1933, um mês antes de o filme ser efetivamente lançado:


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"(...) As demais músicas são motivos tirados da canção citada e do batuque. Há, ainda, isoladamente, uma outra canção da autoria de Heckel Tavares, com letra de Joracy Camargo. Essa canção é cantada por Jorge Fernandes, o conhecido cantor carioca, que é acompanhado por um grupo de notáveis violinistas, chefiados por Pereira Filho, considerado o melhor violinista do Rio, Jorge André e Medina. Ouviremos também algumas músicas portuguesas, executadas em guitarra por Pereira Filho, que por sua vez faz o solo d
o violão, que se ouvirá em várias partes da história. A canção de Heckel Tavares foi ensaiada por ele próprio, ensaio esse que se realizou no próprio estúdio, durante vários dias, com a presença de Déa Selva, que, aliás, canta trechos no filme. Todas essas músicas são genuinamente brasileiras. E terminando convém frisar ainda que a orquestra do Maestro Radamés foi composta dos mais exímios executantes que se poderiam desejar, entre eles Iberê Gomes, o melhor violoncelista da América do Sul.




Ganga Bruta não é um filme propriamente falado, mas não é silencioso: tem ruídos, falas, músicas e melodias que exprimem situações e muitas são as cenas silenciosas que falam mais do que a voz do movietone.


(...)
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Quando do relançamento de Ganga Bruta em Belo Horizonte (01.09.1984), Fernando Pires Fonseca publica no jornal Estado de Minas uma interessante matéria sobre o filme, que merece ser transcrita pelo que revela sobre a película, sua história e seus bastidores:



"O último filme ‘Made in Cascadura’, que vimos na Cinelândia, tinha dois metros de celulóide, esticando uma bobagem que caberia nas costas de um selo. O público rindo do drama até onde pôde e, quando não pôde mais, foi chorar o dinheiro da entrada na cama, que é lugar quente..." A bobagem a que o cronista Henrique Ponguetti se refere é o filme Ganga Bruta, que poucos dias antes estreara na Cidade Maravilhosa, cercado por chacotas e piadas de mau-gosto. ‘Abacaxi da Cinédia’, ‘o pior filme de todos os tempos’; o autor para muitos um ‘Borzage de São Januario’, ‘Freud da Cascadura’; a produtora do filme — Cinédia —, segundo outro, daria uma ‘esplêndida fábrica de goiabada’, e por aí afora. O senso de humor do pessoal não era dos ‘piores’: este tipo de recepção irônica a obras artísticas que fugiam ao senso dominante não era e não é novidade: anos antes, o poeta Augusto dos Anjos fora malhado impiedosamente pela crônica local; outro filme, Limite, recebera também críticas hostis, e etc. e etc..
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Quando da primeira exibição Ganga Bruta rendera parcos quinze mil réis, sumindo logo depois de circulação. Graças a Carl Scheiby ele foi resgatado: remexendo nos arquivos da Cinédia ele Mauro) e exibiu-o em 1952 na 1ª Retrospectiva do Cinema Brasileiro, obtendo então consagração. Assim, depois de considerado praticamente perdido, o filme ressuscitou por um acaso fortuito. Agora, graças ao empenho de empresas privadas, do governo Estadual e da Embrafilme, pudemos tomar contato com esta obra praticamente inédita para a novíssima geração.
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Infelizmente, só pude assisti-la uma vez, quando da abertura da mostra, cabeça sob leve efeito do coquetel e do blá-blá costumeiro que acompanha tais eventos; sendo assim, minha impressão inicial foi de perplexidade pura. Depois, o processo gradual de reconstruir as imagens na mente, o papo com os amigos a respeito, quando então podem surgir observações curiosas — ‘achei machista’ — analogias — lembrei os melodramas de Fassbinder... coisas de saída de cinema, que, afinal de contas, pertencem de certa forma ao objeto fílmico. Então pude ter uma impressão mais ou menos geral da obra. Pode-se dizer que estou assistindo-a há uma semana. ‘Ganga’, segundo a definição de Aurélio é um ‘resíduo, em geral inaproveitável, de uma jazida mineral’; e ‘um tecido forte, azul ou amarelo’.




Ganga bruta: um engenheiro mata a esposa na noite de núpcias. Motivo: ela o traía. Só teremos certeza disso no decorrer do filme, quando, em "flash-back", ele rememora o namoro, as suspeitas, o noivado e, por fim, o crime. E absolvido (como vêem, a história, afinal de contas, é assaz conhecida...) por unanimidade e refugia-se no interior (na dupla acepção da palavra). A metáfora obviamente remete ao engenheiro Marcos Resende, que após o crime torna-se um resíduo duro e forte como um minério, e justifica-se tendo em vista ser ele um engenheiro. Neste entrelaçamento de imagens, metáforas e alegorias, Humberto Mauro narra a sutil transformação de Marcos, inserida sempre num contexto marcadamente sensual, plástico, feérico e impressionista. O que sem dúvida atrai e surpreende em "Ganga Bruta" é esta forte carga de sensualidade, captada magistralmente por movimentos de câmera expressivos, nitidamente sensuais no modo como se aproximam dos objetos. Como já observou Glauber, este ‘é um filme (...) concebido com absoluta maturidade’.

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Humberto Mauro a consegue de maneira algo despretensiosa, vezes desequilibrada, utilizando efeitos naturalmente da época, como exemplo o excesso de metáforas (que, como já percebemos, iniciam-se a partir do próprio título) facilmente constatáveis tanto no cinema que se fazia quanto na literatura. Deve-se registrar, já que falei em literário, este natural parentesco literário (que afinal de contas atingiu na época proporções maiores, vide Semana de Arte Moderna de 22, movimentos europeus de vanguarda) que a obra de Humberto Mauro apresenta, sem esquecer que boa parte de seus primeiros filmes realizaram-se sincronicamente à existência da revista ‘Verde’ de Cataguases. Em Ganga Bruta traços de José de Alencar podem ser discernidos sem maiores esforços, que, felizmente, não influi muito. Alguém já notou que se Humberto Mauro tivesse se tornado romancista sua contribuição para nossa cultura teria sido nula; felizmente ele resolveu contar suas histórias em imagens. E aí sua contribuição é inigualável, além de viva.

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Assistam Ganga Bruta, esqueçam a lorota do deslumbrado articulista e confiram. Garanto que não irão chorar o dinheiro da entrada na cama, as poltronas do cinema (nem todos é claro) também são quentes."


A Cinédia lançaria a seguir: Honra e Ciúme (1933), de Antônio Tibiriçá, e A Voz do Carnaval (1933), este dirigido pela dupla Humberto Mauro/Adhemar Gonzaga, um semidocumentário,que intercalava cenas de desfiles de ruas – desfile de corsos, batalhas de confetes etc. – com outras filmadas em estúdio, e que foi o primeiro filme falado e carnavalesco da companhia; Alô, Alô, Brasil (1935), dirigido por um astucioso americano, Wallace Downey, e roteirizado pela dupla do barulho, João de Barro e Alberto Ribeiro (que também auxiliaram na direção).


A dupla, fortemente ligada ao rádio e aos discos, introduz vários números musicais no filme: Cidade Maravilhosa (André Filho), com Aurora Miranda, Foi Ela (Ary Barroso), com Francisco Alves, Muita Gente Tem Falado de Você (Mário Paulo e Arnaldo Pescuma), com o Bando da Lua (que logo estaria acompanhando Carmen Miranda em sua aventura hollywoodiana), Primavera no Rio (João de Barro), com Carmem Miranda, Rasguei a Minha Fantasia (Lamartine Babo), filme que conta no elenco com o galã Mário Reis e com meio mundo do meio artístico carioca, despontando Almirante, Francisco Alves, Ary Barroso, Sílvio Caldas, Virgínia Lane etc. e ponham etc. nisso.


Caetano Veloso interpretando Cidade Maravilhosa





Carmen Miranda interpretando Primavera no Rio.



Olívia Byington interpretando Primavera no Rio.



Dalva de Oliveira e Leila Diniz interpretam
Primavera no Rio.




Francisco Alves interpretando Foi Ela no filme Alô, Alô, Brasil.




E, na esteira deste último musical, grande sucesso de público quando lançado às vésperas do carnaval, quase que imediatamente, os estúdios lançam Estudantes (1935), da mesma equipe anterior. O filme, em cujo elenco pontificam Carmen Miranda, Mário Reis e Aurora Miranda, narra a história de uma cantora do rádio (Carmen Miranda), que joga seu charme sobre uma turma de estudantes, deixando dois deles (Mesquitinha e Barbosa Júnior) apaixonados e dispostos a conquistá-la. Só que a garota é apaixonada por outro (Mário Reis), mesmo não cortando o barato dos dois enamorados.


O filme é, mais uma vez, um desfile de sucessos musicais, a maioria tornando-se clássicos da música popular brasileira: Linda Mimi (João de Barro), com Mário Reis, Onde Está Seu Carneirinho (Custódio Mesquita), com Aurora Miranda, Lalá (João de Barro e Alberto Ribeiro), com o Bando da Lua, E Bateu-se a Chapa (Assis Valente), com Carmen Miranda, Assim Como o Rio (Almirante), com o próprio compositor, e outros.



Depois de se aventurar de forma não muito bem sucedida em duas produções com um grupo argentino (Noites Cariocas e Carioca Maravilhosa), à sombra ainda do sucesso de Alô, Alô, Brasil, a Cinédia lança, em 1936, o longa Alô, Alô, Carnaval, com retumbante sucesso. Dirigido por Adhemar Gonzaga, e com os mesmos roteiristas (Braguinha e Alberto Ribeiro), o filme, narrando as dificuldades de dois autores em conseguir um empresário para uma revista por eles intitulada Banana-da-Terra. Quando vão a um cassino, lembram-se de que ali seria o local ideal para a montagem do espetáculo e procuram o empresário que recusa a oferta. Mas, como a atração contratada pelo empresário não chegara da França, ele corre em busca dos dois e aceita a revista.


E durante o desenrolar do espetáculo, as coisas mais incríveis acontecem. Neste filme, como já estava se tornando moda nos estúdios Cinédia, desfilam na película dezenas de clássicos da MPB, com destaque para Pierrot Apaixonado (Noel Rosa/Heitor dos Prazeres), com Joel de Almeida e Gaúcho; Manhãs de Sol (Braguinha/Alberto Ribeiro), com Francisco Alves; Pirata da Areia, da mesma dupla anterior, interpretada por Dircinha Batista; A.M.E.I. (Frazão/Nássara), também com Francisco Alves; Linda Mimi (Ary de Calazães Fragoso), com Luiz Barbosa; Não Beba Tanto Assim (Geraldo Decourt), com as Irmãs Pagãs; Negócios de Família (Assis Valente e Hervê Cordovil), com o Bando da Lua e dezenas de outros, culminando com a hoje célebre Cantoras do Rádio, imortalizada pelas irmãs Carmen e Aurora Miranda.
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Carmen e Aurora Miranda interpretando Cantoras do Rádio no filme Alô, Alô, Carnaval.



Carmen Miranda interpretando Querido Adão no filme Alô, Alô, Carnaval.




Joel e Gaúcho interpretando Pierrot Apaixonado no fillme Alô, Alô, Carnaval.



Joel e Gaúcho interpretando Maria, Acorda Que é Dia no filme Alô, Alô, Carnaval.



Alzirinha Camargo interpretando Cinqüenta Por Cento no filme Alô, Alô, Carnaval.



Francisco Alves interpretando Comprei Uma Fantasia de Pierrot no filme Alô, Alô, Carnaval.



Francisco Alves interpretando Manhãs de Sol no filme Alô, Alô, Carnaval.



Dircinha Batista interpretando Muito Riso, Pouco Ciso no filme Alô, Alô, Carnaval.



Mário Reis interpretando Teatro da Vida no Filme Alô, Alô, Carnaval.



Mário Reis interpretando Cadê Mimi no filme Alô, Alô, Carnaval.



Francisco Alves interpretando A.M.E.I. no filme Alô, Alô, Carnaval.



Bando da Lua interpretando Negócios de Família no filme Alô, Alô, Carnaval.



Luiz Barbosa interpretando Seu Libório no filme Alô, Alô, Carnaval.





Reza a lenda que Aracy de Almeida participaria do filme, interpretando Palpite Infeliz, de Noel Rosa, vestida de lavadeira, estendendo roupa no varal. A cantora teria desistido de sua participação, tendo Noel Rosa retirado a canção do filme.


A este sucesso, segue-se outro de igual proporção: Bonequinha de Seda (1936), considerado por diversos críticos como um dos filmes mais importantes da década de 30 e a primeira superprodução brasileira. Dirigido por Oduvaldo Viana Filho (responsável também pelo argumento e pelos diálogos), o filme tem como mocinha a atriz Gilda de Abreu,que, alguns anos depois, se tornaria famosa, quando dirige um dos maiores êxitos do cinema brasileiro, O Ébrio (1946), com o seu famosíssimo marido , Vicente Celestino. Oduvaldo desenvolveu um roteiro em que a jovem Marilda (Gilda de Abreu) começa a freqüentar a alta sociedade carioca, passando-se por uma pequena francesa, educada em Paris e chegada há pouco da Europa. Sua presença nos salões causa sensação, conquistando a todos tanto pela presença como pela educação que demonstra. Ela então começa a ser cortejada por todos os rapazes da elite, ao mesmo tempo em que desperta a inveja das garotas em virtude de seus belos vestidos e seu esmero em se vestir. Todos comentavam que tanta elegância só poderia ser ostentada por alguém vindo da civilizada Paris.


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Como a garota era mais brasileira do que nunca, todos os seus vestidos confeccionados aqui mesmo no Brasil, o filme termina por ser uma ácida crítica à atitude de certa parcela da população que só vê qualidade e beleza no que vem do estrangeiro.



Comentava-se que o enredo fora desenvolvida para Carmen Miranda que, devido a outros compromissos, não pôde atuar na película. Gilda de Abreu foi, então, convidada, tendo o roteiro sido totalmente reescrito para adaptar-se à personalidade da nova estrela. Comentava-se, também, que Gilda teve de fazer uma plástica nas maçãs do rosto com um cirurgião sueco em São Paulo, pois nos testes do filme a artista aparecia com as maçãs fundas. Seja como for, o estrondoso sucesso do filme, tanto de público quanto de crítica, assombrou todo o mundo da Cinédia; a película ficou mais de um mês em cartaz, por isso, atrasando o lançamento de diversos filmes de Hollywood.



E, ao longo dos anos, atravessando a década de 30 e entrando na de 40, a Cinédia lançaria dezenas e dezenas de títulos, O Jovem Tataravô (1936), direção de Luiz de Barros, com Marcel Klass encabeçando o elenco; Caçando Feras (1936), dirigido por Líbero Luxardo, com Barbosa Júnior no papel principal; O Descobrimento do Brasil (1937), dirigido e roteirizado por Humberto Mauro, com Álvaro Costa no papel de Pedro Álvares Cabral e Manoel Rocha como Pero Vaz de Caminha; Samba da Vida (1937), dirigido por Luiz de Barros e com Jayme Costa encabeçando grande elenco (chamando a atenção a presença no filme da extraordinária dançarina Eros Volúsia); Alegria (1937), o inacabado filme de Oduvaldo Vianna; Alma e Corpo de uma Raça (1938), com direção, argumento, roteiro e diálogos a cargo de Milton Rodrigues. Este filme é um semidocumentário da epopéia do esporte (primeiro filme a mostrar uma partida de futebol, no caso um Fla X Flu), também sendo o primeiro em longa-metragem com quase todo o elenco composto por artistas amadores e atores de teatro, chamando, também, a atenção a participação de esportistas amadores do Flamengo; Aruanã (1938), outro filme tipo semidocumentário da companhia dirigido, produzido e roteirizado por Líbero Luxardo; Maridinho de Luxo (1938), direção de Luiz de Barros, com Mesquitinha no papel principal e trazendo no elenco, em pequeno papel, a futura estrela da Atlântida, Fada Santoro; Tererê Não Resolve (1938), outra comédia (foi produzida em apenas uma semana) dirigida por Luiz de Barros, outra vez com Mesquitinha encabeçando o elenco; Está Tudo Aí (1939), filme, dessa feita dirigido pelo astro da companhia, Mesquitinha que, também, é o ator principal. A novidade nessa produção é a presença, em pequeno papel, do futuro superastro da Atlântida, Oscarito; Joujoux e Balangandãs (1939), direção de Amadeu Castelaneta, filme independente, baseado na revista de espetacular sucesso homônima, tendo a Cinédia alugado os equipamentos e os estúdios a preços de custo para colaborar com a primeira-dama, dona Darcy Vargas; Onde Está a Felicidade (1939), direção, roteiro e montagem a cargo de Mesquitinha, dessa feita com o galã Rodolfo Mayer em seu primeiro papel como protagonista.



O primeiro filme a ser produzido nos estúdios da Cinédia na década de 40 foi Direito de Pecar (1940), na realidade, uma produção da Pan América Filmes, direção e argumento de Léo Marten, trazendo no elenco César Ladeira e Nilza Magrassi nos papéis principais. Vieram a seguir: Eterna Esperança (1940), uma co-produção entre a produtora paulista Companhia Americana de Filmes com a Cinédia, dirigida novamente por Léo Marten, cuja importância se deve ao fato de ter sido a primeira película a contar com dublagem no Brasil; Pureza (1940), direção e cenários do espetaculoso Chianca de Garcia, baseado no romance homônimo de José Lins do Rego, com Procópio Ferreira como ator principal. Foi considerado o melhor filme de 1940; 24 Horas de um Sonho (1941), outro filme dirigido por Chianca de Garcia e que traz a diva do teatro brasileiro da década de 40 Dulcina de Moraes como protagonista; O Dia é Nosso (1941), argumento e direção de Milton Rodrigues, diálogos acaipirados de José Lins do Rego, Genésio Arruda (Caipira Guarabira), Paulo Gracindo (Campos), Roberto Acácio (Médico), Oscarito (Dr. Lemos), Sadi Cabral (Vendedor de bilhetes) e a estrela Nelma Costa (Enfermeira) nos papéis principais; Sedução do Garimpo (1941), com Luiz de Barros, novamente, se encarregando de tudo, da direção, argumento, roteiro e montagem, filme com pretensões de atingir o mercado norte-americano (contratando, por isso, dois atores desse país, Frank Mazzone e Dianne Dreene), sendo o primeiro a ter diálogos em inglês e espanhol. Ambientado na misteriosa selva brasileira, o filme foi, na realidade, filmado na então remota Barra da Tijuca; Tudo é Verdade/I’ts All True (1942), filme inacabado de Orson Welles, filmado em parte nos estúdios da Cinédia; Abacaxi Azul (1943), outra comédia carnavalesca, uma espécie de revista musical, produzida e dirigida por Wallace Downey, com dezenas de números musicais, Acontece Que Eu Sou Baiano (Dorival Caymmi), com o próprio autor, Oh! Suzana (Braguinha), com Marilu Dantas, Voltemos a Viena (Paulo Barbosa e Osvaldo Santiago), com Dircinha Batista, Luar de Paquetá (Hermes Fontes e Freire Júnior), com Arnaldo Amaral e Enide Braga; Vestido de Bolero (Dorival Caymmi), com os Anjos do Inferno, intérpretes também de Antonico Ficou Rico (Antônio Almeida e Roberto Roberti) e diversas outras.


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Rosa Passos interpretando Vestido de Bolero.




Caetano Veloso e João Gilberto interpretando Acontece Que eu Sou Baiano.










E mais: Caminhos do Céu (1943), drama sentimental dirigido por Milton Rodrigues, tendo o galã Celso Guimarães no papel principal, secundando um elenco em que participam Rosina pagã, Eros Volúsia, Grande Otelo, Luiz Tito, Sarah Nobre, Grijó Sobrinho, Nilza Magrassi e outros; Samba em Berlim (1943), outra comédia musical de Luiz de Barros recheada de números musicais, Vatapá (Dorival Caymmi), com os Trigêmeos Vocalistas, Nós, as Mulheres (Jararaca e Jorge Murad), com Jararaca e Ratinho, Conceição (Herivelto Martins), com Linda Batista, A Lenda do Abaeté (Dorival Caymmi(, com o Trio de Ouro, também intérpretes de Praça Onze (Grande Otelo e Herivelto Martins), Ela (outra composição de Herivelto Martins, em parceria com Príncipe Pretinho), com Francisco Alves, Danúbio Azulou (Nássara e Frazão), com Virgínia Lane, número musical que foi vetado pela censura, e muitos outros.
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Gal Costa interpretando Vatapá.



Patrícia Costa interpretando A Lenda do Abaeté.




O sucesso dessa última película – que trazia Mesquitinha, a iniciante Dercy Gonçalves, a estrela do teatro Laura Suarez, Grande Otelo (antes da fama), Ziembinski (que, nesse ano revolucionaria o teatro brasileiro com sua montagem de Vestido de Noiva, de Nelson Rodrigues), Grijó Sobrinho, Catalano e outros – foi especial para a Cinédia, pois os estúdios estavam passando por dificuldades financeiras por causa dos percalços da guerra, já que era impossível conseguir matéria prima, principalmente o “positivo”, para fazer mais cópias.


Em seguida veio Berlim na Batucada (1944), outra comédia musical escapista de Luiz de Barros, cujo título se inspirou nas notícias chegadas ao Brasil dos bombardeios efetuados pela FAB sobre a capital alemã. O filme tem tantos números musicais que fica até maçante elencá-lo: A Tristeza (Herivelto Martins e Heitor dos Prazeres), com Léo Albano e Luizinha Carvalho; Verão do Havaí (Benedito Lacerda e Haroldo Lobo), com Fada Santoro (dublada por Dalva de Oliveira, já mostrando suas garras), Silenciar a Mangueira, Não (Herivelto Martins e Grande Otelo), com Francisco Alves; A Marcha do Boi (Pedro Camargo), com os Trigêmeos Vocalistas; Bom Dia, Avenida (Herivelto Martins e Grande Otelo), com o Trio de Ouro; Odete (Herivelto Martins e Dunga), com Leo Albano, Quem Vem Descendo (Herivelto Martins e Príncipe Pretinho), com o Trio de Ouro, Francisco Alves e as girls dos cassinos da Urca e Icaraí, e muitos, muitos mais.



A II Guerra Mundial, nesse momento contando com a participação de praticamente toda a Europa e os Estados Unidos, estava prejudicando bastante o cinema brasileiro, com reflexos até a década de 50, porquanto, por estarem racionados, também não existiam negativos suficientes para as filmagens, muito menos produtos químicos de laboratório. A Cinédia sentia na pele o problema, mas, mesmo assim, isso não impediu que vários filmes fossem produzidos: O Brasileiro João de Souza (iniciada em 1942, mas, somente lançado em 1944), primeiro filme antinazista produzido no Brasil, direção, produção, argumento e roteiro de Bob Chust, montagem e direção artística a cargo de Ziembinski (que também interpretava um espião alemão, sendo, na verdade um refugiado dessa mesma guerra); Corações Sem Piloto (1944), outra comédia de Luiz de Barros, cuja maior atração é a estréia de Marlene (cantando Arrasta o Pé, de Peterpan e Afonso Teixeira) e do locutor César de Alencar no cinema nacional; Romance Proibido, filme iniciado em 1939, mas lançado no mercado nesse ano de 1944.

Adhemar Gonzaga, que sempre produzia as películas da Cinédia, dessa feita, também, dirigiu e fez o argumento e o roteiro. Mais uma vez, o elenco secundário é que chama a atenção, porquanto, muitos deles se tornaram, mais tarde, estrelas do cinema nacional, a exemplo de Fada Santoro, Grande Otelo, Violeta Ferraz, Osvaldo Loureiro e Dercy Gonçalves; O Cortiço (1945), um dos poucos dramas dirigidos por Luiz de Barros para a Cinédia, baseado no romance realista e considerado pornográfico homônimo de Aluízio Azevedo, contando no elenco com Manoel Vieira (João Romão), Miguel Orico (Jerônimo), Manoel Rocha (Bardo Miranda), Colé (em seu primeiro filme, no papel de Firmo Capoeira), Horacina Corrêa (Rita Baiana) e outros.



O Cortiço foi eleita pela Associação Brasileira de Cronistas Cinematográficos e pela Academia Brasileira de Letras como a melhor produção brasileira de 1945, tendo Luiz de Barros recebido a estatueta Índio, do Jornal de Cinema, como melhor prêmio de direção. Não obstante o sucesso de crítica, o filme foi um fracasso de público, deixando os estúdios em situação complicada; Pif-Paf (1945), revista musical carnavalesca dirigida a quatro mãos por Adhemar Gonzaga e Luiz de Barros, trazendo Marlene como a mocinha e dezenas de números musicais, Isto é Brasil (Vicente Paiva e Sá Roriz), com a própria Marlene, Quero Ver Você, Disse Que é do Samba, Morro (todas de autoria de Waldemar Abreu e de Mário Rossi), com Herivelto Martins e seu grupo de samba, solos de Dalva de Oliveira, Ai, Adélia (Germano Augusti e Zé Gonçalves), com Zé e Zilda, além de outras; Caídos do Céu (1946), outra comédia musical de Luiz de Barros, que tem sua importância por ter sido a primeira produção após o fim da segunda guerra mundial, imortalizando, pela quantidade enorme de números musicais, o carnaval de 1946, o “carnaval da vitória”. Só para se ter uma idéia, apresentaram números musicais no filme Adoniran Barbosa, Isaurinha Garcia (duas músicas), Zé e Zilda, Trio de Ouro, Marly Lincoln, Geraldo Pereira (duas músicas), Dercy Gonçalves, Herivelto Martins, Francisco Alves, Olinda Alves, Ruth Martins, Linda Batista (duas músicas), Marlene, Nilton Paz, Ataulfo Alves e suas pastoras e Horacina Corrêa; O Ébrio (1946), um melodrama com direção de Gilda de Barros, argumento de Vicente Celestino, cantor que passava por altíssimos índices de popularidade, e que também foi escolhido para o intérprete principal do filme.


O Ébrio transformou-se em um fenômeno de público, um dos maiores, senão o maior sucesso da Cinédia. A nota cômica sobre a película é que ela estreou na Cinelândia exatamente no dia de um grande quebra-quebra no local, devido ao aumento dos preços dos ingressos no cinema.




Vicente Celestino interpretando O Ébrio no filme homônimo.





Vicente Celestino interpretando Porta Aberta no filme O Ébrio.



Devido a diversos problemas, a Cinédia
fi
caria vários anos sem produzir nenhum filme (motivo pelo quais os boatos sobre seu iminente fechamento gan
haram força), alugando, nesse ínterim, seus estúdios para produções de terceiros, como foi o caso de Esta é Fina (1948) –, um filme menor, rodado em exatamente sete dias, com direção, roteiro e cenografia de Luiz de Barros para a Laboratórios Eletrônicos Brasileiros Ltda., financiada por Mário Falaschi. Com elenco inexpressivo, o filme chama a atenção pela quantidade de sucessos carnavalescos e de meio de ano que apresenta, muitos se tornando clássicos da música popular brasileira, como é o caso de Falta um Zero no Meu Ordenado (Ary Barroso/Benedito Lacerda), com Francisco Alves, Tem Gato na Tuba (João de Barro/Alberto Ribeiro), com Nuno Roland, Caminhemos (Herivelto Martins), com Cláudio Nonelli, A Mulata é a Tal (Braguinha/Antônio Almeida), com Joel de Almeida, Princesa de Bagdá (David Nasser/Haroldo Lobo), com Nelson Gonçalves, Minueto (Herivelto Martins/Benedito Lacerda), com o Trio de Ouro, Não me Diga Adeus (Paquito/Correia da Silva/Luís Soberano), com Aracy de Almeida, Gabriela (Romeu Gentil/W. Goulart), com Marlene, Baiana Escandalosa (José Batista/M. Batista), com Dircinha Batista, além de outros.



Turma do Balão Mágico interpretando Tem Gato na Tuba, música apresentada no filme Esta É Fina.





Tânia Alves e Trio Irakitan interpretam Caminhemos, música apresentada no filme Esta É Fina.



Elisete Cardoso e Elza Soares interpretando Não me Diga Adeus, música apresentada no filme Esta é Fina.



Também, nesse mesmo ano, foi realizado, em regime de co-produção com a Dipa Filmes e com a mesma Laboratórios Eletrônicos do Brasil Ltda., o filme Fogo na Canjica, outra pequena produção em que Luiz de Barros fez, em pouco mais de 15 dias, quase tudo, direção, roteiro, edição e cenografia. No elenco, o galã Orlando Vilar, Olivinha Carvalho Silveira Lima e diversos artistas fam
osos, Linda Batista, Dircinha Batista, Quatro Ases e Um Coringa, Trio de Ouro e Jararaca e Ratinho. Outra co-produção desse ano, dessa feita com a Proarte, foi Mãe, baseada em argumento do novelista da Rádio Nacional, Giuseppe Ghiaroni e que foi dirigida por Theófilo de
Barros Filho. Um melodrama no melhor estilo mexicano, tipo “Madame X” à brasileira, Mãe traz Alma Flora no papel principal, secundada pelo pianista Bené Nunes (em seu primeiro filme), Amadeu Celestino e, em pequenas participações, a deusa do teatro, Luiza Barreto Leite, Olney Cazarré, César Ladeira, Delorges Caminha, Dary Reis e, estreando nas telas, o futuro nelsonrodrigueano Jorge Dória.



Quando Moacir Fenelon “dançou” na Atlântida, perdendo seu posto para Luiz Severiano Ribeiro Júnior, ele organizou a Cine Produções Fenelon, rodando, também nesse ano de 1948, seu primeiro filme, Obrigado, Doutor, outra versão cinematografia de uma peça radiofônica de um radialista da Rádio Nacional, Paulo Roberto, em co-produção com a Cinédia. Contando a história de um médico levado a cometer um crime e que, por amor à profissão, acaba denunciando-se a si mesmo, o filme, com pouco sucesso de público, foi eleito o Melhor Filme do ano pela Associação Brasileira de Críticos Cinematográficos, ficando ainda com os prêmios de Melhor Direção (Moacir Fenelon) e Melhor Interpretação (Rodolfo Mayer).



Emilinha Borba, nesse ano de 1948, já era a maior estrela do rádio brasileiro, sua popularidade, um fenômeno da cultura de massas. Aproveitando essa fama, Moacir Fenelon produziu e dirigiu, novamente em regime de co-produção com a Cinédia, Poeira de Estrelas, um desfile musical com ela no papel principal, acompanhada de uma das mais belas cantoras brasileiras de então, Lourdinha Bittencourt. Os números musicais dominam a cena: Boneca de Piche (Ary Barroso), com Emilinha Borba e Lourdinha Bittencout; Contraste (José Maria Abreu e Alberto Ribeiro) com Emilinha Borba; Quando Eu Penso na Bahia (Ary Barroso), com Lourdinha Bittencourt e Emilinha Borba; Você Quer Casar Comigo? (David Nasser e Hervê Cordovil), com Lourdinha Bittencourt e Emilinha Borba; Moreno Extraordinário (Nilo Moreira), com Lourdinha Bittencout e Emilinha Borba; Rumba (Guerra Peixe), com Bicalho y sus Rumberos; Dança Oriental (Guerra Peixe); Linda Flor (Henrique Vogeler, Luís Peixoto e Marques Porto), com Emilinha Borba; Devoção à Bahia (André Rosito e Aluízio Silva Araújo), com Lourdinha Bittencourt; Tico-Tico no Fubá (Zequinha de Abreu), com Trio Guarás, dentre outros.

Emilinha Borba e Lourdinha Bittencourt interpretando Quando Penso na Bahia, cena do filme Poeira de Estrelas.



Betty Faria e Grande Otelo interpretam Boneca de Piche, música apresentada no filme Poeira de Estrelas.



Olívia Byington interpretando Quando eu Penso na Bahia (Ary Barroso), música apresentada no filme Poeira de Estrelas.



Elis Regina interpretando Linda Flor (Vogeler/Peixoto/Porto), apresentada no filme Poeira de Estrelas.





Carmen Miranda interpretando Tico-Tico no Fubá (Zequinha de Abreu), música apresentada no filme Poeira de Estrelas.



Porém, mesmo sendo a empresa cinematográfica de maior representatividade da década de 30 e, de certa forma, da de 40 (agora competindo com os estúdios Atlântida), a Cinédia não conseguiu mes
mo escapar das dificuldades. Nos últimos anos dos 40, como vimos, para tentar ultrapassá-las, cede seus laboratórios para outras companhias, aluga seus estúdios para outros produtores e, mais importante, inicia uma parceria com o governo e com empresários, realizando até filmes de propaganda sob encomendas. Mas, nada mais seria como antes. O pós-guerra alterara as relações de produção com as quais a Cinédia não soubera (ou pudera) lidar. E assim, apesar de ainda ter terminado a produção de mais alguns filmes, Estou Aí, (1949), co-produção com a Cine Produções Fenelon, direção de Cajado Filho, onde Emilinha Borba além de atuar, apresentou um de seus maiores sucessos carnavalescos de todos os tempos, Chiquita Bacana; O Homem Que Passa, um melodrama com pretensões freudianas, também de 1949, outra colaboração entre Fenelon e a Cinédia, direção de Moacir Fenelon, Rodolfo Mayer e Lourdinha Bittencourt encabeçando o elenco); Um Pinguinho de Gente, cujas filmagens se iniciaram pouco depois de O Ébrio, no
início de 1947, mas, devido às conhecidas dificuldades, lançado somente no final de 1949, produzido por Adhemar Gonzaga, dirigido por Gilda de Abreu e estrelado por Anselmo Duarte e Vera Nunes; Vendaval Maravilhoso (1949), uma película dirigida por Leitão de Barros; Um Beijo Roubado, de 1950, com direção de Léo Marten, tendo Cyll Farney e Marlene encabeçando o elenco, filme em que Dick Farney interpreta a mítica Copacabana (João de Barro e Alberto Ribeiro); Agüenta Firme, Isidoro (1950/1951), dirigido por Luiz de Barros, trazendo no elenco Totó, Nelma Costa, Zé Trindade, Zaquia Jorge, a “Vedete de Madureira” e Violeta Ferraz; Loucos Por Música, cujas filmagens se iniciaram no já longínquo ano de 1945, mas lançado tardiamente em 1950, dirigido por Adhemar Gonzaga, e com Lena Monteiro (cantora lírica que atuava no Teatro Municipal), Colé, Walter Dávila, Jararaca e Ratinho, Mara Rúbia e Marlene nos papéis principais; Somos Dois (1950), uma parceria entre a Cinédia e o diretor Milton Rodrigues, dirigido pelo próprio Milton Rodrigues, filme em que os diálogos foram feitos por Nelson Rodrigues, Com Dick Farney e Marina Cunha nos papéis centrais; Todos Por Um, comédia carnavalesca de 1950 dirigida por Cajado Filho, cujo único interesse são os números musicais, dentre eles General da Banda (Tancredo Silva/Sátiro de Melo/José Alcides) e Rei Zulu (Nássara/Antônio Almeida, com Blecaute, EscocesaEu Já Vi Tudo (Peterpan/Amadeu Veloso), cantada em duo pelas rivais Marlene e Emilinha Borba, dentre outras; e, por fim, Anjo no Lodo (Dunga/Vicente de Abreu), com Emilinha Borba, (1950/1951), o último filme da colaboração Luiz de Barros/Cinédia, tendo a vedete Virgínia Lane como estrela, secundada por Cláudio Nonelli, Geny França Carlos Contrim, Manoel Vieira, Zé Trindade e outros.


Este filme teve sérios problemas com a censura, sendo liberado para ser exibido somente para maiores de 18 anos. Acontece que os moralistas de plantão começaram uma violenta campanha contra o filme, dentre eles o então deputado do PDC e futuro presidente do Brasil, Jânio Quadros, que, novamente, foi proibido de ser exibido em todo o território nacional. No entanto, após uma campanha liderada por intelectuais de peso, José Lins do Rego, Antônio Olinto, Edmundo Lyz, Prudente de Morais Neto e outros, a película foi liberada, após o corte de uma determinada cena, completamente inocente nos dias de hoje, com a silhueta de Virgínia Lane, de pé sobre uma mesa, refletida na parede.



Acontece que era mesmo o fim. Dessa forma, não obstante existir até hoje, os estúdios Cinédia não agüentaram o rojão, terminando, em 1949 (e em parte de 1950), como palco de produções cinematográficas sistemáticas e diversas, essa admirável aventura do cinema nacional, fim de um sonho que durara por mais de 20 anos.



3 comentários:

Blogger Ronaldo Junior said...

Primeiramente, parabéns pela sua pesquisa. Muito mas muito bem elaborada. Além disso, gostaria de entrar em contato contigo para saber um pouco mais sobre a Maristella, produtora de cinema de 1951, pois preciso montar um material para um trabalho do meu curso de fotojornalismo.

Meu email é ronaldo@comtatos.net

Um grande abraço e mais uma vez parabéns!

Ronaldo Junior

27/4/09  
Anonymous MEMORIA TV CINEMA said...

FILMES NACIONAIS RARÍSSIMOS, PERDIDOS ETC, TELECINADOS DE PELICULAS 16MM
COMO "O CARA DE FOGO", SEDUÇÃO DO GARIMPO E MUITOS OUTROS
PEÇA LISTA PELO E-MAIL MAGOBARDO@YAHOO.COM
acervo parcial de DVDs raros
http://memoriatvcinema.net46.net

6/3/10  
Blogger corisco said...

so lembrando que o artif=go citado pro você como de Fernando Pedro Fonseca, foi na verdade de Fernando Pires Fonseca. Um abço

3/5/11  

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