14.9.06

O CARNAVAL DO HORMÔNIO

O carnaval de 1959, em termos musicais, pode ser considerado indigente. Apesar do lançamento de centenas e centenas de sambas e marchinhas, a qualidade das composições foi, mais uma vez, de uma indigência total. Como estava acontecendo nos últimos anos, com as exceções de sempre, os grandes ídolos novamente fracassaram, dando lugar aos oportunistas de plantão e a uma nova tendência que iria se fortalecer ao longo dos anos vindouros, o surgimento (e domínio) dos cômicos advindos da televisão, que começaram em peso a gravar para o carnaval, em uma clara demonstração de que os tempos dos ídolos populares estavam com seus dias contados. O fortalecimento da televisão, propiciando que vários comediantes gravassem para o carnaval, iria ser, dentro de muito pouco tempo, o túmulo da grande maioria dos ídolos radiofônicos, já acossados pelo surgimento do rock and roll e da bossa nova; novos tempos estavam batendo à porta do show business brasileiro, trazendo, como conseqüência, alterações profundas no panorama musical do carnaval brasileiro. O carnaval das marchinhas e sambas carnavalescos, com aquela força que sempre o caracterizou, estava com seus anos contados.

Como usual, dos grandes nomes, Emilinha Borba foi das poucas a não fracassar nesse carnaval. Sua marchinha Mamãe eu Vou às Compras, de Jota Júnior (autor de grandes sucessos do carnaval como a maliciosa Mamãe eu Levei Bomba, composta em parceria com Oldemar Magalhães, Sapato de Pobre e Lata d’Água na Cabeça, ambas com Luiz Antônio, o mega sucesso Sassaricando dentre outros) e Castelo, capturando o espírito da época, em que as mulheres, como resposta ao espírito de liberdade que se respirava no Brasil, estavam começando a se libertar dos dogmas do conservadorismo, algumas, porém, caindo nas garras do novo fenômeno da chamada “juventude transviada”, terror das moças casadouras das grandes metrópoles, foi um dos grandes sucessos da temporada carnavalesca. A letra desta marchinha constata as dissimulações elaboradas pelas garotas para sair de casa e cair na farra, ao mesmo tempo em que deixa claro que todo cuidado é pouco para elas nesses novos tempos de mudanças de costume:
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“Mamãe eu vou às compras
Não vou me demorar
Qua! qua! qua! qua!
Dizia Maria
E todo dia se atrasava pro jantar.

Voltinhas na garupa da lambreta
Festinhas lá na casa da Zezé
Maria, raiou o dia
E você perdeu a hora do café.”

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Emilinha lançou também a marchinha Serapião, de autoria de Alberto Maya e Sílvio Kant, uma das mais bem elaboradas desse carnaval, que, entretanto, não teve o destaque que merecia:


“Serapião tinha dinheiro pra xuxu
Oh, oh!
Mas não podia ver rabo-de-saia
Ficou na pindaíba,
E acabou em Sepetiba
Vendendo Siri na Praia.

Siri, Olha o siri
Tá fresquinho, tá quentinho
E assim sentado na areia
Vende siri
Quem comprou tanta sereia...“

O cômico Mário Tupinambá, que ficaria famoso na televisão com o bordão “camarão é a mãe” e dando vida ao personagem "bertoldo Brecha" na escolinha do professor Raimundo (Chico Anísio), aproveitando-se do sucesso de uma quadro de um programa humorístico, obteve êxito mediano com a marcha Peço a Palavra, de Max Nunes e J. Maia, bastante executada e cantada:
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“Peço a palavra
Não tenho assunto, mas quero é discursar
Sou deputado baiano
Eu quero é falar.

Vou falar pouco pra falar de coco
Se a turma agüenta eu falo de pimenta
E se estrilhar eu meto um vatapá
Sou deputado baiano
Eu quero é falar.”


Como evidência de que os costumes estavam mesmo em irresistível processo de transformação, os bailes carnavalescos em que os travestis faziam a festa eram ensejo para as grandes revistas elaborarem várias reportagens sobre o assunto, dando enorme publicidade ao acontecimento. Aproveitando o mote, Paulo Gracindo e Carvalhinho compuseram Vai Ver Que é, uma marchinha satírica e maliciosa, um dos maiores sucessos do ano nas vozes dos veteranos Joel de Almeida e Aracy de Almeida:

“Se veste de bacana pra fingir que é mulher
Vai ver que é...
Vai ver que é...
No baile do teatro
Ele diz que é Salomé
Vai ver que é...
Vai ver que é.

Cuidado minha gente com esse tipo de rapaz
Diz que é gente bem, ninguém sabe o que ele faz
Se perde a lotação, nervosinho bate o pé
Vai ver que é... Vai ver que é...”




Ouça Joel de Almeida interpretando Vai Ver Que É.



Jorge Goulart foi o intérprete de uma marchinha crítica à inflação que estava assolando as massas e à falta de diversos produtos na mesa do brasileiro nesses últimos tempos de governo juscelinista. De autoria do veterano Antônio Almeida, em parceria com José Batista, Vai Tudo Bem, também fez razoável sucesso e foi bastante executada:
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“Vai tudo bem
Pelo lado de lá
Pelo lado de cá
O que é que há.

Não há água, nem leite, nem pão
Carne não se come, faz baixar a pressão
O café vai de marcha à ré
Em compensação, o Brasil foi campeão.”
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Por falar em Brasil-Campeão, a vedete Angelita Martinez teve uma fugaz consagração no carnaval desse ano, com a gravação da marchinha Mané Garrincha, de Wilson Batista e Jorge de Castro, letra composta exatamente para que os foliões a alterassem, dando-lhe um significado malicioso, e que foi cantada a plenos pulmões com a letra modificada. Ganhou de quebra as atenções da vedete, em um romance que fez as delícias dos paparazzi tupiniquins:
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“Mané Garrinha, Mané Garrincha
Até hoje meu peito se expande
Mané que brilhou lá na Suécia
Mané que nasceu
em Pau Grande.


Não é só café
Que nós temos pra vender
Dribla, dribla Mané
Para o mundo inteiro ver.”
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Um assunto hilário tomou conta de todo o Brasil em meados do ano anterior, 1958. Segundo se comentava, a carne de boi que a população consumia estava contaminada por hormônios femininos, fazendo com que os machões brasileiros, além de engordar muito, começassem a requebrar, desmunhecar, falar fino e ficar impotente, propenso mesmo a aderir aos prazeres homossexuais. A notícia se espalhou como pólvora, fazendo com que o consume de carne de boi caísse quase 80% nas grandes metrópoles. O governo teve que intervir energicamente para pôr fim aos boatos, o próprio ministro da Saúde, Mario Pinotti, tendo que se valer dos veículos de comunicação de massas para desmentir a balela. O secretário de Saúde de Minas Gerais, Álvaro Marcílio, também teve que criar uma comissão especial para estudar o assunto, considerando a notícia um despropósito e um desserviço para o país. Obviamente, o tema virou assunto para o carnaval. A marchinha Eu Hein Boi!, de Arnô Provenzano e Otolino Lopes (com o discotecário Fausto Guimarães entrando na parceria só para executar a música em seu famoso programa de rádio) fez sucesso na voz de Ângela Maria:
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“Boi, boi, boi
Eu não quero nem de quebra
Quem come a sua carne
Fala fino e se requebra.

Eu hein boi
Vou comendo bacalhau
Depois conto como foi.”

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Outra marchinha versando sobre o mesmo tema foi Boi da Cara Preta, de Paquito (1915 - 1975), Romeu Gentil (1911 - 1983) e José Gomes (o próprio Jackson do Pandeiro, utilizando seu verdadeiro nome), um dos maiores sucessos desse carnaval na voz da dupla Jackson do Pandeiro (1919 - 1982) e Almira Castilho:
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“Olha o boi da cara preta
Olha o boi da cara preta
(Menina)
Olha o boi da cara preta
Olha o boi da cara preta.

Coitado do Valdemar
Tá dando o que falar
Comeu carne de boi e falou fino
E deu pra se rebolar
(Que azar!).”
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Jackson do Pandeiro e Almira Castilho interpretando Boi da Cara Preta.




Com relação aos sambas, em sua grande maioria bastante fracos, Blecaute (1919 - 1983) foi o intérprete da melhor composição desse carnaval de 1959. De autoria de Jota Piedade (autor do mega sucesso de Dalva de Oliveira (1917 - 1972) Tudo Acabado), Orlando Gazzaneo e Jota Campos, Chora, Doutor se transformou em grande sucesso, talvez o mais cantado e executado em todo o país:
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Chora doutor, chora
Eu sei que o medo de ficar pobre
Lhe apavora
(Chora, doutor!).

O senhor tem palacete pra morar
Mas eu tenho um barracão e um amor
Ai, ai ai, doutor, ai, doutor
Eu só não quero ter a vida do senhor
(Chora, doutor!).”

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Os mesmos compositores acima mencionados (entrando nessa parceria Pedro Silva e saindo Jota Campos) compuseram outro samba bastante cantado e executado nesse carnaval. Até Logo, Crocodilo fez bastante sucesso na voz de João Dias (1927 - 1996):

“Até logo, crocodilo
Até logo, jacaré
O seu caso é lambreta
O meu caso é mulher
(Mulher, mulher)

Mulher é bom
Porque a gente pode amar
Tanto faz em Copacabana
Realengo ou Paquetá
E se tem lua cheia
A gente bota pra jambrar.”



Marlene, que conseguira muita badalação na imprensa brasileira no ano anterior, fruto de sua excursão a Paris, supostamente a convite da cantora francesa Edith Piaf, atuando na famosa casa de espetáculos Olympia, também marcou presença nesse carnaval, quando O Apito no Samba, de Luiz Bandeira (1923 - 1998) e Luís Antônio (1921 - 1996), mesmo não tendo sido composta para os festejos de Momo (fora lançada em 1958), começou a ser muito executada pelas rádios, caindo no gosto popular. Não foi um sucesso espetacular, mas colocou a cantora em evidência, já que a música continuou a ser executada mesmo após o carnaval:
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“Se você no samba de ‘Gente Bem’
Não vai encontrar ninguém
Apitando um apito no samba.

É porque o samba que vai nascer
Só vai mesmo acontecer
Quando houver um apito no samba.
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Venha ver squindô, squindô no terreiro
Que é pra ver o que é o squindô
verdadeiro.


E então você me dará razão
Chegando a esta conclusão
Que e preciso um apito no samba.

Que bonito é um corpo de mulher balançar
Que bonito é um corpo de mulher sambar
Suas saias vão correndo pelo chão
Seus pés que são o ritmo que nasce
Cresce, vibra (ah!)
Viva o apito no samba.”

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Dorina interpretando Apito no Samba.



Um cantor de quem nunca mais se ouviu falar, chamado simplesmente de Zezinho, foi o intérprete de outro bom samba desse carnaval, versando novamente sobre a Estação Primeira da Mangueira. Com letra pequena e simples, Levanta, Mangueira, de Luís Antônio, acabou caindo no gosto dos foliões, entrando também no time das mais executadas:
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“Levanta Mangueira

A poeira do chão
Samba do coração.

Mostra a sandália de prata da mulata
A voz da cuíca do tamborim
Mostra que o samba nasceu em Mangueira
Sim.”

Zilda do Zé continua, nesse carnaval, a prantear (com algum lucro, é claro) a morte de Zé da Zilda, seu companheiro morto poucos anos atrás. Mesmo não alcançando o mesmo sucesso de sambas carnavalescos dos carnavais recentes, Vem me Buscar, de autoria da própria Zilda, mais Aírton Borges e Adolfo Macedo, graças a um árduo trabalho de divulgação da própria compositora, também conseguiu se destacar dentre tantos sambas medíocres:
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“Vem, vem me buscar

Há quanto tempo eu vivo a esperar.

Juro que não posso acreditar
No que aconteceu
Todos falam pra me conformar
Mas quem sofre sou eu.”

Cantor novato (cunhado de David Nasser, autor, em parceria com Armando Cavalcanti, da toada Geada, sua primeira gravação) e um dos primeiros cartazes da televisão brasileira por sua pinta de galã, Roberto Audi (1934 - 1997) lançou o samba Telefonei, um de maior destaque desse carnaval, de autoria, no que pode ser considerado um recorde, de nada menos do que quatro compositores, Geraldo Babão (1926 - 1988), autor do samba-enredo desse ano da G.R.E.S Unidos de Vila Isabel, Castro Alves, Poeta dos Escravos, Noel Rosa de Oliveira (1920 - 1988), autor, em parceria com Anescarzinho do Salgueiro e Walter Moreira, do samba-enredo Quilombo dos Palmares, que ganharia o carnaval do ano seguinte, 1960, Moacir Vieira e J. Hugo:

“Telefonei
Foi ela mesmo quem me atendeu
Aborrecida ela me avisou
O nosso amor morreu.

Felicidade
Vai na paz de Deus
Com os caprichos teus
Mas uma coisa posso te afirmar:
Não vou mais telefonar
(Telefonei).”

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Da mediocridade geral, outro samba que conseguiu certo destaque foi Rolei, de Paulinho Aguiar e Milton Rocha, gravação de Ângela Maria:

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“Eu rolei, rolei
Como pedra eu rolei
Penei, penei e só parei
Quando eu lhe encontrei.

Você iluminou a minha vida
Amenizando o meu padecer
Só agora eu pude saber
Que sem você
Eu não posso viver.”


Outras músicas que tiveram somente um razoável destaque nesse carnaval de 1959: Meu Carnaval (Nílton Paz), Na Paz de Deus (Emilinha Borba), Papai é Camarada (Dircinha Batista), Garota Enxuta (João Dias), Perdão Amor (Gilberto Alves), Reconciliação (Zilah Fonseca), Serenata de Pierrot (jamelão), Maria das Dores (Emilinha Borba), Marinheiro (Risadinha), Ou Vai Ou Racha (Vocalistas Tropicais), Dá um Jeito, Nonô (Carequinha), Velhice Transviada (Gilberto Alves), Duas Rotações (Jorge Veiga), A Mulher de Fu Manchu (Aracy Costa), Menina de Copacabana (Neusa Maria), A Taça do Mundo é Nossa (Coro RGE), Maria dos Anjos (Lamartine Babo), Uma Grande Dor (Orlando Corrêa) e Pra Que é Que eu Vim do Norte (Nádia Maria).

5 comentários:

Blogger Vanuza said...

E pensar que eu vivi esse tempo...SOU FELIZ!!!Vanuza Pantaleão

17/1/08  
Blogger VANUZA PANTALEÃO/OBRA LITERÁRIA said...

Não me canso de voltar aqui...é uma viagem ao túnel do tempo.Um tempo que parecia durar para sempre.Minha mãe era EMILINHA doente, mas dona MAZÉ (Maria José) se foi e a Rainha das Marchinhas também.Parabenizo, de coração, ao colega que teve essa iniciativa!

10/4/08  
Blogger VANUZA PANTALEÃO/OBRA LITERÁRIA said...

Sempre vou estar por aqui, viajando no tempo e sonhando com a Rádio Nacional e a menina Vanuza Pantaleão querendo ser artista, cantora, de preferência, risossss.

10/4/08  
Blogger VANUZA PANTALEÃO/OBRA LITERÁRIA said...

Amigo, como admiradora da sua pesquisa e blogueira principiante, gostaria, se possível que me auxiliasse no seguinte ponto:como poderei me cadastrar para entrar de forma independente no BUSCADOR DO GOOGLE.Desculpe o incômodo e muito grata! Vanuza Pantaleão

13/4/08  
Blogger Samuel Pessoa said...

Eu queria ser daquela época. Saudades do que não vivi. Hj prefiro nem comentar a negação que esta. Parabens a vcs.

24/9/14  

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